quinta-feira, 26 de maio de 2011

ESTA É A CIDADE

Um senhor anda apressado, trajando terno escuro e com a pasta executiva, provavelmente está atrasado para alguma reunião; a moça de branco vai daqui a pouco aprender mais alguma coisa sobre os ossos do corpo humano; o homem de amarelo e azul olha o envelope colorido e procura nas fachadas dos edifícios o número do destinatário; o rapaz de uniforme apita estridente e agita freneticamente os braços, apressando o movimento dos carros; a mãe ralha com o menino que teima em olhar para a vitrine da loja de brinquedos; ela tem pressa, pode perder o ônibus, e o outro só daqui a sei lá quanto tempo; um rapaz de banho tomado e camisa nova olha para a direita e para a esquerda, espera alguém que já se demora, parece; deve ser uma mulher, talvez um outro rapaz; ele olha para o relógio e franze a testa; um menino esfarrapado e sujo, o nariz escorrendo, estende a mão pequenina e com sua pequenina voz pede uma moeda, mas na verdade o que ele quer mesmo talvez seja um pouco de carinho e de atenção. Esta é a cidade. Casais de namorados de mãos dadas perambulam bobos pelo parque, naquele doce alheamento sobre o futuro de sua relação, quando a tendência é mais dia menos dia tudo terminar numa tola discussão na porta do cinema sobre que-filme-vamos-ver; uma senhorinha de uniforme laranja arrasta a vassoura de piaçava pela calçada, no mesmo instante em que uma garota de óculos escuros, i-pod e tênis all-star acaba de lançar o papel do chicletes que masca displicente; um carro importado sem cerimônia estaciona na faixa de pedestre; a dona de bengala e bíblia olha conformada a rua por onde então terá que passar, isso se os sacos de lixo deixarem; um mendigo parado com uma expressão abobalhada, diante do cartaz de uma seminua musa de cerveja; um operário abraça a namorada num canto escuro da calçada; uma melodia tristonha sai do rádio de um cego que pede esmola e um menino oferece, numa bandeja de doces, o sabor da vida. Enquanto isso, os cartazes anunciam a felicidade a preços populares para o rebanho triste que anda em fila indo para casa. Esta é a cidade. Uma sirene pede passagem ao tráfego intenso; alguém está morrendo nesse instante atado aos tubos de oxigênio ou ao aparelho desfibrilador. Na outra esquina, alguma criança com corpo de moça vende a ilusão de um amor que não sente, de um prazer que nunca experimentou a quem tem pouco dinheiro para comprá-lo. Esta é a cidade.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

DA RUA AMIANTO

Sinceramente, essa arquitetura não me interessa mais
Essa pintura antiga das fachadas não faz mais diferença
A novidade de tudo nessa cidade é algo que mais me atrai
Eu vi ouro e prata em outros tempos
E grandes senhores de quem fui rei
Mas essa noite fui sem saber o mais pobre dos homens
Diante da dona do meu país
Pelas ruas de pedra eu deixei passar os instantes
Quase sem acreditar no que vi
Como se fosse realmente real e não um teatro como a vida
que eu sempre li
Para o bem da verdade, essas histórias da fantasia
Não me dizem nada mais e é
Melhor ver do que sentir
- que o sonho só existe quando não se vive.

domingo, 22 de maio de 2011

ONZE E MEIA

Vai para casa então
E lá se deite
para perder o sono
Lembre-se do que eu disse essa noite
E nunca mais se esqueça
Ligo amanhã
quando acordar.

A LINGUAGEM DAS MÃOS

Olho mais para suas mãos do que em seus olhos
Porque aquelas mais que estes desenham estrelas e caminhos
Criam idéias, ilusões
Mas eu imagino
Que contornos teriam na ausência da visão.

Vejo mais claro pelo gesto que pela explicação
Que um só deles contém tudo o que é preciso:
Se fosse dito teria menos sentido.

