segunda-feira, 11 de maio de 2009
MAÍSA E OS MONSTROS
A expressão tensa da menina no palco parecia indicar que algo não estava bem. Primeiro, ela se soltou bruscamente da mão do apresentador e se afastou dele, lívida e trêmula; logo depois, de olhos arregalados, ela viu aparecer no estúdio a rídicula figura de outra criança, fantasiada toscamente como um "monstro". Certo, o tal monstro não assustaria quase ninguém. Mas no caso da garota de seis anos chamada Maísa, atualmente a principal "atração" do programa dominical de Sílvio Santos, foi o bastante para que ela entrasse em pânico, e fugisse aos berros do estúdio. A platéia veio abaixo com as gargalhadas, como se aquilo fosse um show de palhaços. O apresentador chamava a menina em vão, pedindo que ela voltasse. Ela voltou, mas pouco depois, incitada pelo apresentador, que ameaçava trazer o "monstrinho" de volta, ela deixou o estúdio para não voltar mais. Sílvio Santos repetia: "essa Maísa não tem jeito mesmo...". Ora, trata-se de uma criança de seis anos. Por mais que ela pareça "espontânea" e "extrovertida" ela não deveria ser exposta a ridicularização pública a que é submetida toda tarde de domingo. Por mais que suas respostas às provocações do apresentador pareçam "inteligentes", ela não tem o discernimento e capacidade de julgamento necessários; é uma criança, e como reza o ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente - , deve ser preservada de situações constrangedoras e vexatórias, ou de ser exposta ao ridículo. O apresentador a provoca até o limite da sua paciência, para que ela, na sua inocência, faça o público cair na risada. Algumas pessoas com quem conversei sobre o assunto justificam a participação de Maísa no programa pela quantidade de dinheiro que ela deve receber pela atração, pelo "sucesso" que ela representa, pelos pontos de audiência que deve roubar das emissoras concorrentes. Ora, ela talvez não tenha consciência disso tudo, nem a noção do quanto "vale" no mercado televisivo - ela já foi "disputada" por outros canais. Maísa sequer pode usufruir legalmente de todo o dinheiro que tem. A administração dos ganhos dela deve estar nas mãos de alguém contratado pelos pais.
Num mercado como a televisão, em que toda novidade é perecível, não há de durar muito para que passe o "efeito Maísa" e ela caia no esquecimento, sendo substituída por outra bizarrice dessa natureza. No momento em que ela não gerar mais audiência (e lucros), quando o público não tiver mais interesse, quando se esgotarem todas as surradas piadas do apresentador para fazer a garotinha ficar nervosa, brava e sair correndo chorando, aí então é só colocar outra coisa no ar.
sexta-feira, 8 de maio de 2009
CINCO FRAÇÕES DE UMA QUASE HISTÓRIA

(Cinco Frações de uma Quase História, Brasil, 2008, 96 min. Direção dos episódios por Armando Mendz, Cristiano Abud, Cris Azzi, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia. Com Cláudio Jaborandy, Cynthia Falabella ,Gero Camilo,Jece Valadão,Leonardo Medeiros,Luiz Arthur,Murilo Grossi,Nivaldo Pedrosa. Disponível em DVD)
Você está cercado de malucos. Isso mesmo. Todos nessa cidade tem alguma coisa de loucura, em menor ou maior grau. São dois milhões e quatrocentas mil pessoas - sem contar as que vem de fora - vivendo a dor e a delícia da metrópole, negociando permanentemente com o caos, contra o tempo, buscando incessantemente um produto caro e difícil de se encontrar no mercado: a felicidade. Uma mercadoria que pode vir embalada de diversas formas. Bem perto, no carro ao lado, no assento do ônibus atrás de você, na fila do banco, no supermercado da esquina, há pessoas de todos os tipos, e você nem imagina do que elas são capazes. No meio de toda essa gente, vamos encontrar nesse "Cinco Frações de Uma Quase História" cinco tipos estranhos, cinco pessoas esquisitas, cinco histórias de vida que, no paroxismo de suas atitudes, no auge das suas paranóias e neuroses são muitos parecidos com todos nós. São animais urbanos. Pode ser alguém como um fotógrafo obcecado pelos pés femininos e os persegue pelas ruas, pode ser também um sujeito que se projeta nas imagens que vê na televisão, pode ser um reles funcionário de repartição que vê na proposta indecorosa do chefe uma chance de sair da vida mesquinha e medíocre que leva; pode ser uma secretária desiludida no amor que sonha em se casar, nem que seja na marra. Ou ainda pode ser um empregado de matadouro que pensa em se vingar da traição da mulher. São cinco seres humanos. O filme foi todo rodado em locações em Belo Horizonte, que aqui aparece nobre e discreta, como um pano de fundo para as histórias narradas, que em algum ponto se cruzam, sem contudo se tocar. Como acontece quando passamos por um estranho na rua. Por um instante ele pode até chamar sua atenção por causa de alguma atitude inusitada, mas logo depois segue levando a vida e você nunca mais o vê.
Assista ao trailer e leia mais sobre "Cinco Frações" no ótimo site oficial: www.cincofracoes.com.br/
segunda-feira, 27 de abril de 2009
CARTA PARA O FUTURO
Quando isso chegar a seu conhecimento
Já terá acontecido como passado
Vai ficar o relato guardado contigo para o tempo
como a história que lida num livro
volta a ser
Isto é o dia de hoje
dias e dias depois, e é o
Conto do instante em que está sendo
para você saber
que, quando ler o que está escrito,
ainda será assim do mesmo jeito.
Já terá acontecido como passado
Vai ficar o relato guardado contigo para o tempo
como a história que lida num livro
volta a ser
Isto é o dia de hoje
dias e dias depois, e é o
Conto do instante em que está sendo
para você saber
que, quando ler o que está escrito,
ainda será assim do mesmo jeito.
APRENDER A CAIR
Caio leve
como neve
para cobrir com um manto branco
o chão
Mas é
Para matar de frio e
Para virar avalanche
Que desabo suave do céu.
A chuva para encher o rio
e virar inundação
Não precisa ser tempestade:
Pode cair de mansinho.
como neve
para cobrir com um manto branco
o chão
Mas é
Para matar de frio e
Para virar avalanche
Que desabo suave do céu.
A chuva para encher o rio
e virar inundação
Não precisa ser tempestade:
Pode cair de mansinho.
ILHA DE SANTA HELENA *
Trabalha para o dia já perdido
Um pouco de sangue para o fim do tempo
Vai buscar o sustento dos sonhos já desfeitos
Nas intermináveis filas
Perca-se mais uma esperança, de todas as que já foram perdidas
A batalha mais importante da guerra:
Vencida.
*Napoleão Bonaparte morreu exilado na Ilha de Santa Helena.
Um pouco de sangue para o fim do tempo
Vai buscar o sustento dos sonhos já desfeitos
Nas intermináveis filas
Perca-se mais uma esperança, de todas as que já foram perdidas
A batalha mais importante da guerra:
Vencida.
*Napoleão Bonaparte morreu exilado na Ilha de Santa Helena.
domingo, 26 de abril de 2009
TONGUE TIED
TONGUE TIED (República Tcheca, 2004, 4min30s. Direção por Emily Sheskin. Com Ivo Hrbac, Marina Vradiy, Lenka Novotna)
sexta-feira, 24 de abril de 2009
ÍMPETO AFOITO
É a angústia que me controla os atos
E a inquietação quem me guia pelo caminho torto
Em buscar aflito o que me acalmaria
é a solidão que insiste em ter companhia para a noite
Mas do que nos serve a calmaria quando
desesperada pelo mar
Navega contra o vento
Do que vale a onda que se atira na pedra
Se morre na praia a maré cheia?
E a inquietação quem me guia pelo caminho torto
Em buscar aflito o que me acalmaria
é a solidão que insiste em ter companhia para a noite
Mas do que nos serve a calmaria quando
desesperada pelo mar
Navega contra o vento
Do que vale a onda que se atira na pedra
Se morre na praia a maré cheia?
CONVERSA DE MULHERES
Alguém me contou que te viu
hoje de tarde
Disseram que você estava brava
e se referiu a mim com nomes feios
Depois, às gargalhadas
Falou mal de todas as bobagens masculinas
E disse que eu era um dos piores da sua vida.
Esse alguém não soube, porém,
que na escuridão do seu quarto
Junto com a raiva que você sentia
vieram as lágrimas.
hoje de tarde
Disseram que você estava brava
e se referiu a mim com nomes feios
Depois, às gargalhadas
Falou mal de todas as bobagens masculinas
E disse que eu era um dos piores da sua vida.
Esse alguém não soube, porém,
que na escuridão do seu quarto
Junto com a raiva que você sentia
vieram as lágrimas.
terça-feira, 21 de abril de 2009
METADE DE DOIS
Meu amor é um ser inválido:
Tem apenas dois pés e dois braços
Amores comuns
Costumam ter quatro.
Tem apenas dois pés e dois braços
Amores comuns
Costumam ter quatro.
REMÉDIOS DO AMOR
REMÉDIOS DO AMOR (Brasil, 2002, 19 min. Direção por João Vargas Penna. Com Andrea Caruso, Bruno Murtinho, João Faleiro, Luciana Brites, Paulo André, Rodrigo Signoretti. Música por Marco Antônio Guimarães. Filmado no Edifício Niemeyer, Praça da Liberdade, em Belo Horizonte e em Ouro Preto)
ASSISTA no Porta Curtas (www.portacurtas.com.br)
Remédios do Amor
A ÍNTEGRA DO ROTEIRO
(Adaptado do "Sermão do Mandato" [1643] do Padre Antônio Vieira, [1608-1697])REMÉDIOS DO AMOR
CORO
(off)
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável: de amor: de amor nosso: e de amor incurável, e sem remédio:
VIEIRA
(off)
Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o pri-meiro rendido é o entendimento. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se ajuntam.
CORO
(off)
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável: de amor; de amor nosso;e de amor incurável, e sem remédio
VIEIRA
(continua em off)
O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tres-variar, se for amor.
VIEIRA
(em off)
São afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de have-rem de durar pouco, que terem durado muito;
VIEIRA
(continua, off)
São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas.
VIEIRA
(off)
De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira;
VIEIRA
(off)
embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge.
VIEIRA
(off)
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.
VIEIRA
(off)
Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera?
VIEIRA
(off)
Por isso os Antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho.
VIEIRA
(off)
O segundo remédio do amor é a ausência. Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar; o amor com a da terra.
VIEIRA
(off)
É o amor como a Lua, que em havendo Terra em meio, dai-o por eclipsado.
VIEIRA
(off)
E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos; que podem esperar e que se pode esperar dos ausentes?
VIEIRA
(off)
Se quatro palmos de terra causam tais efeitos; tantas léguas que farão? Em os longes passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor.
VIEIRA
(off)
Os olhos são as frestas do coração, por onde respira; e daqui vem, que o coração na presença, em que tem abertos os olhos, por eles evapora e exala os afetos;
VIEIRA
(continua, off)
porém na ausência, em que os tem tapados pela distância, que lhe sucede? Assim como o vaso sobre o fogo, que tapado e não tendo por onde respirar, concebe maior calor, e o reconcentra todo em si e talvez rebenta,
VIEIRA
(continua, off)
assim o coração ausente, faltando-lhe a respiração da vista, e não tendo por onde dar saída ao incêndio,(continua)
VIEIRA
(continua, off)
recolhe dentro em si toda a força e ímpeto do amor, o qual cresce naturalmente, e se acende e adelgaça de sorte, (continua)
VIEIRA
(continua, off)
que não cabendo no mesmo coração, rebenta em maiores e mais extraordinários efeitos.
VIEIRA
(em off)
A natureza e a arte curam contrários com contrários. Sendo pois a ingratidão o maior contrário do amor, quem duvida que este ter-ceiro remédio seria também o último e o mais presente e eficaz…?
VIEIRA
(em off)
A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão.
VIEIRA
(em off)
Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o con-verta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e pa-rece que o manda.
VIEIRA
(em off)
Que sentença mais justa, que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito.
VIEIRA
(em off)
O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunica-ção, a ingratidão tira-lhe o motivo.
VIEIRA
(em off)
E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver?
VIEIRA
(em off)
É pois o quarto e último remédio do amor, e com o qual ninguém deixou de sarar, o melhorar do objeto. Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é, que um amor com outro se apaga.
VIEIRA
(em off)
Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito;
VIEIRA
(continua, em off)
assim no mesmo coração não podem caber dois amores; porque o amor que não é intenso, não é amor.
VIEIRA
(continua, em off)
Daqui vem, que se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto.
VIEIRA
(continua, em off)
É o amor entre os afetos, como a luz entre as qualidades.
(off)
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável: de amor; de amor nosso;e de amor incurável; e sem remédio…
(…continua, em off)
Comumente se diz, que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim (continua…)
VIEIRA
(…continua, em off)
O maior contrário de uma luz, é outra luz maior.
VIEIRA
(continua, em off)
As estrelas no meio das trevas luzem, e resplandecem mais; mas em aparecendo o Sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas.
ASSISTA no Porta Curtas (www.portacurtas.com.br)
Remédios do Amor
A ÍNTEGRA DO ROTEIRO
(Adaptado do "Sermão do Mandato" [1643] do Padre Antônio Vieira, [1608-1697])REMÉDIOS DO AMOR
CORO
(off)
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável: de amor: de amor nosso: e de amor incurável, e sem remédio:
VIEIRA
(off)
Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o pri-meiro rendido é o entendimento. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se ajuntam.