O SEGUNDO SINAL

Já fui lá fora mais de não sei quantas vezes. Olhei a rua de um lado e de outro, e mais de uma vez vi uma garota morena de cabelos curtos, de vestido indiano e bolsa de crochê. Mas não era você. O relógio está marcando 20:55, e o espetáculo do Galpão está marcado para as 21. Estamos no horário de verão. Começou hoje. Adiantar o relógio em uma hora. Tanto que quando eram seis da tarde - a hora em que eu cheguei aqui - ainda estava dia claro. Cheguei tão cedo porque queria ser o primeiro a chegar, os lugares não estão marcados, e eu ia ficar de plantão na porta do teatro para pegar a primeira, no máximo a segunda fila. Gosto de ficar bem perto do palco, ouvir o ruído dos passos dos atores sobre o piso de madeira, notar detalhes mínimos do espetáculo, prestar atenção em tudo. E o mais ainda era ter a expectativa de ver você aparecer lá longe na rua, vir se aproximando de mim, me reconhecer no meio do povo, como se estivesse ali só por minha causa. Você iria me dar um abraço, um beijo no rosto. Então nós iríamos nos atualizar sobre nossas novidades, você iria me contar sobre as agruras de se formar, sobre os problemas na sua casa, sobre os amigos comuns que sumiram, sobre o que você anda lendo. Eu ia falar sobre a chatice do meu emprego, sobre a minha filha, sobre eu ter mudado de casa outra vez em menos de um ano. Enquanto esperássemos pelo início da peça, tomaríamos uma xícara de capuccino na cafeteria do teatro -está fazendo frio - e ficaríamos zapeando as prateleiras da livraria. Mas já são 21h, o primeiro sinal já tocou, e você que não chega. Passa pela minha cabeça, e aperta o meu coração, a possibilidade de você não vir, me dar um "bolo" como daquela vez ano passado. Depois você se justificou dizendo que era por "coisas de mulher", essas coisas de todo mês. Eu disse que tinha entendido, que "tudo bem", mas assisti o espetáculo sozinho, com um gosto amargo na boca; fiquei um tempo triste e aborrecido, mas depois que você apareceu lá na faculdade - como se não tivesse desaparecido - e eu esqueci tudo no mesmo instante em que te vi de novo. 21:02. A platéia lotada já, casais juntos, famílias inteiras na mesma fila, todos ansiosos e alegres, bem arrumados para a ocasião. E eu na porta do teatro ainda, olhando para a esquerda e para a direita, vendo você em todas as moças que passam, mas nenhuma delas é você. Nem precisa mais da bolsa de crochê, nem do vestido indiano, nem dos cabelos curtos. Não precisa nem mesmo ser morena, confundo todas com aquela a quem espero ansiosamente, a única que me interessa em toda a cidade. A única que eu amo. 21:05. Segundo sinal. Ah, não, de novo, não!
Então, de repente, lá no Mercado das Flores, uns cento e tantos metros de onde eu estou, aponta uma garota de vestido indiano, cabelos curtos e bolsa de crochê. Morena. É ela! Em cima da hora! Os passos apressados dizem que ela está ansiosa também, que veio quase correndo pelas ruas desde o ponto em que ela desceu do ônibus dela. Quando me vê, aflito, sorri: "Desculpa. Esqueci do horário de verão".

sábado, 21 de maio de 2011

A IDÉIA DO FIM

No plano e no espaço onde penso que existo,
Apenas um ponto infinitesimal e finito
diz que sou algo menor do que realmente me sinto
e que um dia qualquer não serei nem isso
Nem haverá de mim qualquer sinal.

QUASE O TEMPO

Eu e você não nos encontraremos
por muito tempo
Depois de hoje quem sabe
Se haverá outro acaso
Numa cidade tão grande

Nessa noite conversaremos
por muitas horas
sobre a saudade.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A OUTRA FACE

Me apego ao que me foge
e a dor que sinto me cai bem
vigio o algoz para que ele me alcance
E faça o mal que prometeu
É isso ou a solidão
Que causa medo.

NÃO PODEM SABER

(Para Grissom e Sara)

Se eu me surpreendesse
Não seria surpresa
Pois suspeito o que viria a ser
Embora eu não tenha a menor idéia do que me espera

Me acostumei a não crer
Tendo esperança
E a te querer abrindo mão de ti
Discretamente te assediando a distância.

ESTRANHOS ÍNTIMOS

Acabou o resto de amor
Um pedaço que nenhum dos dois guardou
Achando que daria
Um de nós roubou a melhor parte do que a gente seria
E eu diria que esse alguém era eu
Mas não digo
A gente pensava cada um por si
Sem saber o que o outro queria
Achando que era igual

MERO ACASO

É quase certo que hoje não será:
Mas eu espero.

INDISCRIÇÃO ALHEIA

Pelo meu silêncio já se vê
que eu queria dizer o que não digo:
Qualquer olhar desatento
já saberia o meu segredo.

terça-feira, 29 de março de 2011

AMOR NÃO TEM PREÇO

Recompensa de R$ 1.000 é oferecida para quem achar cão de morador de rua
O cachorro Neguinho sumiu quando Renato foi levado para um abrigo da prefeitura

Do R7, com Rede Record

Uma recompensa de R$ 1.000 é oferecida para quem encontrar o cachorro de um morador de rua na zona sul do Rio de Janeiro. O cão atende pelo nome de Neguinho. Renato, que vive numa praça em Ipanema, foi levado à força por uma equipe da prefeitura para um abrigo. Para não perder o melhor amigo, ele deixou o cão amarrado a uma grade, mas quando voltou, poucas horas depois, o animal não estava mais lá.

Uma moradora, que se solidarizou com o drama de Renato, decidiu ajudá-lo, mandou confeccionar os cartazes e prometeu ajudar com parte da recompensa de R$ 1.000.

- O Renato pegou o Neguinho com quatro meses. Então é um pai e um filho, uma relação muito bonita com o animal que é o nosso amigo mais fiel mesmo.

Quando voltou à praça, Renato soube que duas mulheres pensaram que o cãozinho estava abandonado. Elas chegaram a comprar ração e uma coleira nova para Neguinho e levaram ele.

Renato, que conseguiu um emprego e uma casa para morar, diz que ainda não deixou a praça com medo de o animal voltar.

- Já tinha perdido a minha família, tudo que eu tinha o governo já tirou e agora me tiraram a única coisa que era um apoio de vida, que fazia eu me sentir vivo, me sentir alguém. Oportunidade para subir na vida eu já ganhei, já está quase tudo pronto, mas se eu estou demorando a ir, é por causa do meu cachorro, sem ele eu não consigo.

domingo, 27 de março de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

É BOM VIVER (2)

sábado, 19 de março de 2011

QUEM, COMO, ONDE, PORQUÊ?



Uma análise de CSI Las Vegas – Investigação Criminal.