CORO
(off)
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável: de amor; de amor nosso;e de amor incurável, e sem remédio
VIEIRA
(continua em off)
O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tres-variar, se for amor.
VIEIRA
(em off)
São afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de have-rem de durar pouco, que terem durado muito;
VIEIRA
(continua, off)
São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas.
VIEIRA
(off)
De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira;
VIEIRA
(off)
embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge.
VIEIRA
(off)
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.
VIEIRA
(off)
Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera?
VIEIRA
(off)
Por isso os Antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho.
VIEIRA
(off)
O segundo remédio do amor é a ausência. Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar; o amor com a da terra.
VIEIRA
(off)
É o amor como a Lua, que em havendo Terra em meio, dai-o por eclipsado.
VIEIRA
(off)
E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos; que podem esperar e que se pode esperar dos ausentes?
VIEIRA
(off)
Se quatro palmos de terra causam tais efeitos; tantas léguas que farão? Em os longes passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor.
VIEIRA
(off)
Os olhos são as frestas do coração, por onde respira; e daqui vem, que o coração na presença, em que tem abertos os olhos, por eles evapora e exala os afetos;
VIEIRA
(continua, off)
porém na ausência, em que os tem tapados pela distância, que lhe sucede? Assim como o vaso sobre o fogo, que tapado e não tendo por onde respirar, concebe maior calor, e o reconcentra todo em si e talvez rebenta,
VIEIRA
(continua, off)
assim o coração ausente, faltando-lhe a respiração da vista, e não tendo por onde dar saída ao incêndio,(continua)
VIEIRA
(continua, off)
recolhe dentro em si toda a força e ímpeto do amor, o qual cresce naturalmente, e se acende e adelgaça de sorte, (continua)
VIEIRA
(continua, off)
que não cabendo no mesmo coração, rebenta em maiores e mais extraordinários efeitos.
VIEIRA
(em off)
A natureza e a arte curam contrários com contrários. Sendo pois a ingratidão o maior contrário do amor, quem duvida que este ter-ceiro remédio seria também o último e o mais presente e eficaz…?
VIEIRA
(em off)
A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão.
VIEIRA
(em off)
Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o con-verta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e pa-rece que o manda.
VIEIRA
(em off)
Que sentença mais justa, que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito.
VIEIRA
(em off)
O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunica-ção, a ingratidão tira-lhe o motivo.
VIEIRA
(em off)
E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver?
VIEIRA
(em off)
É pois o quarto e último remédio do amor, e com o qual ninguém deixou de sarar, o melhorar do objeto. Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é, que um amor com outro se apaga.
VIEIRA
(em off)
Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito;
VIEIRA
(continua, em off)
assim no mesmo coração não podem caber dois amores; porque o amor que não é intenso, não é amor.
VIEIRA
(continua, em off)
Daqui vem, que se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto.
VIEIRA
(continua, em off)
É o amor entre os afetos, como a luz entre as qualidades.
(off)
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável: de amor; de amor nosso;e de amor incurável; e sem remédio…
(…continua, em off)
Comumente se diz, que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim (continua…)
VIEIRA
(…continua, em off)
O maior contrário de uma luz, é outra luz maior.
VIEIRA
(continua, em off)
As estrelas no meio das trevas luzem, e resplandecem mais; mas em aparecendo o Sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas.
segunda-feira, 20 de abril de 2009
HISTORINHAS CURTAS (2)
Aqui de novo flagrantes da vida alheia. Pequenos cotidianos, iguais aos de muita gente que eu conheço, parecidos com os dias que já vivi e vivo. Só as histórias é que falam de pessoas imaginárias, criadas -eu já falei sobre isso antes - pela imaginação de um autor ou de um roteirista. Mas as histórias poderiam ser de qualquer um de nós. Afinal, todos nós já vivemos a descoberta do primeiro amor, assim como da primeira desilusão amorosa; todos nós temos histórias alegres, divertidas e cômicas sobre a juventude, e um ou outro caso escabroso para esconder. Coisas do tipo fumar no corredor morrendo de medo de papai ou mamãe descobrir. Também eu e você já passamos pela aventura do primeiro emprego, do primeiro divórcio, do primeiro pedido de demissão. Esses curtas falam de descobertas, de redescobrimentos, de reviravoltas na vida necessárias para começar de novo, falam de ritos de passagem, da dura jornada a fase adulta da nossa existência, quando deixamos de ser para nos tornarmos, quando temos que deixar muita coisa de lado para formarmos a personalidade que vamos passar a ter.
ESPALHADAS PELO AR (Brasil, 2007.15 min.Dirigido por Vera Egito. Com Ana Carolina Lima, Estevan Santos, Renata Torralba Horta
ESPALHADAS PELO AR
ENGANO (Brasil, 2008, 11 min. Direção por Cavi Borges. Com Felipe Mônaco, Miila Derze
ENGANO
PERTO DE QUALQUER LUGAR (Brasil, 2007, 17 min. Direção por Mariana Bastos Com Caroline Abras (Gabi), Rafael Losso (Tom), Renata Gaspar (Julia), Victor Ribeiro (Rafa)
PERTO DE QUALQUER LUGAR
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE UM EDITOR DE PASSOS (Brasil, 2006, 16 min. Direção por Daniel Turini. Com Eduardo Gomes, Fernando Sato, Rita Batata, Vinícius Piedade)
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE UM EDITOR DE PASSOS
ESPALHADAS PELO AR (Brasil, 2007.15 min.Dirigido por Vera Egito. Com Ana Carolina Lima, Estevan Santos, Renata Torralba Horta
ESPALHADAS PELO AR
ENGANO (Brasil, 2008, 11 min. Direção por Cavi Borges. Com Felipe Mônaco, Miila Derze
ENGANO
PERTO DE QUALQUER LUGAR (Brasil, 2007, 17 min. Direção por Mariana Bastos Com Caroline Abras (Gabi), Rafael Losso (Tom), Renata Gaspar (Julia), Victor Ribeiro (Rafa)
PERTO DE QUALQUER LUGAR
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE UM EDITOR DE PASSOS (Brasil, 2006, 16 min. Direção por Daniel Turini. Com Eduardo Gomes, Fernando Sato, Rita Batata, Vinícius Piedade)
MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE UM EDITOR DE PASSOS
quinta-feira, 9 de abril de 2009
EARLY MORNIN'
Uma luz acesa, outra apagada
A cidade semi desperta
Meio (des)acordada
Ainda sonham os notívagos
Perambulam sonâmbulos
Os que trabalham já se levantaram
para a crua realidade da luz do dia.
A cidade semi desperta
Meio (des)acordada
Ainda sonham os notívagos
Perambulam sonâmbulos
Os que trabalham já se levantaram
para a crua realidade da luz do dia.
quinta-feira, 2 de abril de 2009

Achei mais uma adaptação para o cinema do conto "Noites Brancas" de Dostoiévski. Desta vez, trata-se de "Belye Nochi" (em círilico, белые ночи), dirigido por Ivan Pyryev com a atriz Lyudmila Marchenko no papel de Nástenka, Oleg Strizhenov interpretando o Sonhador sem nome e Anatoli Fedorinov fazendo o Inquilino. Essa versão do clássico de Dostoiévski segue à risca o texto original, ambientando a história de Nastenka e o Sonhador em São Petersburgo e na época histórica do conto dostoievskiano. Mas o diretor se permite "viajar" um pouco na imaginação dos protagonistas: quando o Sonhador fala dos seus sonhos e delírios, as imagens (de uma adorável singeleza) mostram-no nas situações em que ele se projeta; da mesma forma, quando Nastenka pensa em se "casar com um príncipe chinês" temos realmente as imagens de seus devaneios. Em "Belye Nochi" o Sonhador, já velho e decrépito, habitando uma espelunca suja e enfumaçada, relembra aquelas quatro "noites brancas" em que conheceu a mulher da sua vida, que quatro dias depois viu desaparecer da sua visão para sempre nos braços do Outro Qualquer.
[sem título]
Diz que foi sem querer:
Mas já quis -
E me fez infeliz por vontade
E me fez mal sem maldade
A vilã de filme infantil
Magoa de um jeito gentil
Me engana de boa fé
Mas já quis -
E me fez infeliz por vontade
E me fez mal sem maldade
A vilã de filme infantil
Magoa de um jeito gentil
Me engana de boa fé
quarta-feira, 1 de abril de 2009
NÃO SUMI
Escolho a data de hoje, 1º de abril, dia da mentira, para voltar a mexer no meu blog. Não é mentira que eu ando meio "preguiçoso" quando se trata de me manter em dia com a tarefa de postar minhas coisas aqui. Também não deixa de ser verdade que hoje em dia as coisas andam meio mornas, meio sem novidades. Não estou apaixonado por ninguém, não vi nenhum filme legal (embora tenha vários na "fila" pra ser assistidos), não li nada de interessante ultimamente. Minha vida tem sido o trabalho, que está tranqüilo, e as precupações de praxe. Quando criei esse "Menino Homem" a tempos atrás, eu esperava ter assunto pra todos os dias, achava que tinha que falar de tudo, mesmo quando não tivesse nada pra dizer. O tempo passou, passou também a empolgação da novidade. Falei em outro lugar aqui no blog que sempre acontece isso com quem se aventura a ter uma "faceta no ciberespaço". Acontece de tempos em tempos isso de a gente deixar o ciberespaço de lado para cuidar de coisas da Terra, para lidar com fatos concretos, agir off-line. É talvez o que esteja acontecendo atualmente. Mas hoje, justamente no dia em que nada que se diga pode ser levado a sério, é que eu volto à lida. Se for mentira, se amanhã mesmo eu sair de novo pra só voltar daqui a não sei quantos dias, a culpa não é minha...quer dizer, é sim.
sexta-feira, 13 de março de 2009
TRACEY THORN: "RAISE THE ROOF"
Tracey Thorn é da dupla britânica Everything But the Girl. O timbre delicado e doce da sua voz, as canções com levadas que às vezes lembram a nossa boa e velha bossa nova, as letras inspiradas, têm sido a minha trilha sonora ultimamente. Essa "Raise the Roof" encanta pela simplicidade do arranjo, pela batida eletrônica não tão "batida" como as músicas que são feitas hoje em dia e sobretudo por este vídeo, com sua singela historinha de amor. "Raise the Roof" é do trabalho solo de Tracey, "Out of the Woods", de 2007. Ouça.
Para mais coisas sobre Tracey, visite o site dela:
"Raise the Roof", o vídeo, foi dirigido por Eduard Grau e filmado em Bucareste, na Romênia.
Para mais coisas sobre Tracey, visite o site dela:
"Raise the Roof", o vídeo, foi dirigido por Eduard Grau e filmado em Bucareste, na Romênia.
terça-feira, 10 de março de 2009
NÃO DEVERIA SABER
Um tolo contaria
Para o inimigo
O segredo.
Eu disse a ela
Tudo o que eu sentia.
Para o inimigo
O segredo.
Eu disse a ela
Tudo o que eu sentia.
Terceiro sobre a leveza
No ar, a palavra mais simples
desenha a história
Que vou contar amanhã
Depois de descansar.
desenha a história
Que vou contar amanhã
Depois de descansar.
O JOGO DA MEMÓRIA
Colho fragmentos:
São cacos
Quando volto o tempo
No caminho
Ecos indistintos
E incompletos
Vaga impressão
De já ter visto
Pois faz tanto
Só que isto
Já não faz sentido.
São cacos
Quando volto o tempo
No caminho
Ecos indistintos
E incompletos
Vaga impressão
De já ter visto
Pois faz tanto
Só que isto
Já não faz sentido.
PAS-DE-DEUX *
Daí a gente dança
Que nem gente grande
Eu de longe e você por aí
- a música de fundo sem harmonia -
Então fica assim:
a gente fica agora e ainda hoje se esquece
Você de tudo e eu de mim.
* no balé clássico, é a coreografia executada por um casal de bailarinos.
Que nem gente grande
Eu de longe e você por aí
- a música de fundo sem harmonia -
Então fica assim:
a gente fica agora e ainda hoje se esquece
Você de tudo e eu de mim.
* no balé clássico, é a coreografia executada por um casal de bailarinos.
TODAS AS OUTRAS
Não fosses tu a melhor de todas
As mulheres verdadeiras
Dessas que por não serem perfeitas
São lindas
Daquelas em que erros e enganos têm razão de ser
Não fosses tu a mais estranha
das desconhecidas
Se fosses banalmente natural,
Se estivesses, como todas, atada à superfície
Se os sorrisos e os cosméticos
Ou as lágrimas
Mentissem por você
Certamente eu não te amaria.
As mulheres verdadeiras
Dessas que por não serem perfeitas
São lindas
Daquelas em que erros e enganos têm razão de ser
Não fosses tu a mais estranha
das desconhecidas
Se fosses banalmente natural,
Se estivesses, como todas, atada à superfície
Se os sorrisos e os cosméticos
Ou as lágrimas
Mentissem por você
Certamente eu não te amaria.
ACONTECEU COMIGO
Veja o que está escrito:
é tudo o que eu disse desde o início
Gosto de contar e recontar
o que aconteceu comigo
Leia o que foi visto
Pense nisso
É o que eu diria se te visse
Gosto de pensar que tudo isso
Está no ar
Guarde os retratos, os recados
os registros
Se um dia qualquer
você se lembrar
é tudo o que eu disse desde o início
Gosto de contar e recontar
o que aconteceu comigo
Leia o que foi visto
Pense nisso
É o que eu diria se te visse
Gosto de pensar que tudo isso
Está no ar
Guarde os retratos, os recados
os registros
Se um dia qualquer
você se lembrar
domingo, 1 de março de 2009
RARE BOOKS AND MANUSCRIPTS
RARE BOOKS AND MANUSCRIPTS (Inglaterra, 2005, 12 min. Direção por Bruce Webb. Com Neve McIntosh, Alexander Giles e Ian Mosby)
Numa tranqüila biblioteca, a tímida Jess apaixona-se por um rapaz e, depois de conseguir "roubar" o número do cartão dele, começa a enviar para ele livros cujos títulos formam mensagens secretas. Mas Jess também anda recebendo livros de nomes estranhos, que também formam frases com sentido completo. E mais: se o seu muso tem uma namorada, que um dia vai buscá-lo na biblioteca, quem será o seu "admirador secreto"?
rare books and manuscripts
Numa tranqüila biblioteca, a tímida Jess apaixona-se por um rapaz e, depois de conseguir "roubar" o número do cartão dele, começa a enviar para ele livros cujos títulos formam mensagens secretas. Mas Jess também anda recebendo livros de nomes estranhos, que também formam frases com sentido completo. E mais: se o seu muso tem uma namorada, que um dia vai buscá-lo na biblioteca, quem será o seu "admirador secreto"?
rare books and manuscripts
BEM NA FITA
Gente! Olha só a nota que saiu no "Hora da Reflexão", boletim quinzenal que é publicado na empresa onde trabalho. A matéria fala maravilhas sobre o meu modesto Menino Homem. Eis a íntegra da nota:
(abre aspas)
A internet oferece uma ampla variedade de recursos para promover relações interativas entre seus usuários, mas os blogs são uma ferramenta que tem ganhado grande popularidade atualmente e se tornaram uma verdadeira febre. Se você é um dos poucos seres não familiarizados com tema, o blog é uma espécie de diário digital onde o internauta pode publicar textos, imagens e músicas. Neles é possível ver de tudo: do antigo diário das adolescentes, antes trancado a chaves, até conteúdos específicos sobre temas acadêmicos, empresariais ou culturais; notícias do dia-a-dia; ou o que mais passar pela cabeça do blogueiro. Um blog que merece ser visitado é o Menino Homem, criado por nosso colega Olavo Duarte, da GPROM e que traz poesias (muitas delas de autoria do próprio Olavo), curiosidades, notas históricas, atualidades, crônicas, críticas, vídeos, charges e muitas dicas culturais. Também vale muito a pena ler as postagens mais antigas, onde você vai encontrar resenhas e críticas sobre filmes, animações e curtas escolhidos a dedo. Uma leitura muito agradável e bastante educativa. Não deixe de conferir.
(fecha aspas)
(abre aspas)
A internet oferece uma ampla variedade de recursos para promover relações interativas entre seus usuários, mas os blogs são uma ferramenta que tem ganhado grande popularidade atualmente e se tornaram uma verdadeira febre. Se você é um dos poucos seres não familiarizados com tema, o blog é uma espécie de diário digital onde o internauta pode publicar textos, imagens e músicas. Neles é possível ver de tudo: do antigo diário das adolescentes, antes trancado a chaves, até conteúdos específicos sobre temas acadêmicos, empresariais ou culturais; notícias do dia-a-dia; ou o que mais passar pela cabeça do blogueiro. Um blog que merece ser visitado é o Menino Homem, criado por nosso colega Olavo Duarte, da GPROM e que traz poesias (muitas delas de autoria do próprio Olavo), curiosidades, notas históricas, atualidades, crônicas, críticas, vídeos, charges e muitas dicas culturais. Também vale muito a pena ler as postagens mais antigas, onde você vai encontrar resenhas e críticas sobre filmes, animações e curtas escolhidos a dedo. Uma leitura muito agradável e bastante educativa. Não deixe de conferir.
(fecha aspas)
DUAS MINHAS
FALSO PUDOR
De tudo, só sei um pouco:
É o que me basta para querer
o que me falta
Do mundo, apenas a parte que me cabe
faz pretender o que resta
A fresta da porta entreaberta
permite-me adivinhar
um vulto envolto num véu de ar
que deixa o segredo à mostra:
uma jóia por trás de uma parede.
O ÁLIBI
Ela me deixava ao mesmo tempo desconcertado e comovido
O engraçado susto que era repentino
E o constante sobressalto de costume
O fato de já saber dos descompassos, de já adivinhar
No tempo quando ela ia chegar
Deixava-me tão aflito de esperar
Que nenhuma surpresa seria novidade
Pairava então a expectativa no ar
E por mais que eu tentasse disfarçar
Eu era o principal suspeito.
De tudo, só sei um pouco:
É o que me basta para querer
o que me falta
Do mundo, apenas a parte que me cabe
faz pretender o que resta
A fresta da porta entreaberta
permite-me adivinhar
um vulto envolto num véu de ar
que deixa o segredo à mostra:
uma jóia por trás de uma parede.
O ÁLIBI
Ela me deixava ao mesmo tempo desconcertado e comovido
O engraçado susto que era repentino
E o constante sobressalto de costume
O fato de já saber dos descompassos, de já adivinhar
No tempo quando ela ia chegar
Deixava-me tão aflito de esperar
Que nenhuma surpresa seria novidade
Pairava então a expectativa no ar
E por mais que eu tentasse disfarçar
Eu era o principal suspeito.
EU NÃO TE AMO
Tens razão: eu não te amo
Porque mal te conheço:
Só vi até agora a superfície do oceano
Não passei do toque suave da seda do vestido
É verdade sim que não te amo
Mas desejo aprender qual é o caminho
E quero saber o que há e está escondido
Conhecer o segredo tão protegido
dentro do espelho.
Sim, não te amo, não
Porque não fui ao abismo,
Talvez por medo,
Porque não desci ao inferno contigo
Para te dar a mão no desespero
Também não estivemos no céu porque
Estivemos parados olhando para o chão
Quando o teu sorriso seria o meu sol noite e dia,
Não te procurei pelos lugares aonde você ia.
Não te amo, porque não me confundi contigo
E também porque não me perdi no meio de tudo
Para te encontrar.
Talvez um dia eu te diga tudo isso.
Porque mal te conheço:
Só vi até agora a superfície do oceano
Não passei do toque suave da seda do vestido
É verdade sim que não te amo
Mas desejo aprender qual é o caminho
E quero saber o que há e está escondido
Conhecer o segredo tão protegido
dentro do espelho.
Sim, não te amo, não
Porque não fui ao abismo,
Talvez por medo,
Porque não desci ao inferno contigo
Para te dar a mão no desespero
Também não estivemos no céu porque
Estivemos parados olhando para o chão
Quando o teu sorriso seria o meu sol noite e dia,
Não te procurei pelos lugares aonde você ia.
Não te amo, porque não me confundi contigo
E também porque não me perdi no meio de tudo
Para te encontrar.
Talvez um dia eu te diga tudo isso.
CAIXA DE PASSADO
Presente no meu dia é o que já foi longe no tempo
Recorda-se de repente algo do passado
Voltam os relógios para o instante do começo
Torna a tocar desde o início a melodia.
E eu me sinto como se nascesse agora
Para a época em que eu não sabia que já estava vivo
Porque a voz que por dentro se calava
Não me havia dito.
Retorna a impressão inicial da novidade,
Repete-se a surpresa
O segredo deixa de ser revelado
Para ser redescoberto.
Recorda-se de repente algo do passado
Voltam os relógios para o instante do começo
Torna a tocar desde o início a melodia.
E eu me sinto como se nascesse agora
Para a época em que eu não sabia que já estava vivo
Porque a voz que por dentro se calava
Não me havia dito.
Retorna a impressão inicial da novidade,
Repete-se a surpresa
O segredo deixa de ser revelado
Para ser redescoberto.
UM DRUMMOND
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
(1902-1987)
AMAR
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
(1902-1987)
AMAR
Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.
Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.
O SONHO DO CARACOL
El Sueño del Caracol [Schneckentraum] (Espanha, Alemanha,2001, 15 min. Direção por Iván Sáinz-Pardo,com Julia Brendler, Fabian Busch)
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
A METADE PARTIDA
eu suporto não ser
em silêncio
mero ermo
mudo amor que tenho em mim
segue, pórem
teus passos
enfermo do bem que guardo
em segredo
Não me importo pela dor que sinto:
por ter sentido por ti.
em silêncio
mero ermo
mudo amor que tenho em mim
segue, pórem
teus passos
enfermo do bem que guardo
em segredo
Não me importo pela dor que sinto:
por ter sentido por ti.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
domingo, 22 de fevereiro de 2009
sábado, 14 de fevereiro de 2009
A ONDA E A PEDRA
Lenta erosão contra a montanha:
É assim que desapareces;
Uma palavra a menos cada dia
Um instante a mais de ausência
É como o final de uma música
Ainda acordes distantes -
Um longo solo em surdina.
É assim que desapareces;
Uma palavra a menos cada dia
Um instante a mais de ausência
É como o final de uma música
Ainda acordes distantes -
Um longo solo em surdina.
CULPADA DE TUDO
Que ela me confessa
Sem perceber
Quando o olhar se acanha
Não há dúvida
Se ela se envergonha
De se perceber observada
Ela se entrega
Ela me conta os segredos dela
Quando desvia o olhar para a janela
Quando se enrubesce por me ver
Ela se deixa entrever
E em vão ainda tenta esconder o que sente
Mas, cá entre nós
Ela sabe que não mente muito bem.
Sem perceber
Quando o olhar se acanha
Não há dúvida
Se ela se envergonha
De se perceber observada
Ela se entrega
Ela me conta os segredos dela
Quando desvia o olhar para a janela
Quando se enrubesce por me ver
Ela se deixa entrever
E em vão ainda tenta esconder o que sente
Mas, cá entre nós
Ela sabe que não mente muito bem.
SÓ UMA MULHER
Trama seus truques banais
Coisa de vilã de novela
Risível maldade de mulher
Deixa-me desconcertado durante o dia
Quando vem no pensamento
Aquela idéia
Dissimule bem o sentimento que tens
Não deixe que eu espreite
Na fresta do vestido azul
Um coração que acelera
contra a vontade.
Olhe-me desse jeito que me desmonta
E brinca de montar com as peças
Um jogo de bagunça
Mas faça de conta que é
Só brincadeira.
Coisa de vilã de novela
Risível maldade de mulher
Deixa-me desconcertado durante o dia
Quando vem no pensamento
Aquela idéia
Dissimule bem o sentimento que tens
Não deixe que eu espreite
Na fresta do vestido azul
Um coração que acelera
contra a vontade.
Olhe-me desse jeito que me desmonta
E brinca de montar com as peças
Um jogo de bagunça
Mas faça de conta que é
Só brincadeira.
VERSO BRANCO
Quando de vez em quando
Uma idéia ganha asas
Eu faço um laço com as palavras
Para prendê-la
Pássaro raro precisa ser preso
Para mostrar seu canto.
Uma idéia ganha asas
Eu faço um laço com as palavras
Para prendê-la
Pássaro raro precisa ser preso
Para mostrar seu canto.
(sem título)
Quando acontece um poema comigo
Eu fico inquieto e esquisito
Fico alheio de tudo
Quando me vem à cabeça um verso.
Quando acontece de vir à mente
Algo que rima ou não
Mas que eu acho bonito
Procuro um pedaço de papel mais à mão
Senão esqueço:
Já levei um poema inteiro
Escrito na palma da mão
Por falta de espaço.
Eu fico inquieto e esquisito
Fico alheio de tudo
Quando me vem à cabeça um verso.
Quando acontece de vir à mente
Algo que rima ou não
Mas que eu acho bonito
Procuro um pedaço de papel mais à mão
Senão esqueço:
Já levei um poema inteiro
Escrito na palma da mão
Por falta de espaço.
MAPA AFETIVO
Desenho o Contorno da tua face de cujo olhar desce uma lágrima
Como se fosse suave chuva sobre a rua da minha casa na manhã do último dia
Estendo os braços ao vazio do Horizonte
Em algum lugar da cidade que existe no pensamento chamo teu nome
Olhas para trás: só o vento te fala de mim agora.
Espalhei cartazes contando histórias tristes e dias distantes
Quis seguir pela contramão do tempo
Parar a cidade inteira pra te ver
Quis te prender
Te fazer esperar
Cercar todas as saídas
Pra não te ver fugir
E ir para longe te procurar dentro de mim.
Como se fosse suave chuva sobre a rua da minha casa na manhã do último dia
Estendo os braços ao vazio do Horizonte
Em algum lugar da cidade que existe no pensamento chamo teu nome
Olhas para trás: só o vento te fala de mim agora.
Espalhei cartazes contando histórias tristes e dias distantes
Quis seguir pela contramão do tempo
Parar a cidade inteira pra te ver
Quis te prender
Te fazer esperar
Cercar todas as saídas
Pra não te ver fugir
E ir para longe te procurar dentro de mim.