"Se você quer pegar um rato, aja como um rato, e não como um gato". A frase dita pelo perito forense Gil Grissom (William Petersen), supervisor do turno da noite do Departamento de Criminalística da Polícia de Las Vegas serve bem para resumir o que um grupo de técnicos munido de sua parafernália tecnológica fazem para chegar às respostas das quatro questões propostas pelo título desse artigo: quem fez o quê, como conseguiu fazê-lo, em que lugar o fato concreto se deu, e que motivações – abertas ou ocultas – estavam em jogo no momento crucial do ato. Entender o criminoso – diz Grissom – é pensar como ele, é compreendê-lo até, e é interpretar seus sentimentos e motivos; antes mesmo de realizar o pré-julgamento moral que somos tentados a fazer diante de um criminoso, nós, "cidadãos de bem", deveríamos nos ater aos fatos concretos, entendê-los, saber como chegou o ponto em que alguém, em sua sã consciência, foi levado a cometer um ato lesivo à vida ou ao patrimônio de um semelhante. E chegar a estas respostas depende não só do emprego de meios fornecidos pela ciência e pela tecnologia, mas exige método, muita intuição, esforço, coragem, um pouco de sorte e uma boa dose de paciência.
Tudo começa no grande teatro de operações chamado "a cena do crime" ( é por isso que a série se chama Crime Scene Investigation). O local e seu perímetro é exaustivamente esquadrinhado, dissecado,fotografado, escaneado por engenhocas sofisticadas ou pelos olhos experientes, perspicazes e bem treinados dos CSI’s, que é como esses peritos forenses são chamados. Tudo para ver com os olhos do suspeito e da vítima, enxergar o que estes viram na hora do crime, colocar-se no lugar dos personagens da ação. Não se trata, porém, de voltar no tempo – algo fisicamente impossível, como observaria Grissom - mas de tornar a vivê-lo como no instante em que ele se deu e, de preferência, no lugar exato. Daí, cabe aos CSI’s colher em campo cada fiapo de informação que o local do crime pode fornecer para recontar a história, cada pedacinho de cada pequeno detalhe tem que ser cuidadosamente recolhido e etiquetado, classificado pela sua importância no contexto. Um caco de vidro, um toco de cigarro, um fio de cabelo, uma goma de mascar, um bilhete, uma carta, fluidos corporais no lençol da cama – sangue, suor, sêmen – podem indicar quem estava ali, e quando, e com quem, e sabe se lá fazendo o quê, até que o desenrolar dos fatos resultasse em homicídio, suicídio, furto, incêndio, faces do mal materializadas pela ação ou a omissão de um ser humano, contra si ou seus
semelhantes. Cabe a eles repetir os passos da vítima e do seu algoz, ouvir o diálogo que aconteceu então, reproduzir os gritos, as acusações, as recriminações, atirar de novo exatamente na mesma direção, se possível usando a mesma arma. E recolher os vestígios deixados pelo descuido do criminoso, como uma pegada no chão, uma marca de pneu no asfalto, uma faca suja de sangue na cozinha, pêlos no ralo do banheiro, restos de comida na lata de lixo da calçada. Depois, levar tudo isso
para o bem equipado Laboratório Criminal, onde aparelhos e produtos químicos com nomes complicados irão extrair daqueles objetos aparentemente inutéis a verdade sobre um crime, e a pista para chegar aonde o criminoso está. É no Crime Lab que o
"crime perfeito" começa a ser desmontado para ser recriado nos monitores de computador, na máquina que encontra em segundos a única combinação possível dentre milhões de perfis de DNA, e no AFIS, que encontra também entre milhões a digital que
corresponde exatamente àquela colhida na cena do crime. Com a identificação positiva em mãos, agora é só ir atrás do bandido, já que agora sabemos tudo sobre ele - onde mora, quem é e o que faz,e porque está fichado. É aí que às vezes nos surpreendemos com a revelação saída da máquina de DNA ou do AFIS. O criminoso, o bandido, pode ser de alta periculosidade, condenado e procurado em todo o país, ou pode ser aquele seu vizinho estranho, que não conversa com ninguém; pode ser alguém em quem você mais confiava, até mesmo alguém da família, seu pai, sua mãe, sua mulher, seu filho adolescente, sua filha querida. Às vezes você descobre que seu mais leal empregado está roubando o caixa, que seu melhor amigo está tendo um caso com a sua namorada, que seu marido está te traindo com a sua melhor amiga. E que cidadãos "acima de qualquer suspeita" podem se transformar em maníacos sanguinários, em habéis farsantes, em assassinos covardes; a máscara social de "cidadão de bem" cai por terra e revela a sua verdadeira face. Mesmo o pai de família que parece o mais dedicado pode às vezes se revelar um monstro: comete abuso sexual contra a filha no quarto do casal. A mãe super protetora, capaz dos maiores sacrifícios para proteger os filhos, pode estar nesse mesmo instante colocando veneno na comida deles. As pessoas de quem jamais esperaríamos tais atitudes acabam confessando diante do interrogador o segredo terrível, a falta grave, o desespero que levou a consequências trágicas, causou danos irreversíveis, muito desproprocionais ao agravo. Muitas vezes, uma pessoa, no auge da emoção, na violência da paixão, acaba por extravasar o pior de si: a sede de vingança, o egoísmo, a mesquinhez, a covardia, a possessividade muitas vezes confundida com amor.
A parte mais difícil e dolorosa do processo, aquela que nenhum dos profissionais gosta é a de ter que lidar com os mortos e a comunicar aos vivos a perda de seus entes queridos, é ter que levar o pai ou a mãe, a namorada, o amigo da vítima para
reconhecer o corpo - ou partes desfiguradas dele - guardado na geladeira do necrotério do Departamento de Polícia, uma etiqueta no dedão do pé com o nome ou, se desconhecido, apelidando-o de "John Doe" (fulano), número tal. As lágrimas, os gritos, os desmaios quando o funcionário do necrotério puxa a gaveta e mostra ao parente o corpo do seu ente querido, são de cortar o coração mesmo dos mais experientes. Ver inerte em uma bandeja fria de aço o menino alegre que acabara de ganhar o campeonato de futebol na escola, a garotinha do papai, a mulher da sua vida deve ser a pior experiência, ainda mais quando se sabe ou se desconfia que a morte foi provocada por alguém. Deve ser terrível para um pai ou uma mãe saber que aquela sutura em forma de Y no peito do cadáver do filho indica que os seus órgãos internos foram removidos pelo legista-chefe, à procura de algum indício que revele a COD (cause of death, causa da morte), à procura dos fragmentos da bala fatal, da substância venenosa, de alguma coisa que possa levar a quem fez aquilo. É em cima de uma mesa de aço, com serras elétricas para cortar a carne dos
cadáveres, pias e bacias para recolher e processar vísceras humanas, que a cara da morte se mostra.