CAÓTICA CANÇÃO
Minha confusa paixão por você
Te dá tudo o que tem de bom e de ruim
E quer você do jeito que vier
Minha canção é uma mistura de todas as palavras que te falo, as coisas absurdas que te digo e que me calo
É meu verso sem sentido querendo uma razão pra te querer
Minha emoção é que nem fogo de artifício:
Faz uma explosão que enche a noite de barulho e brilho
E se apaga depois
sem nenhum vestígio.
Te dá tudo o que tem de bom e de ruim
E quer você do jeito que vier
Minha canção é uma mistura de todas as palavras que te falo, as coisas absurdas que te digo e que me calo
É meu verso sem sentido querendo uma razão pra te querer
Minha emoção é que nem fogo de artifício:
Faz uma explosão que enche a noite de barulho e brilho
E se apaga depois
sem nenhum vestígio.
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009
MONDO LIVRO
Afonso Borges é um velho conhecido da cena cultural de Belo Horizonte. Ele organiza a mais de 20 anos o "Sempre Um Papo", projeto que já trouxe a cidade mais de duas mil personalidades do mundo editorial. O "Sempre um Papo" também acontece em Brasília, Rio de Janeiro, Curitiba, interior de Minas e Paraná. O público estimado em toda a existência do projeto ultrapassa mais de 800 mil pessoas. Borges, que é também poeta e jornalista, mantém na Rádio Guarani (96,5MHz) o "Mondo Livro - o blog sonoro da literatura" um programete super divertido sobre as novidades do mundo literário e da língua, que vai ao ar de segunda a sexta, às 9h10 e 18h30, com o patrocínio de uma construtora local. Bem humorado, instigante e inteligente. São esses os adjetivos que podem ser aplicados ao programa de Afonso Borges. Se você tiver uma oportunidade, ouça. Garanto que você vai gostar. Os áudios e os textos do Mondo Livro também estão disponíveis no blog.
sexta-feira, 30 de janeiro de 2009
QUARTO DE DESPEJO
O subterrâneo do céu
Sob o chão dos teus pés
É minha atual habitação
No refugo do teu coração
Eu vivo
No porão do amor
Todos os guardados jazem esquecidos
E aquele mesmo retrato teu no meu sorriso
É desde então, um tempo já perdido,
Um rei que vive num asilo.
Sob o chão dos teus pés
É minha atual habitação
No refugo do teu coração
Eu vivo
No porão do amor
Todos os guardados jazem esquecidos
E aquele mesmo retrato teu no meu sorriso
É desde então, um tempo já perdido,
Um rei que vive num asilo.
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
30 de janeiro, Dia da Saudade

Jean-Pierre Gibrat, "Le Sursis"
Em vez de eu dizer o que eu penso, passo a palavra ao nosso amigo Pablo Neruda. Ele fala melhor do que eu.
PABLO NERUDA(RICARDO NEFTÁLI REYES, 1904-1973)
de "Crepusculário" (1923)
tradução por Aline Rabelo
SAUDADE - Que será... eu não sei... busquei
em certos dicionários poeirentos e antigos
e em outros livros que não me deram o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.
Dizem que as montanhas são azuis como ela,
que nela empalidecem amores distantes,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
a nomeia em um tremor de tranças e mãos.
E hoje, em Eça de Queiroz, sem olhar eu a adivinho,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma borboleta de corpo estranho e fino
sempre distante - tão distante! - de minhas tranquilas redes.
Saudade... Ouça, vizinho, sabes o significado
desta palavra branca, que como um peixe se evade?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
A RUA

Meu assunto o dia todo são as ruas. É nela em que ocorrem as infrações de trânsito, tema cotidiano do meu trabalho. Ruas. Avenidas. Praças. Da minha cidade, eu as conheço quase todas, de tanto ter que me referir a elas na minha atividade diária. Digitadores me perguntam o tempo todo onde fica tal rua, se tal rua cruza com tal avenida, se o número tal fica num bairro ou no outro. Conheço-as intimamente, as ruas. Por algumas eu tenho uma relação de afeto, gosto de ir até elas, nelas passear. Desses lugares, que o Dicionário Houaiss define como uma palavra derivada do latim "ruga", "sulco" e que significa "via pública urbana ladeada de casas, prédios, de muros ou jardins", eu guardo muitas das minhas memórias afetivas da cidade, do que vivi em todas elas. Dia desses escrevi um texto chamado "As Esquinas" do qual reproduzo aqui um trecho: "A canção dos Beatles, “In My Life”, nos diz “(...) há lugares dos quais vou me lembrar por toda a minha vida”. (There are places I'll remember all my life). E é assim exatamente o que acontece comigo. Tem certos lugares em Belo Horizonte que fazem parte da minha história. Se eu voltar a eles pelos meus pés ou através do pensamento, todas as memórias daqueles tempos viverão novamente. Basta alguém mencionar o nome de uma rua, basta-me passar por uma esquina para que as lembranças me levem de novo aos momentos que ali vivi. Tenho a memória dos meus passos, sei de cor os caminhos que segui e por que razão estive lá"
(...)
Agora me lembro de uma canção de Djavan, chamada, não por acaso, "As Esquinas", que diz "só eu sei as esquinas que atravessei". Caminho por toda a cidade, algumas vezes sem saber porque ando tão longe de casa, sem o que procurar e sem urgências para resolver. Simplesmente saio de casa, e sigo por um caminho indeterminado, que vai sair em algum lugar onde eu jamais havia estado antes. Gosto de caminhar vendo o movimento incessante, caótico e contraditório, de sentir a pulsação da cidade. O burburinho e o barulho me atraem e me prendem como música, as cores das vitrines reluzem nos meus olhos, as revistas, as placas, os vestidos das moças, os edifícios que espetam o céu e furam o ar pesado, as filas das pessoas nos caixas dos bancos, nos pontos de ônibus, cada um em um milhão que vem e vão, cada um em seu universo, cada um uma cidade em si mesmo: tudo isso é interessante para mim, tudo me comove e espanta, e eu vejo isso como se nunca antes tivesse visto. No meio de toda essa profusão, de repente me interessa um ramo florido de um ipê teimoso em ser belo no meio da fumaça preta, do concreto sujo, do cartaz apelativo de um produto qualquer. Eu percebo o olhar de um mendigo, o olhar de um ser humano esquecido pela multidão e vejo nele alguém que se parece com todos, que se parece comigo, que é da mesma espécie que eu; eu paro para deixar o turbilhão passar, o cordão de monstros mecânicos, de máquinas de aço seguir seu curso rumo a tudo o que não é passado, em direção ao distante; paro para ver o trânsito que leva tudo necessariamente para o seu fim e termo. Paro e fico olhando e meu olhar se perde seguindo o andar de uma desconhecida que nunca mais vou ver, mas que por um instante é bela de se ver e que a outros olhares atrai. Olho a cidade ao redor e quase tudo me interessa, como se fosse uma criança que pela primeira vez fosse a um parque de diversões, como o enamorado que nunca antes havia visto o rosto da sua amada; na França, me chamariam "flaneür", esse tipo especial de andarilho, que vaga sem rumo, um ser errante, alguém que deambula pela cidade sem um propósito aparente, buscando não se sabe o quê em sua caminhada. Ele nunca anda apenas por andar, para simplesmente ir a um lugar determinado, com uma hora definida para estar lá. O destino é o caminho, o objetivo da busca é o caminhar, ir-se sem plano ou roteiro. Simplesmente sair à rua, como se isto o vivificasse. Acho que sou assim. A rua, em todas as suas particularidades, me atrai e fascina.
Estou para ler desde muito tempo o A Alma Encantadora das Ruas, do jornalista, escritor, cronista e acadêmico João do Rio, nascido João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921). Já na primeira linha da obra, ele enuncia “Eu amo a rua”. João do Rio, ao morrer, foi “homenageado” com uma pequena rua em Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro; a rua foi batizada com o nome de Paulo Barreto, pelo qual também era conhecido o escritor. Pouco para quem faz uma louvação à rua, em todos os seus aspectos urbanísticos e sociais. Pois se trata mesmo de um estudo profundo e abrangente, não propriamente acadêmico, sobre este espaço tão peculiar de sociabilidade que é a rua. Entre duas esquinas, todas as manifestações do humano são possíveis: os anúncios, os gritos, a fala animada das turmas de amigos, os afagos dos casais – hetero e homossexuais – a pressa e a vagareza dos passos, o apelo do mendigo por uma moeda, o religioso que prega, e o bêbado que erra os passos; na rua se exalta, se ostenta, se arroga, a violência se impõe. Num ambiente quase saturado, finito e confinado, limitado por leis, demarcados os espaços, convivemos todos e todos nos enfrentamos, estranhos entre si, cada qual em sua própria idiossincrasia, cada um em sua rua particular. João do Rio olha a tudo isso com o olhar menos corriqueiro, que observa as minúcias, os detalhes. O “Alma Encantadora das Ruas” jaz inerte na minha estante, à espera de que eu ande pelas ruas do Rio de Janeiro do início do século XX como se eu lá estivesse ou lá vivesse, à época em que o livro foi escrito.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
O SALVADOR DAS PÁTRIAS

charge de Duke, em "O Tempo" (21/01/2009)
"Yes, We Can".
Podemos?
A eleição do senador Barack Obama, 47 anos, o primeiro negro a ocupar a Casa Branca e um dos mais jovens a assumir o cargo tido como o mais importante do mundo, trouxe alento e esperança não só para os seus compatriotas, mas para quase o mundo inteiro. Antítese total do ocupante anterior da Salão Oval, ao contrário do atabalhoado e estouvado George W. Bush, autor de repetidas gafes, alvo da antipatia de quase todo mundo e tema predileto dos cartunistas, o simpático e carismático Obama está em lua de mel com a sua população. Por enquanto, exaltam-se as suas qualidades de excelente orador, de exímio articulador político, de ousado marqueteiro, de aglutinador de massas. Resta saber agora se, no dia a dia, recebidas as "heranças malditas" do(s) (des)governos anterior(es) Obama terá o mesmo jogo de cintura que exibiu no baile do dia da posse, se terá o mesmo dom de comover a todos com suas palavras bem redigidas e pronunciadas enfaticamente. O próprio Obama reconhece em seu discurso que os problemas e os inimigos são amplos e diversos. Obama sabe que o país que comandará nos próximos quatro anos estende sua influência política, sua força econômica e, principalmente, seu poderio militar, aos quatro cantos do mundo. Tudo que acontece nos EUA -de bom e de ruim - repercute em todo o planeta. Obama não pode ignorar que os EUA são responsáveis, pela sua política industrial e de meio ambiente, por boa parte do desequilíbrio climático que atualmente assola o mundo. Sabe que a Guerra no Iraque é um morticício inútil, que a situação só tende a piorar enquanto as tropas americanas por lá permanecerem. Obama deve conhecer muito bem sobre como o seu país interferiu nas questões internas de muitos países, quase sempre em nome dos interesses americanos. Obama sabe, sobretudo, que hoje em dia a crise bate a porta de seus compatriotas, toma-lhes as casas, os automóveis, a conta no banco e o emprego e tira-lhes o pão da mesa.
Mas que se acredite no que ele promete e propõe. Dê-se um voto de confiança ao jovem advogado de Chicago, ao jovem negro que fez o reverendo Jesse Jackson chorar ao anunciar "que na América tudo é possível", que evoca a memória de Martin Luther King e promete realizar o "sonho americano" da igualdade das raças. Os negros em toda a parte do mundo, do Brooklin a Soweto, já elegeram Obama como seu mais novo representante, como o mais novo abolidor, o messias tão esperado, o Dom Sebastião dos sonhadores, o Super Homem, o Salvador da Pátria. Obama, é claro, está longe de ser, sozinho, a solução de tudo. Dependerá muito de como ele e sua equipe conduzirão as coisas daqui pra frente. Vai depender de como os EUA vão propor saídas negociadas para os conflitos em que estão envolvidos. Vai depender da extinção de Guantánamo, de guardar os mísseis, de trazer seus soldados de volta para casa. Vai resolver se os americanos tiverem seus empregos outra vez, e a economia voltar a crescer, os pregões das bolsas de valores fecharem em alta, as automobilísticas pararem de demitir e de pegar dinheiro do governo. Isso tudo "dá pra fazer" como diria um político daqui de Minas que foi candidato a prefeito de Belo Horizonte.
Can We? Yes, We Can. (Podemos? Sim, Podemos). Se quisermos.
sexta-feira, 16 de janeiro de 2009
UM OUTRO EU
Ostento a margem escura do poema
Por onde transborda a lágrima
de uma triste cena
De uma beleza esculpida e calculada
Não, não é a minha
tristeza
(Mais funda)
que está escrita
O personagem da desventurada poesia
é um outro eu
que me contesta.
Por onde transborda a lágrima
de uma triste cena
De uma beleza esculpida e calculada
Não, não é a minha
tristeza
(Mais funda)
que está escrita
O personagem da desventurada poesia
é um outro eu
que me contesta.
MINÍMA LÍRICA E OUTROS POEMAS
MÍNIMA LÍRICA
De um romance
caí para um soneto -
Parti de um épico
para chegar
às vias de fato:
não deu uma linha no diário.
DIZ O DITADO
cão que ladra morde a língua:
Braço torcido quebra.
E chumbo trocado
Dói em dois.
SABEDORIA POPULAR
Desconfia do que os olhos não vêem:
o coração sente sem saber
até saudade do que não deve ser e
amor pelo que não existe.
Perdido por um, perdido por nenhum
Ditado repetido
Pois assim remediado está o que não tem sentido.
De um romance
caí para um soneto -
Parti de um épico
para chegar
às vias de fato:
não deu uma linha no diário.
DIZ O DITADO
cão que ladra morde a língua:
Braço torcido quebra.
E chumbo trocado
Dói em dois.
SABEDORIA POPULAR
Desconfia do que os olhos não vêem:
o coração sente sem saber
até saudade do que não deve ser e
amor pelo que não existe.
Perdido por um, perdido por nenhum
Ditado repetido
Pois assim remediado está o que não tem sentido.
MENOS AMOR
Descontada a raiva que eu senti naquela hora/sobra o amor que eu sinto agora/é amor menos a frustração e o desencanto/É amor subtraindo a solidão/Mas o amor não é menor por causa disso/apesar de tanto tempo
Se retirado o excesso de emoção que você chama de exagero/se for riscada do papel a cena de desespero/a fala do meu personagem é essa canção que faz silêncio.
Se retirado o excesso de emoção que você chama de exagero/se for riscada do papel a cena de desespero/a fala do meu personagem é essa canção que faz silêncio.
sábado, 10 de janeiro de 2009
ME TELEFONA: "Chamada em espera"
Chamada em Espera (The Phone Next Door, Brasil, 2008, 5 min. Direção por Tatiana Maciel. Roteiro por Tatiana Maciel, Clarice Falcão e Dennis Neto. Elenco: Clarice Falcão e Pedro Gracindo. Canção original por Clarice Falcão. Trilha Sonora por Ricco Vianna e Toninho Van Anh.Project: Direct 2009 Finalist)
(com informações do "UOl Celebridades")
Bonitinho essa curta. Mas o que eu mais gostei nele é de ver a linda Clarice Falcão atuando. Pra quem acha que conhece ela de algum lugar, ela é sim aquela Mariana, a garota rebelde filha da personagem de Lília Cabral na novela das oito, "A Favorita". Mas aqui trata-se de um trabalho autoral - ela assina o roteiro, junto com Dennis Neto e Tatiana Maciel e também é autora da canção original. Clarice, pernambucana de Recife, tem 19 anos e ganhou visibilidade na mídia após protagonizar o curta "Laços", de Flávia Lacerda, que venceu o concurso internacional "Project Direct", do site YouTube e do Sundance Festival, em 2007. Este "Chamada em Espera" é finalista da edição 2009 do concurso.
"ORQUESTRA VAZIA"

Flagrante da galera do escritório "abafando" no Karaokê na última festinha de Natal.
(com informações de uai.com.br/dzaí)
Deu no jornal: o Karaokê, aquela cantoria desafinada em cima de uma base eletrônica pré-gravada, foi eleita a pior invenção tecnológica de todos os tempos. A pesquisa, financiada pelo governo britânico, ouviu cerca de dois mil e quinhentos adultos. Quem é que nunca se irritou com aquele sujeito (em geral, já "calibrado") que assassina a sua canção predileta ao microfone do karaokê? Para Kane Kramer, diretor do Instituto Inglês dos Inventores, o karaokê merece mesmo o topo da lista. "Ele é anti-social. Você geralmente vê em karaokês a proporção de 10 pessoas que querem cantar para 150 pessoas que têm que suportá-las", diz. Essas quinquilharias eletrônicas são invasivas, incômodas, deixam de levar em conta que, a despeito do direito das pessoas de se divertir, também deve ser respeitado o direito dos outros de não ser incomodados. Claro que você vai dizer: os incomodados que se retirem. Aí poderíamos perguntar: mas porque uma pessoa tem o poder de expulsar o outro de um ambiente coletivo, em que todos foram convidados a partilhar um momento de descontração?
O Karaokê surgiu em 1971. A invenção odiada por alguns foi criada pelo japonês Inoue Daisuke. Ele combinou o aparelho de som de um carro com um amplificador e microfones. O nome significa “orquestra vazia”.
Falando em karaokê, lembra daquele "telegrama ao vivo" que é quando pára um carro de som na porta da pessoa que vai ser "homenageada" pelo seu aniversário ou por alguma outra data importante? Em alto e mau som, em geral com uma trilha sonora baranga, o "locutor" recita um texto pré-fabricado, tão brega quanto a música. Resta saber se o "homenageado" não morre de vergonha e não tem a tentação de romper imediatamente com o autor da "homenagem"...esse costume, para sorte de todos, tem andado meio fora de moda ultimamente. Certa vez, o então prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, disse que o telegrama ao vivo merecia "o prêmio Nobel da breguice" e estudaria tomar medidas para coibir a prática que, aliás, pode muito bem ser categorizada como poluição sonora.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
UM LUGAR NA PLATÉIA
No leve, divertido e despretencioso "Um Lugar na Platéia" (Fauteils d'Orchestre, França, 2006, 106 min, direção de Danièle Thompson) a jovem Jessica (Cécile de France) é uma mocinha do interior que parte a Paris determinada a conseguir emprego no luxuoso Ritz Hotel, lugar onde a sua avó(a atriz Suzanne Flon, morta em junho de 2005 e a quem o filme é dedicado) tinha trabalhado e sobre o qual sempre lhe contava histórias maravilhosas. Sem nenhuma prática no ramo, Jessica não consegue o almejado trabalho, vendo-se obrigada até mesmo a passar a noite vagando na rua. Depois de alguns dias perambulando pela cidade, Jessica consegue uma vaga de garçonete no pequeno Café dos Teatros, na avenida Montaigne, na chique região da Champs-Élysées, perto da Torre Eiffel. Ali, sob as ordens de seu mau-humorado patrão, a garota começa a conviver com a movimentada rotina do restaurante e seus freqüentadores. O café dos Teatros fica ao lado de um...teatro, de uma galeria de arte e de uma sala de concertos. É em meio a esse ambiente cultural que Jessica conhecerá três pessoas: Jean-François Lefort (Albert Dupontel), um pianista enjoado do falso glamour da carreira de astro da música erudita; Jacques Grumberg (Claude Brasseur), ex-taxista, agora um rico colecionador de obras de arte, prestes a se desfazer das suas obras prediletas; e Catherine Versen (Valérie Lemercier), famosa atriz de novela, em crise e cansada de sempre repetir os mesmos papéis. No dia 17, Lefort dará o que pode ser o seu último concerto; Grumberg vai leiloar sua coleção; Catherine vai estrear uma peça que pode significar seu reconhecimento como verdadeira atriz de teatro e de cinema. E a Jessica? Então, é ela que vai, de mansinho, com seu jeitinho acanhado e tímido, meio ingênuo e um pouco estouvado, envolver a vida de todos. A vida dela também pode mudar. Um Lugar na Platéia foi indicado em 2007 a cinco Cesar, o Oscar do cinema francês. Valérie Lemercier levou o prêmio de melhor atriz coadjuvante por sua atuação. Vale destacar as participações especiais do ator e diretor Sidney Pollack, no papel de um cineasta à procura de alguém para interpretar a escritora Simome de Beauvoir e de Christopher Thompson (co-roteirista do filme e filho da diretora) que interpreta o arrogante e bilioso filho do colecionador de arte. Não podemos esquecer de mencionar a engraçada camameira dos artistas, fanática por Charles Aznavour e que irá se aposentar no mesmo dia 17.
A história de um beijo: Robert Doisneau

Robert Doisneau, Le Basier de L'Hotel de Ville, 1950.
Muita gente quis estar no lugar desses dois. A identidade do casal que aparece se beijando apaixonadamente no famoso "Le Baiser de l’Hotel de Ville, Paris, 1950" foi um mistério durante mais de quarenta anos até que o fotógrafo francês Robert Doisneau (1912-1994) desmascarou a todos os que estavam de olho nos direitos autorais, dizendo-se protagonistas da romântica cena: em uma entrevista concedida em 1992, ele disse que Françoise Bornet e Jacques Carteaud, jovens estudantes de Artes Dramáticas na Simon, haviam sido abordados por ele em uma praça, em frente à Prefeitura de Paris. Doisneau procurara durante todo aquele dia um casal que pudesse posar para ele a pedido da Life Magazine para uma reportagem sobre jovens apaixonados. A foto, portanto, ao contrário do que parece, não tem nada de espontânea, nem de casual. Mas isso é o que menos importa. "Le Baiser" tornou-se um autêntico símbolo universal do amor romântico e do estilo de vida parisiense, um ícone da cidade-luz. Também não interessa que Françoise e Jacques tenham terminado o namoro poucos meses depois do famoso clique. A própria Françoise, anos mais tarde, encarregou-se de desfazer, mais uma vez, a aura romântica que envolve a fotografia. Num leilão promovido pela Artcurial Briest-Poulain-Le Fur ela, ao lado do marido, que conheceu em 1960, afirmou que "aquela era uma foto que nunca devia ter existido, talvez por isso queria se livrar dela, mais do que pelo dinheiro". Françoise colocou um dos originais de "Le Baiser de l’Hotel de Ville" (enviado a ela pelo próprio Doisneau) à venda por 20 mil euros para montar uma produtora de documentários para televisão. No concorrido leilão, em 25 de abril de 2005, a foto, no tamanho de 18x20cm, alcançou a marca de 155 mil euros, uma cifra surpreendente em se tratando de uma fotografia, mesmo tão famosa. O comprador da foto, arrematada por telefone, não quis se identificar.
saiba mais sobre Doisneau (Wikipedia; em francês)
domingo, 4 de janeiro de 2009
MONDAY MORNING (a saudade é um álbum de fotografias)
MONDAY MORNING
Monday Morning, direção por Jake Kovnat. Co-direção e fotografias por Philip Sportel. Com Kate More e George Claybourne, 4 min. Canção original: "Monday Morning", da banda canadense Major Grange [www.myspace.com/majorgrange]
Monday Morning, direção por Jake Kovnat. Co-direção e fotografias por Philip Sportel. Com Kate More e George Claybourne, 4 min. Canção original: "Monday Morning", da banda canadense Major Grange [www.myspace.com/majorgrange]
VOLTEI

O painel de controle do meu blog me informa que a última postagem foi no já distante dia 03 de outubro de 2008. De lá pra cá, as coisas têm andado tranqüilas (até demais) em minha vida. Salvo as dificuldades do dia a dia, não levando em conta a tristeza e a solidão que são naturais e simples para mim. Atualmente, estou em férias do trabalho. Volto a trabalhar daqui a duas semanas. Tenho passado o tempo livre em atividades como navegar na Internet (estou baixando altos filmes), ler, dormir e caminhar por aí. Não tenho escrito mais. Isso é um resumo dos meus dias atuais, sem grandes aventuras mas também sem grandes decepções e frustrações - notadamente no campo afetivo - como as que eu tive esse ano. Não sei se deveria falar dessas coisas aqui. Mas posso garantir que, apesar de tudo, estou aí pro que der e vier, e que tive forças, presença de espírito e uma boa dose de paciência para encarar os tempos ruins que vieram; e certamente terei paciência, presença de espírito e forças para os tempos que virão. Estou aqui de novo, voltei para o meu mundo virtual, trazendo as notícias, as novidades, trazendo o que fui buscar. Aos meus poucos e bons visitantes, eu os convido mais uma vez a entrar em minha casa, na hora que quiserem.
sexta-feira, 3 de outubro de 2008
terça-feira, 30 de setembro de 2008
PARA BALANÇO...
O blog Menino Homem está suspenso por tempo indeterminado...talvez para sempre.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
QUATRO NOITES DE UM SONHADOR

cartaz finlandês (!) da estréia de Quatre Nuits
É a mesma história recontada de outra maneira. Histórias de amor desiludido são, na verdade, todas iguais. De novo, temos um sonhador, que imagina ter encontrado, numa noite branca de inverno, a mulher de sua vida. Ela, como em Dostoiévski e Visconti, chora a saudade por aquele "outro qualquer", que um dia partiu com a vaga promessa de que um dia voltaria para levá-la dali, da sua vida oprimida, da sua existência privada de encantamento. Mais uma vez, o sonhador se compadece do drama da sua heroína; mais uma vez, ele se apaixona por ela e espera que o tal sujeito não apareça nunca, que seja apenas um fantasma, uma alucinação. Não estamos na São Petersburgo do século XIX e nem na Livorno dos anos 50, mas nas ruas de Paris dos anos 70. Os filmes de Robert Bresson e Luchino Visconti, o conto de Dostoiévski, a peça de Yara de Novaes (com a Débora Falabella)são, como eu falei, apenas maneiras diferentes de contar uma história. Talvez o jovem artista do longa de Bresson, o vagabundo da peça, o funcionário público (é o que eu imagino que ele seja) de Visconti sejam a mesma pessoa assim como a menina que se chama Nástenka, ou Marthe, ou Nastienka ou Natália ou seja lá que nome ela tenha. É o mesmo amor, é a mesma desilusão de ver o sonho de uma vida se desvanecendo na luz da manhã, depois de quatro noites de ilusão.
Quatro Noites de um Sonhador,Quatre Nuits d'un Rêveur; direçao por Robert Bresson França,1971,87 min. com Isabelle Weingarten, Guillaume des Forêts, Maurice Monnoyer, Lidia Biondi, Patrick Jouanné, Jérôme Massart, Giorgio Maulini
Vou postar mais tarde aqui os links para baixar Quatro Noites a partir do Rapidshare. A qualidade de som e imagem é sofrível, as legendas são em inglês, mas vale como registro histórico. Espero que alguma produtora nacional lance o DVD no Brasil...)