O legista Robbins, um simpático e falante velhinho que usa muletas, mostra a Grissom num pedaço de cérebro, num coração recém extraído, numa amostra de tecido humano, a explicação científica sobre como a vítima morreu, por onde e como é que a bala entrou, qual pode ter sido a substância letal que a vítima ingeriu.
Grissom sempre diz a seus subordinados que eles são "a voz da vítima" e que, se os mortos não falam, mostram alguma coisa que pode ajudar a descobrir o que ou quem os matou. Se lutaram pela vida, se reagiram à agressão, deixarão nas suas vestes, nos seus objetos, no próprio corpo a marca do agressor: lesões de defesa, como arranhões e perfurações secundárias, não aquelas que efetivamente causaram a morte; traços do DNA do suspeito nas roupas, sob as unhas, numa taça, num guardanapo de papel, no
controle remoto da TV.Mas todas essas coisas - ou evidências, no jargão técnico dos peritos – e de novo citando o supervisor Grissom – são inúteis se não obtiverem o respaldo do rigor cientifico exigido pelos métodos da investigação forense, se as evidências não explicarem as impressões, se não houver uma correspondência unívoca e inequívoca destas em relação àquelas. Uma suposição – perigosamente eivada de "achismos" ou de julgamentos falhos e precipitados , às vezes até de preconceitos do próprio investigador– é totalmente inválida se não for submetida a rigorosos ensaios químicos, físicos e biológicos e enquanto não for demonstrado que de fato tem sentido, que aquela prova material, testemunhal ou circunstancial é definitiva e inquestionavelmente parte do cenário. No tribunal, diante de juízes e de promotores, uma prova material, por mais evidente que seja, pode ser sumariamente desqualificada se estiver contaminada pelo "ponto de vista" daquele que a coletou, se o crivo moral do investigador for mais importante que o objeto em si.
Quem faz esse todo trabalho é tão humano quanto o criminoso ou a vitíma, e é, apesar de toda a proficiência e treino, passível de cometer erros, de pôr tudo a perder por um deslize, de calcular mal. E os CSI's do nosso seriado são, antes de
tudo, gente de carne e osso; são heróis, mas não super-heróis: se levam tiros morrem, se caem da altura se ferem, sentem dor, ódio, compaixão, torcem o nariz diante de restos humanos em decomposição,choram e se irritam, não são indestrutíveis, não fazem os malabarismos inacreditáveis de outros filmes de "ação" que estamos acostumados a ver. E todos eles - já está na hora de apresentá-los - tem problemas.



Grissom, o supervisor, metódico, autocentrado e extremamente dedicado ao trabalho, quase perdeu a audição, por causa de uma doença hereditária; prefere a solidão de seu amplo apartamento em meio às suas estantes repletas de livros de entomologia, ao convívio com outras pessoas; por isso reluta em assumir de fato a paixão e a atração que sente pela subordinada, a CSI Sara Sidle (Jorja Fox), que também é apaixonada pelo chefe; mas esse relacionamento, contrário às normas do Departamento, tem que ser escondido de todos, custa a se estabelecer, a ser admitido por ambos, e sofre em silêncio a extrema dor de não poder ser aberto ao mundo. Sara, quando criança, viu a mãe esfaquear o pai até a morte, e até hoje vive com os fantasmas do passado; passou a infância e parte da adolescência em abrigos, e já teve problemas com álcool - uma vez foi pega no teste do bafômetro.