Conforme o prometido, eis os links (já falei que a qualidade é ruim, mas dá pra curtir...)
Download Links: Quatre Nuits D'un Rêveur
(aproximadamente 420Mb, no total)
http://rapidshare.com/files/34279507/RBresson-4nuits.part1.rar
http://rapidshare.com/files/34285487/RBresson-4nuits.part2.rar
http://rapidshare.com/files/34291426/RBresson-4nuits.part3.rar
http://rapidshare.com/files/34297192/RBresson-4nuits.part4.rar
http://rapidshare.com/files/34273444/RBresson-4nuits.part5.rar
sábado, 20 de setembro de 2008
COMPASSION
Els trabalha numa grande empresa e, nas horas vagas, dedica-se a recolher donativos para campanhas de caridade nas ruas de Bruxelas. Els anda pelas ruas balançando uma caneca onde as pessoas depositam moedas. Els vê todo dia um velho remexendo no lixo, às vezes catando restos de comida. Els sente compaixão. Els acha que deve, de algum modo, ajudar o pobre senhor. Um dia, depois de ser agredido por alguns rapazes (da janela do escritório, Els assiste a tudo) o velho deixa cair um par de sapatos que encontrara numa lixeira. Els decide seguir o velho, para descobrir onde ele mora. Els vai entrar, sem saber, numa viagem sem volta.
COMPAIXÃO (Compassion,Bélgica, 2006, 20 min. Direção por Tom Geens. Com Hilde Heynen e Paul Kenens. Legendas em inglês)
COMPAIXÃO (Compassion,Bélgica, 2006, 20 min. Direção por Tom Geens. Com Hilde Heynen e Paul Kenens. Legendas em inglês)
On S' Embrasse? (Can We Kiss?)
Faltam dez minutos para a audição da peça. Ela precisa repassar o texto. Na cena que ela vai representar, a mulher tem que dizer que "acabou", que ela "não o ama mais", enquanto o cara só repete, perplexo, "eu não entendo, eu não entendo". Mas faltam só dez minutos. Quem é que vai ajudá-la a repassar o texto? Aquele senhor sentado só ali no canto, cabisbaixo... "Por favor, senhor, será que dá pra me ajudar? Só cinco minutinhos...preciso repassar esse texto aqui... só pra ensaiar.... O senhor faz o Paul e eu a Julie... então vamos começar:
"Acabou, Paul, eu não o amo mais".
O homem repete as falas do personagem, interpreta na expressão do rosto alguém que realmente parece estar triste pelo fim de um romance, e que realmente não entende a razão; De repente, o homem sugere à candidata à atriz: porque você não diz isso sorrindo? Ele poderia bem ser o ator daquela peça, ou quem sabe esteja vivendo, na "vida real", alguma coisa assim...
ON S'EMBRASSE (uma produção de Les Films de L'Espoir "CAN WE KISS", França, 2001, 6 min, direção por Pierre Olivier, com Alice Carel,Jean-Luc Abel, Marie Parouty. Áudio em francês, legendas em inglês)
"Acabou, Paul, eu não o amo mais".
O homem repete as falas do personagem, interpreta na expressão do rosto alguém que realmente parece estar triste pelo fim de um romance, e que realmente não entende a razão; De repente, o homem sugere à candidata à atriz: porque você não diz isso sorrindo? Ele poderia bem ser o ator daquela peça, ou quem sabe esteja vivendo, na "vida real", alguma coisa assim...
ON S'EMBRASSE (uma produção de Les Films de L'Espoir "CAN WE KISS", França, 2001, 6 min, direção por Pierre Olivier, com Alice Carel,Jean-Luc Abel, Marie Parouty. Áudio em francês, legendas em inglês)
domingo, 14 de setembro de 2008
MOYA LYUBOV (MEU AMOR) DE ALEKSANDR PETROV
É um trabalho e tanto. O russo Aleksandr Petrov pintou a mão – literalmente – os mais de trinta mil frames dessa animação. Em vez de usar pincéis, Petrov desenhou com os dedos embebidos em tinta à óleo as imagens do curta-metragem “Meu Amor” (Moya Lyubov, no título original em russo) sobre placas de vidro que depois ele fotografava. Demorou três anos para finalizar o trabalho. O curta-metragem, com 26 minutos de duração, foi indicado ao Oscar em 2008 (Petrov já ganhara o prêmio dois anos antes, por sua belíssima adaptação do romance O Velho e o Mar de Ernest Hemingway) , e nos conta a história do jovem Anton, que tem 16 anos e todas as dúvidas e anseios e desejos dessa idade. Ele divide o coração entre a paixão por uma mulher mais velha, a misteriosa e voluptuosa Seraphima, e pela empregada da casa, Pasha, pobre e analfabeta, mas linda, pura, sensível e tão jovem como ele. São imagens oníricas, de uma beleza plástica impressionante – comparada às telas de Renoir e de Paul Cézanne–acompanhada por uma belíssima trilha sonora. O roteiro, adaptado da obra “Uma História de Amor” de Ivan Shmelyov, tem um quê de Turgueniev (lembra muito “O Primeiro Amor” ) e de outros romancistas russos. Você pode assistir ao curta em três partes no Youtube (com legendas em inglês). A qualidade do vídeo não é lá essas coisas. Eu consegui baixar no formato de DVD no Emule e incorporei legendas em português.
Parte 1 (9min30s)
Parte 2 (9min26s)
Parte 3 (8min46s)
quinta-feira, 4 de setembro de 2008
ENSAIO SOBRE A GEGUEIRA

Clique na imagem para ver em alta resolução
baixe o trailer em alta qualidade aqui (173Mb,requer Quicktime Player)
Ensaio Sobre a Cegueira Blindness, 2008, Canadá/Brasil/Japão, 118 min. Direção por Fernando Meireles, inspirado em "Ensaio sobre a Cegueira", obra de José Saramago (Prêmio Nobel de Literatura-1998) com roteiro adaptado por Don McKellar. Com Julianne Moore, Mark Ruffalo, Don McKellar, Alice Braga, Gael García Bernal, Danny Glover, Yusuke Iseya, Yoshino Kimura. Trilha sonora original por Marco Antônio Guimarães/UAKTI. Lançamento nos cinemas no Brasil: 12 de setembro de 2008
Assista ao trailer por enquanto. Falo sobre o filme depois que eu assistir.
Visite o site oficial (em português)
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
OS FILMES
Assistir a um filme, uma interpretação imagética da fantasia e da realidade, uma representação da imaginação, a transposição da letra para a película, nunca foi para mim um mero entretenimento. Tá bom, tá bom, você vai dizer e eu sei que estou como sempre sendo radical em meus princípios. Afinal, o que é tem tem perder duas horas vendo bobagens na tela grande, só pra se divertir? Eu te explico: gosto de cinema, acho uma arte maior essa habilidade de criar a imagem para a palavra de um autor, concretizar a imaginação do roteiro, reinventar a realidade, tornar a fantasia possível, transportar-nos, por duas horas, para os nossos sonhos, tornando possível vê-los e entrar dentro deles. Assim é a experiência de um filme para mim. Eu preciso desejar ardentemente assistir a um filme, preciso esperar ansioso para que ele estreie, preciso do ritual de comprar o ingresso, sentar-me nas primeiras filas e absorver aquele momento me desligando completamente da vida lá fora. Só não quero ser confundido com esses cinéfilos chatos, que ficam debatendo a vazia questão da técnica que se sobrepõe à arte de contar uma história, que ficam discutindo essa ou aquela câmara, esse ou aquele plano, se o "travelling" coube ou não coube naquela cena. Me interessa apenas que o ator se entregue ao papel que representa, que seja o personagem, que o personagem pareça (que seja) de carne e osso, que seja real. É preciso que eu acredite que não é ficção, que não é imaginação, que depois que rolarem os créditos finais aquela pessoa continue a existir, para além da película, fora da sala escura, da tela retangular. Estou querendo dizer com isso é que um filme para mim tem que me despertar a imaginação, tenho que guardá-lo comigo como experiência por muito tempo depois de assisti-lo; preciso me apaixonar pela protagonista, preciso sentir o medo, o terror, a coragem, o amor, a dor, a força, preciso torcer pela vitória do bem contra o mal, pela reconciliação dos amigos, pela união do casal, pelo final feliz ou chorar o final triste para dizer que os 14 reais que paguei pelo ingresso foram bem empregados e as duas horas que fiquei no escuro valeram a pena.
domingo, 31 de agosto de 2008
COMO COMPORTAR-SE NO BONDE

Machado de Assis é sempre atual e atemporal. Esse "Como comportar-se no bonde" poderia ser aplicado a qualquer meio de transporte coletivo existente. Certas pessoas não tem a noção de espaço público que é o ônibus, o metrô, o avião...fazem desses ambientes uma extensão de suas vidas privadas. Portanto, a alguns parece natural e aceitável comportar-se dentro do veículo como se estivessem em casa. Até que chegue a hora de desembarcar, somos obrigados a conviver com o sujeito que se senta no banco ao lado como se estivesse numa espreguiçadeira na varanda de casa; temos que ouvir as comadres contando causos, colocando as fofocas em dia; temos que aturar a turma do colégio, a torcida comemorando o dois a zero do time. E se o cidadão está de mau humor, então? Ele acha que o mundo é culpado...o mundo, não: o motorista, o "trocador" e os demais passageiros...Um ônibus, naturalmente desconfortável, normalmente lento, obrigatoriamente confinado, deve exigir um pouco mais de tolerância de seus usuários, mais noção de ridículo e de bons modos do que em qualquer outro lugar. Não só para ceder o seu lugar para a senhora que acabou de embarcar, ou se oferecer para segurar os pacotes da senhorita que viaja de pé, mas para demonstrar civilidade e boa educação. O transporte coletivo, a opção mais democrática de se deslocar nas grandes cidades, não pode, como diz Machado "ser deixado ao puro capricho dos passageiros".
Machado de Assis (1839-1908)
"Como comportar-se no bonde"
(1883)
Ocorreu -me compor uma certas regras para uso dos que freqüentam bonds. O desenvolvimento que tem sido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático! exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.
Art. I - Dos encatarroados
Os encatarroados podem entrar nos bonds com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro.
Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: -ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue.
Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bond, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.
Art. II - Da posição das pernas
As pernas devem trazer-se.de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.
Art. III - Da leitura dos jornais
Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.
Art. IV - Dos quebra-queixos
É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: a primeira quando não for ninguém no bond, e a segunda ao descer.
Art. V - Dos amoladores
Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntar-se-lhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repelindo os ditos, .pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.
Art. VI - Dos perdigotos
Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.
Art. VII - Das conversas
Quando duas pessoas, sentadas a distância; quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.
Art. VIII - Das pessoas com morrinha
As pessoas com morrinha podem participar do bonds indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-lo mesmo da janela
Art. IX - Da passagem às senhoras
Quando alguma senhora entrar o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas como porque é uma grande má-criação.
4 de julho de 1883
sábado, 23 de agosto de 2008
CARTA AO AMIGO JOÃO*
Meu caro amigo João. Agora que seus olhos são de outra pessoa, não sei dizer se talvez eles olhem o mundo como você olhava até quarta-feira passada. Não vou julgar o seu ato desesperado de fechar de vez os olhos ao mundo, aquele mundo transtornado em que você viveu até quarta-feira. Aquele mundo que te olhava com desprezo, aqueles olhos verdes que não lhe devolviam o olhar terno e apaixonado com que você a olhava. Lembro-me bem como você parecia sereno naquele dia. Não vi - não olhei direito - que alguma coisa estranha estava por acontecer: você soube muito bem esconder a aflição que sentia. Quando te vi pela última vez, meu caro amigo, você sorriu, mas não aquele sorriso de quem está de bem com a vida, aquele sorriso que mostra os dentes -escovados com cuidado minutos antes do acontecido - mas um sorriso quase conformado, um sorriso de quem se despede sem saber se volta, sem ter certeza se quer mesmo ir. Um sorriso triste. Não vou julgar -já te disse isso - a sua motivação, não tenho o direito de questionar os seus sentimentos, condená-lo por seu ato extremo mais do que os outros já te condenaram, mais do que aqueles que o julgaram sem conhecê-lo direito, sem conhecer suas motivações, sem respeitar os seus sentimentos. Não sou juiz, nem advogado, nem especialista em matéria das motivações humanas. Eu sou seu amigo e - apesar de não entender o seu propósito de ir embora assim tão de repente e de deixar os mais próximos um tanto quanto aturdidos e perplexos - posso apenas agora desejar que, seja para onde você tenha ido, que a vida (se existir vida nesse lugar para onde você foi)seja melhor que a deste mundo. Que lá não existam olhares de reprovação e de condenação, que não existam olhos verdes e peles claras para te atormentar e humilhar, que lá você encontre a paz. Vá com Deus.
* O ex-estudante universitário João Luciano Ferreira Jr, 39, paraplégico em razão de um acidente, invadiu na quarta-feira passada (20/08) uma sala de aula da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, na região da Pampulha, em Belo Horizonte e manteve a professora Polyana Arantes, 25, sob a mira de um revólver calibre 32. Após exigir a saída dos alunos, João, que era apaixonado por Polyana, deu dois tiros contra a professora, sem acertar. Logo depois, ele atirou em si mesmo. João morreu dois dias depois em um hospital da cidade. A família autorizou a doação das córneas do rapaz.
* O ex-estudante universitário João Luciano Ferreira Jr, 39, paraplégico em razão de um acidente, invadiu na quarta-feira passada (20/08) uma sala de aula da Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, na região da Pampulha, em Belo Horizonte e manteve a professora Polyana Arantes, 25, sob a mira de um revólver calibre 32. Após exigir a saída dos alunos, João, que era apaixonado por Polyana, deu dois tiros contra a professora, sem acertar. Logo depois, ele atirou em si mesmo. João morreu dois dias depois em um hospital da cidade. A família autorizou a doação das córneas do rapaz.
VENDEDORES
Você precisa de quê hoje? Dê uma olhada nos seus sapatos. Você não acha que está na hora de trocá-los? Sabe aquele livro que você quer ler faz muito tempo e não está encontrando em lugar nenhum? A sua namorada faz aniversário hoje e você está pensando em comprar um belo buquê de rosas para ela? Seja qual for a sua situação, toda vez que você tem que ir a uma loja comprar algo de que você precisa, algo que você deseja, a primeira pessoa com quem você precisa conversar é com o vendedor. Muitos consideram esse profissional como um mal necessário para a vida moderna: muita gente acha que o vendedor é um mero serviçal, que não entende e não ama a sua profissão, talvez por ganhar pouco, trabalhar muito e ter que disputar com os colegas cliente por cliente. Mas e se você se deparar um dia, numa pequena sapataria do bairro, com um vendedor que olha para os seus pés e sabe exatamente o número do seu sapato? E se você for a floricultura e a vendedora te ajudar, com carinho e simpatia (não aquele tipo de simpatia forçada, aquele "sorriso de aeromoça") a escolher o melhor arranjo para enternecer o coração da sua amada? E se você encontrar um livreiro que, além de conhecer tudo da profissão, o ajude a encontrar aquele livro tão sonhado? A diferença entre ser bem atendido numa loja está em encontrar essas pessoas que ainda dominam os segredos, as sutilezas, a sensibilidade do seu ofício. Qualidades tão em falta no mercado. Os filmes a seguir mostram que ainda existem vendedores assim.
ÍMPAR PAR
(Brasil,2005,17 min, Direção por Esmir Filho. Com Adriana Seiffert, Alvise Camozzi, Imara Reis, José Rubens Chachá, Sarah Oliveira)
ÍMPAR PAR
FLORES PRA VOCÊ
(Brasil,2005,16 min. Direção por João Peixoto; com Vanessa Medeiros
FLORES PRA VOCÊ
É PRA PRESENTE
(Brasil, 2006, 15 min. Direção por Camila Gonzatto. Com Sissi Venturin, Tadeu Liesenfeld, Luiz Paulo Vasconcelos, Felipe de Paula, Roberta Savian,Daniel Bacchieri)
Prêmio Histórias Curtas RBS TV 2006
ÍMPAR PAR
(Brasil,2005,17 min, Direção por Esmir Filho. Com Adriana Seiffert, Alvise Camozzi, Imara Reis, José Rubens Chachá, Sarah Oliveira)
ÍMPAR PAR
FLORES PRA VOCÊ
(Brasil,2005,16 min. Direção por João Peixoto; com Vanessa Medeiros
FLORES PRA VOCÊ
É PRA PRESENTE
(Brasil, 2006, 15 min. Direção por Camila Gonzatto. Com Sissi Venturin, Tadeu Liesenfeld, Luiz Paulo Vasconcelos, Felipe de Paula, Roberta Savian,Daniel Bacchieri)
Prêmio Histórias Curtas RBS TV 2006
quinta-feira, 21 de agosto de 2008
Publique-se
Hoje, 21 de agosto, a empresa onde eu trabalho, por meio da gerência de comunicação, publicou nos murais de avisos dos prédios da sede alguns poemas meus. É um bom começo, não acham?
O BOM FILHO A CASA TORNA
Finalmente, depois de protelar por muito tempo, hoje cedo eu decidi voltar a Faculdade de Letras da UFMG, onde passei dez dos meus quase quarenta de idade. Uma parte desse tempo como estudante e, depois de abandonar o curso de Jornalismo, como "pau para toda obra" do Diretório Acadêmico da faculdade. Ali eu fazia de tudo um pouco, desde o café mais disputado da universidade - era de graça - até ser confidente das pessoas. E isso tudo incluia coisas de tipo receber recados, guardar e devolver objetos perdidos e achados, organizar festas (eu não ia às festas que eu ajudava a organizar), promover excursões e viagens, aturar estudantes chatos, bater altos papos filosóficos, ficar sem fazer nada etc. Eu era estimado por todos - quase todos -, todos contavam comigo, sabiam que eu estava ali para ajudar em qualquer situação, e eu me sentia alguém importante. Bom saber que a gente deixa um lugar, volta a ele depois de muito tempo e ainda há pessoas que se lembram de você, sentem a sua falta e dizem que você era necessário, que a sua presença era agradável, que o simples fato de você existir era essencial. Vou voltar lá mais vezes e com mais freqüência, para não perder o vínculo com aquele lugar. Foi bom ter partido para ver outros lugares, para ampliar a visão das coisas, mas é sempre bom voltar.
domingo, 17 de agosto de 2008
HISTORINHAS CURTAS
Condensar a história de um ano em poucas palavras. Vir e dizer tudo, em algumas cenas.O curta-metragem, um rápido olhar que a tudo vê, que não precisa de explicar tudo para se fazer entender. Assisti a vários deles hoje o dia todo. Conheci várias histórias, tanta gente por quem me afeiçoei. Apesar de saber de antemão que era ficção. A Alice, aquela que voltou de Londres para se perder em São Paulo, não existe. O garotinho que se fantasia de sapo para contracenar com a garota de seus sonhos no teatrinho da escola,também não. Mas suas histórias existem. Elas, as histórias de nossas vidas, existem sim. Porque todo mundo sente saudade de alguém, ninguém gosta de ligar para o amor de sua vida e ouvir "deixe o seu recado ou ligue depois"; ninguém gosta de virar São Paulo ou Belo Horizonte ao avesso para não encontrá-la, para deixar de vê-la; ninguém quer ficar sozinho, apenas imaginando onde o outro pode estar nesse exato momento, e com quem, e fazendo sei lá o quê com alguém. Pior ainda é implorar, pelo telefone, pelas ondas de rádio, pela internet, por cartas e mais cartas dilaceradas para que ela volte pro lugar de onde não deveria ter partido. Por isso, cada fragmento da vida cotidiana, contado em em curta-metragem, é a história da minha, da sua, da nossa vida. Apenas os personagens é que são de ficção, vieram da imaginação de um roteirista e de um diretor. Coloco aqui os links para essas histórias, para você, caro leitor, poder concordar comigo.
ALICE
(Brasil,2005, 15 min. Direção por Rafael Gomes. Com Fernando Alves Pinto e Simone Spoladore)
Alice
O SAPO
(Brasil, 2006, 18 min. Direção por Adolfo Sarkis. Felipe Latgé,
Isabela D´Lamare e Ernesto Picollo.
O Sapo
ÁTIMO
(Brasil,1997, 30 min. Direção por Romeu di Sessa. Com Lui Strassburger e Mayara Magri)
Átimo
ONDE QUER QUE VOCÊ ESTEJA
(Brasil, 2003, Direção por Bel Bechara e Sandro Serpa. Com Débora Duboc, Leonardo Medeiros, Robson Emílio)
Onde quer que Você Esteja
ALICE
(Brasil,2005, 15 min. Direção por Rafael Gomes. Com Fernando Alves Pinto e Simone Spoladore)
Alice
O SAPO
(Brasil, 2006, 18 min. Direção por Adolfo Sarkis. Felipe Latgé,
Isabela D´Lamare e Ernesto Picollo.
O Sapo
ÁTIMO
(Brasil,1997, 30 min. Direção por Romeu di Sessa. Com Lui Strassburger e Mayara Magri)
Átimo
ONDE QUER QUE VOCÊ ESTEJA
(Brasil, 2003, Direção por Bel Bechara e Sandro Serpa. Com Débora Duboc, Leonardo Medeiros, Robson Emílio)
Onde quer que Você Esteja
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
DOIS MENOS DOIS
Dois menos dois é zero. Dois menos um é zero. Um mais um é um. Não sobra nada de mim se você não se soma comigo. Eu multiplicado pela falta que eu sinto sou nulo.
(Curta-metragem "Dois menos Dois", Brasil, 2007, 5 min. Direção de Clarice Falcão e Célio Porto. Trilha sonora: "Sprout and the Bean" por Joanna Newsom)
(Curta-metragem "Dois menos Dois", Brasil, 2007, 5 min. Direção de Clarice Falcão e Célio Porto. Trilha sonora: "Sprout and the Bean" por Joanna Newsom)
domingo, 10 de agosto de 2008
FICÇÃO: CAFÉ DA MANHÃ
(versão preliminar. Sujeita a alterações. Ou a ser descartada) Inspirado no poema "Café da manhã", de Jacques Prévert (1900-1977). Leia a tradução do poema por Silviano Santiago. Vou tentar postar aqui o curta argentino "Desayuno" e a canção "Café da Manhã" de Vítor Ramil, também inspirados na obra de Prévert.
CAFÉ DA MANHÃ
Brigamos ontem. Pretexto: ciúme. Motivo real: o amor não veio, quando nos mudamos para viver juntos. Brigamos e agora você não me olha e nada me diz. Como se não me quisesses mais, como se isso fosse mesmo verdade. Você pega a xícara de café que eu preparei mais cedo, porque eu não dormi. Você sim, dormiu como uma criança. Velei teu sono e, em teu sono, você me pediu desculpas. Você fala muito durante os sonhos, e muitas vezes conta segredos escabrosos. Sei de tudo mas não vou te dizer que eu sei. Afinal, você não está falando comigo. Você pega a xícara, derrama dentro dela o café, mexe com a colherzinha e toma despreocupadamente as minhas lágrimas misturadas com açúcar e com afeto. Das notícias do jornal, você folheia distraída os episódios do dia anterior, sem se recordar que ontem nós brigamos por causa daquela outra. Não te interessam mais as minhas novidades, não ficaste sabendo que meus versos foram publicados naquela revista da faculdade, porque antes de eu te contar você cismou que fulana tinha me paquerado na mesa do bar e deu seu espetáculo. Desde ontem você cismou de não me olhar e não me falar. Mordes o pão com manteiga e eu como o pão que o Diabo não quis comer. Seu desjejum é frugal e eu morto de fome de você. Você me deixa faminto quando se levanta, veste a capa de chuva e sai. Sem me ver e sem me falar. Enquanto isso, me deixas aqui chorando.
Até mais tarde. Vou esperar você com o jantar.
Jacques Prévert (1900-1977)
CAFÉ DA MANHÃ
Tradução por Silviano Santiago
Pôs café na xícara Pôs leite na xícara com café Pôs açúcar no café com leite Com a colherzinha mexeu Bebeu o café com leite E pôs a xícara no pires Sem me falar acendeu um cigarro Fez círculos com a fumaça Pôs as cinzas no cinzeiro Sem me falar Sem me olhar Levantou-se Pôs o chapéu na cabeça Vestiu a capa de chuva porque chovia E saiu debaixo de chuva Sem uma palavra Sem me olhar Quanto a mim pus a cabeça entre as mãos E chorei.
DÉJEUNER DU MATIN Il a mis le café/ Dans la tasse/ Il a mis le lait/ Dans la tasse de café/ Il a mis le sucre/ Dans le café au lait / Avec le petit cuiller/ Il a tourné/ Il a bu le café au lait/ Et il a resposé la tasse/ Sans me parler/ Il a alumé/ Une cigarrette/ Il a fait des ronds/ Avec la fumée/ Il a mis des cendres/ Dans le cendrier/ Sans me parler/ Sans me regarder/ Il s'est levé/ Il a mis/ Son chapeau sur la tête/ Il a mis/ Son manteau de pluie/ Parce qu'il pleuvait/ Il est parti/ Sous la pluie/ Sans une parole/ Sans me regarder / E moi j'ai pris/ Ma tête dans ma main/ E j'ai pleure.
DESAYUNO Director: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Fecha de realización: 1/1/2006 Duración: 08:00 Minutos Productor: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Protagonistas: Juan Manuel Rodriguez Vida/Denese Trautman Edición: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Guión: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Sonido: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Nacionalidad: Argentina
CAFÉ DA MANHÃ
Brigamos ontem. Pretexto: ciúme. Motivo real: o amor não veio, quando nos mudamos para viver juntos. Brigamos e agora você não me olha e nada me diz. Como se não me quisesses mais, como se isso fosse mesmo verdade. Você pega a xícara de café que eu preparei mais cedo, porque eu não dormi. Você sim, dormiu como uma criança. Velei teu sono e, em teu sono, você me pediu desculpas. Você fala muito durante os sonhos, e muitas vezes conta segredos escabrosos. Sei de tudo mas não vou te dizer que eu sei. Afinal, você não está falando comigo. Você pega a xícara, derrama dentro dela o café, mexe com a colherzinha e toma despreocupadamente as minhas lágrimas misturadas com açúcar e com afeto. Das notícias do jornal, você folheia distraída os episódios do dia anterior, sem se recordar que ontem nós brigamos por causa daquela outra. Não te interessam mais as minhas novidades, não ficaste sabendo que meus versos foram publicados naquela revista da faculdade, porque antes de eu te contar você cismou que fulana tinha me paquerado na mesa do bar e deu seu espetáculo. Desde ontem você cismou de não me olhar e não me falar. Mordes o pão com manteiga e eu como o pão que o Diabo não quis comer. Seu desjejum é frugal e eu morto de fome de você. Você me deixa faminto quando se levanta, veste a capa de chuva e sai. Sem me ver e sem me falar. Enquanto isso, me deixas aqui chorando.