Warrick Brown (Gary Dourdan) é viciado em jogo (é uma tentação para ele viver em Las Vegas,onde em cada esquina há um cassino), toma um remédio para dormir e outro para manter-se acordado, e já se envolveu em um caso de extorsão com um juiz corrupto, além de ter que conviver com a culpa por ter não ter evitado o assassinato de Holly Gribbs, uma CSI novata que estava a seus cuidados. Warrick deixou a perita sozinha na cena do crime e foi jogar pôquer num cassino. O suspeito voltou ao local e atirou nela.



Catherine Willows (Marg Hengelberg) que já foi dançarina num clube de striptease, tem uma filha adolescente, um divórcio conturbado, um pai milionário (dono de cassino),suspeito de vários crimes; e, apesar de linda, nunca teve sorte com os homens.



O Detetive Jim Brass (Paul Guilfoyle), foi alvo de uma sindicância interna por que teria atirado num policial durante uma perseguição a ladrões de carro; divorciado, tem uma filha adolescente problemática, prostituída e drogada, e que o odeia mas fica de olho no seguro de vida do pai, quando este se vê entre a vida e a morte depois de ser baleado.




Nick Stokes (George Eads) o mais atlético e corpulento do grupo, ex jogador de basquete na faculdade, revela que foi vítima de abuso infantil por parte de uma babá; no trabalho, foi perseguido por um maníaco, foi enterrado vivo, acusado de matar uma garota de programa, e de deixar vazar uma investigação sigilosa do Departamento. Com tudo isso em seu desfavor, com os traumas e neuroses cotidianas que todos nós vivemos, seria de se esperar que a vida pessoal dos investigadores interferisse de maneira significativa no trabalho deles, chegasse a comprometer o resultado das suas diligências. E é isso mesmo que acontece: uma vez Sara é vista acariciando o rosto do chefe; isto é o bastante para um promotor colocar em dúvida toda a investigação; em outra ocasião, o vício em jogo de Warrick é questionado diante de um júri, e o todo o trabalho que o investigador teve quase demonstra-se inútil; Nick, que é o que mais toma as dores da vítima, muitas vezes chega a agredir um suspeito; mesmo Grissom, um dos mais respeitados e famosos criminalistas do país, tem sua credibilidade posta a prova porque, devido à perda progressiva da audição, não consegue entender a pergunta da promotora no julgamento; Catherine uma vez faz explodir o laboratório, simplesmente porque esquece uma substância inflamável perto de uma fonte de calor; interrogada, ela desabafa: passa dezesseis horas por dia no trabalho, quatro tentando dormir e as quatro restantes tentando controlar os impulsos da filha adolescente. Além disso, não pode investigar os crimes atribuídos ao pai. A complexidade dos dramas morais, afetivos e psicológicos dos personagens é o que os torna humanos como nós, e é o que faz nos identificarmos com eles; no entanto, o profissionalismo, a dedicação, o sentimento do dever, o esforço quase que sobrehumano falam mais alto que as dificuldades: horas e horas extras, dias de sono (eles trabalham à noite) perdidos, risco de morte iminente a cada novo caso, nada disso tira deles a vontade de descobrir a verdade, o amor pela justiça, o empenho para chegar aos culpados e fazer com que estes sejam punidos, para dar algum conforto espiritual aos que perderam um ente querido de forma cruel e trágica.

quinta-feira, 3 de março de 2011

ANTES DO DIA SEGUINTE

Antes foi o tempo de ser
o que se vai contar
Do que deixou para sempre de existir
só eu sei o que será
Quando um dia eu me lembrar
que não me esqueço.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

(sem título)

O leite derramado
tem gosto de pó.

sábado, 29 de janeiro de 2011

sem título

Que seja fantasia isto que eu sinto
Mesmo que me cause dor e alegria
Que só me faça sentido sendo ilusão
Coisas reais foram inventadas pela imaginação:
Antes de existir avião
Ícaro voava.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