Até mais tarde. Vou esperar você com o jantar.
Jacques Prévert (1900-1977)
CAFÉ DA MANHÃ
Tradução por Silviano Santiago
Pôs café na xícara Pôs leite na xícara com café Pôs açúcar no café com leite Com a colherzinha mexeu Bebeu o café com leite E pôs a xícara no pires Sem me falar acendeu um cigarro Fez círculos com a fumaça Pôs as cinzas no cinzeiro Sem me falar Sem me olhar Levantou-se Pôs o chapéu na cabeça Vestiu a capa de chuva porque chovia E saiu debaixo de chuva Sem uma palavra Sem me olhar Quanto a mim pus a cabeça entre as mãos E chorei.
DÉJEUNER DU MATIN Il a mis le café/ Dans la tasse/ Il a mis le lait/ Dans la tasse de café/ Il a mis le sucre/ Dans le café au lait / Avec le petit cuiller/ Il a tourné/ Il a bu le café au lait/ Et il a resposé la tasse/ Sans me parler/ Il a alumé/ Une cigarrette/ Il a fait des ronds/ Avec la fumée/ Il a mis des cendres/ Dans le cendrier/ Sans me parler/ Sans me regarder/ Il s'est levé/ Il a mis/ Son chapeau sur la tête/ Il a mis/ Son manteau de pluie/ Parce qu'il pleuvait/ Il est parti/ Sous la pluie/ Sans une parole/ Sans me regarder / E moi j'ai pris/ Ma tête dans ma main/ E j'ai pleure.
DESAYUNO Director: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Fecha de realización: 1/1/2006 Duración: 08:00 Minutos Productor: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Protagonistas: Juan Manuel Rodriguez Vida/Denese Trautman Edición: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Guión: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Sonido: Ezequiel Gaitan/Luis Fanti Nacionalidad: Argentina
YO TAMBÍEN TE QUIERO
"Eu só te quero como amigo". Quem já não escutou essa fala da mais linda voz do mundo, da forma mais delicada e mais gentil? Nesse divertido, romântico e sensível curta-metragem mexicano, o ótimo ator Miguel Rodarte vive Luiz, apaixonado desde sempre pela sua linda amiga Tania. Ele nunca teve a coragem de se declarar a ela, suportando calado o papel de confidente e melhor amigo da garota.
Yo Tambíen te Quiero (México, 2005, 10 min, cor)
Direção por Jack Zagha Kababie com Miguel Rodarte, Adriana Louvier, Emilio Guerrero, Candela dos Santos
Assista ao curta-metragem no Youtube.
Yo Tambíen te Quiero (México, 2005, 10 min, cor)
Direção por Jack Zagha Kababie com Miguel Rodarte, Adriana Louvier, Emilio Guerrero, Candela dos Santos
Assista ao curta-metragem no Youtube.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
FERNANDO PESSOA EM ESPANHOL
Aí está uma verdadeira preciosidade! Quase toda a obra de Fernando Pessoa e seus heterônimos em edição bilingüe, em português e em espanhol. É um exvcelente material para os estudiosos da língua de Cervantes e Neruda. Com um recurso de procurar palavras dentro dos textos. Por exemplo, se você quiser saber todas as vezes que Pessoa escreveu a palavra "amor" é só digitá-la no campo de busca. O link é o
www.fpessoa.com.ar (CTRL+C, CRTL+V no seu browser)
www.fpessoa.com.ar (CTRL+C, CRTL+V no seu browser)
terça-feira, 5 de agosto de 2008
NERUDA
Não tenho postado nada de Pablo Neruda, meu poeta favorito. Eventos recentes me levaram a relê-lo em seus "Cem Sonetos de Amor". Busquei na imortal obra do poeta chileno um pouco da inspiração que me faltou, de como parece fácil para ele falar de amor à mulher amada, de como é simples e suave amar uma mulher. Posto aqui um desses sonetos, em sua versão original e na tradução impecável de Carlos Nejar. Essas palavras dizem, em espanhol e em português, tudo o que eu deveria ter dito.
PABLO NERUDA
(RICARDO NEFTÁLI REYES, 1904-1973)
CEM SONETOS DE AMOR (1959)
Soneto XLV
No estés lejos de mí un solo día, porque cómo,
porque, no sé decirlo, es largo el día,
y te estaré esperando como en las estaciones
cuando en alguna parte se durmieron los trenes.
No te vayas por una hora porque entonces
en esa hora se juntan las gotas del desvelo
y tal vez todo el humo que anda buscando casa
venga a matar aún mi corazón perdido.
Ay que no se quebrante tu silueta en la arena,
ay que no vuelen tus párpados en la ausencia:
no te vayas por un minuto, bienamada,
porque en ese minuto te habrás ido tan lejos
que yo cruzaré toda la tierra preguntando
si volverás o si me dejarás muriendo.
Tradução por Carlos Nejar
Soneto XLV
NÃO ESTEJAS longe de mim um só dia, porque como,
porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.
Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.
Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência:
não te vás por um minuto, bem-amada,
porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo.
PABLO NERUDA
(RICARDO NEFTÁLI REYES, 1904-1973)
CEM SONETOS DE AMOR (1959)
Soneto XLV
No estés lejos de mí un solo día, porque cómo,
porque, no sé decirlo, es largo el día,
y te estaré esperando como en las estaciones
cuando en alguna parte se durmieron los trenes.
No te vayas por una hora porque entonces
en esa hora se juntan las gotas del desvelo
y tal vez todo el humo que anda buscando casa
venga a matar aún mi corazón perdido.
Ay que no se quebrante tu silueta en la arena,
ay que no vuelen tus párpados en la ausencia:
no te vayas por un minuto, bienamada,
porque en ese minuto te habrás ido tan lejos
que yo cruzaré toda la tierra preguntando
si volverás o si me dejarás muriendo.
Tradução por Carlos Nejar
Soneto XLV
NÃO ESTEJAS longe de mim um só dia, porque como,
porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.
Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.
Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência:
não te vás por um minuto, bem-amada,
porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo.
O OUTONO DO ANO PASSADO
É mentira dizer que não te espero:
É a vida que me disse isso, agora à tarde
Todas as coisas de que me lembro trazem um nome impresso
A cena de um livro a ser escrito
O vento que carrega as folhas secas
E leva uma palavra ao pensamento;
É inútil para mim, a esta altura
Desejar o esquecimento
Tudo na história traz um rosto antigo
Que ri no retrato:
Uma lágrima desce a minha face.
No outono do ano passado, num dia cinzento como hoje mais cedo
Eu te via como no sonho eu vejo agora, tão tranqüila
Caminhando em silêncio, pensando na vida
De vez em quando me olhava
De vez em quando sorria
E eu nunca dizia que te amava.
É a vida que me disse isso, agora à tarde
Todas as coisas de que me lembro trazem um nome impresso
A cena de um livro a ser escrito
O vento que carrega as folhas secas
E leva uma palavra ao pensamento;
É inútil para mim, a esta altura
Desejar o esquecimento
Tudo na história traz um rosto antigo
Que ri no retrato:
Uma lágrima desce a minha face.
No outono do ano passado, num dia cinzento como hoje mais cedo
Eu te via como no sonho eu vejo agora, tão tranqüila
Caminhando em silêncio, pensando na vida
De vez em quando me olhava
De vez em quando sorria
E eu nunca dizia que te amava.
O ATO EM SI
Isto que não está neste momento
E que no exato instante não acontece
dado como perdido
considerado ausente
Está contido no gesto
No que não se vê
E é a causa de tudo o que tem sido
Isto que não é o ato
Propriamente dito
Está em tudo o que parece não ser:
E é.
E que no exato instante não acontece
dado como perdido
considerado ausente
Está contido no gesto
No que não se vê
E é a causa de tudo o que tem sido
Isto que não é o ato
Propriamente dito
Está em tudo o que parece não ser:
E é.
O NARCISO CEGO
Vieste no escuro, pois eu te senti
Perturbando de noite o meu sossego
Não te reconheci no meu olhar, até me repetir
no seu alheamento
Custei a acreditar
Quis até fugir com medo
Mas tiveste braços tão suaves
que eu me rendi
Vieste no ar, sem me dizer,
Só fui notar quando já estava preso
Chegaste em segredo, eu vi,
E mesmo assim eu fiquei surpreso
Roubaste a chave da minha casa
Que eu pensava que havia perdido
Entraste em minha vida em silêncio:
O espelho mais belo que eu já tinha visto.
Perturbando de noite o meu sossego
Não te reconheci no meu olhar, até me repetir
no seu alheamento
Custei a acreditar
Quis até fugir com medo
Mas tiveste braços tão suaves
que eu me rendi
Vieste no ar, sem me dizer,
Só fui notar quando já estava preso
Chegaste em segredo, eu vi,
E mesmo assim eu fiquei surpreso
Roubaste a chave da minha casa
Que eu pensava que havia perdido
Entraste em minha vida em silêncio:
O espelho mais belo que eu já tinha visto.
domingo, 3 de agosto de 2008
QUEM É MESMO O ANIMAL?
Hoje à tarde eu vinha caminhando, como costumo sempre fazer, desde o centro da cidade até em casa, distante poucos minutos da Praça Sete de Setembro, se quiserem uma referência. Ao ganhar a rua Tenente Anastácio de Moura, quase chegando em casa, me deparei com uma cena tocante: um velhíssimo cão bem no meio da rua, prestes a ser atropelado pelos automóveis e ônibus que iam e vinham indiferentes. O cão era tão velho - não parecia ter raça definida e aparentava não enxergar muito bem - que quase não conseguia mais caminhar, arrastando-se com extrema dificuldade; tentei tocá-lo de volta para a calçada, cheguei até mesmo a carregá-lo, mas não teve jeito: deixei-o num canto, a sua própria sorte, para que ele, enfim, morresse à mingua. Certamente alguém deve ter feito isso antes de mim. O dono, provavelmente, não queria mais o estorvo de um cão velho, cego e doente em casa, e optou pela solução final: abandoná-lo no meio da rua. Já se falou muito em "posse responsável" de animais domésticos. Bichos abandonados nas ruas podem inclusive transmitir doenças graves como a Leishmaniose. Não significa que cão deva merecer tratamento "de gente": posse responsável é tratar o animal com carinho, alimentação saudável, vacinas em dia e higiene. É não deixá-lo à míngua quando a idade avançada chega, quando o pêlo perde o viço, quando ele já não consegue mais latir de contentamento quando o dono chega em casa. Os caras que bebiam num bar na esquina até riram de mim por causa da minha compaixão com aquele ser vivo largado na rua. Alguns transeuntes até chegaram a se solidarizar com a causa do cão, mas logo seguiam o seu caminho, provavelmente sem dar muita importância ao fato. Gosto de cães, embora não tenha nenhum a meus cuidados. Os considero os animais mais nobres e leais e, mesmo os vira-latas vagando a esmo pela rua têm uma certa dignidade, um certo brilho nos olhos, uma resignação com o seu destino errante que comove. Aquele cão ficou lá na Tenente Anastácio. Não sei mais o que é dele, se ainda vive ou se foi colhido por um auto apressado. Talvez ele seja capturado pela Zoonoses e será sacrificado em uma câmara de gás no Canil Municipal. Destino indigno para o chamado "melhor amigo do homem"
IMPREVISTO ACASO
Porque estou acostumado
Espero me surpreender -
Tem sido incerto,
Mais do que improvável:
E é por isso mesmo que acredito
E quem há de me contradizer
Se eu não duvido?
É de se supor
Que algo de imprevisível
Há de acontecer;
Via de regra é assim que deve ser:
O que não se espera
Pode aparecer
E será bem vindo.
Espero me surpreender -
Tem sido incerto,
Mais do que improvável:
E é por isso mesmo que acredito
E quem há de me contradizer
Se eu não duvido?
É de se supor
Que algo de imprevisível
Há de acontecer;
Via de regra é assim que deve ser:
O que não se espera
Pode aparecer
E será bem vindo.
ARMISTÍCIO
Sim, eu me declaro vencido
Agora sou teu por inteiro
Seus exércitos tomaram as ruas da minha vida
E me levaram os medos
Todos os meus irmãos que estavam presos
Na cadeia do meu porão
Agora estão livres
Meus erros que me condenavam ao degredo
Graças a tua compaixão
Foram perdoados
Sim, minha rainha, estou deposto da minha tirania
contra os meus desejos
Agora rendido eu posso confessar meu segredo
Um sentimento bonito desde sempre guardado
A sete chaves.
Agora sou teu por inteiro
Seus exércitos tomaram as ruas da minha vida
E me levaram os medos
Todos os meus irmãos que estavam presos
Na cadeia do meu porão
Agora estão livres
Meus erros que me condenavam ao degredo
Graças a tua compaixão
Foram perdoados
Sim, minha rainha, estou deposto da minha tirania
contra os meus desejos
Agora rendido eu posso confessar meu segredo
Um sentimento bonito desde sempre guardado
A sete chaves.
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