É BOM VIVER

A última vez que escrevi aqui (olhem no post anterior) foi em setembro do ano passado. Não que nesse período não me tenha acontecido nada digno de ser registrado, pelo contrário. Os últimos meses foram agitados e movimentados em minha vida, no mau e (mais no) bom sentido. O intervalo entre setembro e aqui, no que diz respeito a este blog, não foi aplicado em manter as postagens em dia por um único e simples motivo, que é um dos sete capitais: preguiça. Eu poderia justificar-me dizendo que tive dificuldades em me conectar, já que fiquei um bom tempo sem internet em casa, e gastar rios de dinheiro nas lan-houses por aí não era definitivamente uma boa idéia; falta de assunto, de novidades, de altas aventuras, também não foi por isso que não tive a boa vontade de sentar na frente de um computador e digitar meninohomem.blogspot.com. Foi por pura preguiça mesmo. Indolência. Se eu estou perdoado por isso, espero que ainda me seja permitido voltar a escrever nesse espaço. De setembro até aqui, como eu já falei, várias coisas aconteceram. Meu país agora é pela primeira vez governado por uma mulher; o crime organizado no Rio de Janeiro recebeu um duro golpe das forças de segurança do Estado; o povo se alimenta melhor, tem mais empregos, compra mais coisas, bugingangas eletrônicas, carros, sonha mais e mais realiza seus sonhos. Há um clima de euforia genaralizada, uma esperança que pode ser vista no olhar de todos. Mas ainda há tragédias, as naturais e as provocadas pela mão do homem, há a miséria, a mancha da violência, há o caos no trânsito, que atrasa a vida e às vezes a interrompe para sempre. Ainda se pode ver naqueles mesmos olhares a falta absoluta de esperança - é uma contradição, sim - a tristeza em ver o trabalho de uma vida sendo levado literalmente por água ou morro abaixo. Ainda há quem não pode comprar, mesmo o indispensável para apenas sobreviver, ainda há quem não tem o direito de sonhar. Quanto a mim, o mais relevante é que entrei na fase dos "enta", da qual eu provavelmente não vou mais sair, a menos que um dia ter mais de cem anos seja possível pra todo mundo. Estou me surpreendendo cada vez mais em como a minha filha está crescendo, em como ela é sensível, bonita e inteligente e cada vez mais (no bom sentido) esperta. O meu trabalho continua a mesma coisa, as pessoas nunca vão parar de ser multadas no trânsito e sempre será necessário notificá-las dos seus erros e exigir delas a reparação imposta pelo Estado. Falo em trânsito, falo da loucura que é circular por esta cidade, e eu mesmo fui "vítima" dele, o trânsito: a duas semanas, numa tarde de quinta-feira como esta, eis que eu estava na rua, em uma grande avenida da região Norte de Belo Horizonte, quando começou uma chuva torrencial. Do outro lado da rua, havia um abrigo de ônibus: querendo manter-me minimamente seco, a minha reação foi correr desembestado para baixo do abrigo. Só que entre o abrigo e eu havia o movimento dos carros. Não deu outra: um deles me pegou. A minha sorte é que o motorista teve o reflexo de frear bem em cima da minha pessoa. Eu fui atigindo lateralmente pelo automóvel (nem deu pra ver a marca). O saldo disso tudo foi, além do susto, uma escoriação no abdomen e ferimentos na mão esquerda, além de uma noite passada na emergência de um hospital público, onde eu vi todo o sofrimento humano: baleados, esfaqueados, politraumatizados, gente em ataque cardíaco, todo tipo de dor. Coisa que impressiona, choca, mas ensina que a vida é apenas uma e que tem muito valor. Já estou totalmente recuperado. E o carro escapou ileso. Bom isso já é passado.
Sinto falta de algumas coisas do meu passado recente, pessoas que eu gostaria de rever estão distantes, projetos que abandonei no meio do caminho eu queria retomar, se é que eles ainda possam ser retomados. Todo dia eu quero ir de novo aos lugares em que vivi, todo dia eu quero reencontrar e reatar os meu laços, os meus vínculos, os meus afetos. Todo dia eu digo que "daqui pra frente tudo vai ser diferente", mas aquele motivo lá do início deste texto me empurra pra trás e me faz ficar parado onde estou. Quem sabe agora?