quinta-feira, 26 de maio de 2011

ESTA É A CIDADE

Um senhor anda apressado, trajando terno escuro e com a pasta executiva, provavelmente está atrasado para alguma reunião; a moça de branco vai daqui a pouco aprender mais alguma coisa sobre os ossos do corpo humano; o homem de amarelo e azul olha o envelope colorido e procura nas fachadas dos edifícios o número do destinatário; o rapaz de uniforme apita estridente e agita freneticamente os braços, apressando o movimento dos carros; a mãe ralha com o menino que teima em olhar para a vitrine da loja de brinquedos; ela tem pressa, pode perder o ônibus, e o outro só daqui a sei lá quanto tempo; um rapaz de banho tomado e camisa nova olha para a direita e para a esquerda, espera alguém que já se demora, parece; deve ser uma mulher, talvez um outro rapaz; ele olha para o relógio e franze a testa; um menino esfarrapado e sujo, o nariz escorrendo, estende a mão pequenina e com sua pequenina voz pede uma moeda, mas na verdade o que ele quer mesmo talvez seja um pouco de carinho e de atenção. Esta é a cidade. Casais de namorados de mãos dadas perambulam bobos pelo parque, naquele doce alheamento sobre o futuro de sua relação, quando a tendência é mais dia menos dia tudo terminar numa tola discussão na porta do cinema sobre que-filme-vamos-ver; uma senhorinha de uniforme laranja arrasta a vassoura de piaçava pela calçada, no mesmo instante em que uma garota de óculos escuros, i-pod e tênis all-star acaba de lançar o papel do chicletes que masca displicente; um carro importado sem cerimônia estaciona na faixa de pedestre; a dona de bengala e bíblia olha conformada a rua por onde então terá que passar, isso se os sacos de lixo deixarem; um mendigo parado com uma expressão abobalhada, diante do cartaz de uma seminua musa de cerveja; um operário abraça a namorada num canto escuro da calçada; uma melodia tristonha sai do rádio de um cego que pede esmola e um menino oferece, numa bandeja de doces, o sabor da vida. Enquanto isso, os cartazes anunciam a felicidade a preços populares para o rebanho triste que anda em fila indo para casa. Esta é a cidade. Uma sirene pede passagem ao tráfego intenso; alguém está morrendo nesse instante atado aos tubos de oxigênio ou ao aparelho desfibrilador. Na outra esquina, alguma criança com corpo de moça vende a ilusão de um amor que não sente, de um prazer que nunca experimentou a quem tem pouco dinheiro para comprá-lo. Esta é a cidade.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

DA RUA AMIANTO

Sinceramente, essa arquitetura não me interessa mais
Essa pintura antiga das fachadas não faz mais diferença
A novidade de tudo nessa cidade é algo que mais me atrai
Eu vi ouro e prata em outros tempos
E grandes senhores de quem fui rei
Mas essa noite fui sem saber o mais pobre dos homens
Diante da dona do meu país
Pelas ruas de pedra eu deixei passar os instantes
Quase sem acreditar no que vi
Como se fosse realmente real e não um teatro como a vida
que eu sempre li
Para o bem da verdade, essas histórias da fantasia
Não me dizem nada mais e é
Melhor ver do que sentir
- que o sonho só existe quando não se vive.

domingo, 22 de maio de 2011

ONZE E MEIA

Vai para casa então
E lá se deite
para perder o sono
Lembre-se do que eu disse essa noite
E nunca mais se esqueça
Ligo amanhã
quando acordar.

A LINGUAGEM DAS MÃOS

Olho mais para suas mãos do que em seus olhos
Porque aquelas mais que estes desenham estrelas e caminhos
Criam idéias, ilusões
Mas eu imagino
Que contornos teriam na ausência da visão.

Vejo mais claro pelo gesto que pela explicação
Que um só deles contém tudo o que é preciso:
Se fosse dito teria menos sentido.

O SEGUNDO SINAL

Já fui lá fora mais de não sei quantas vezes. Olhei a rua de um lado e de outro, e mais de uma vez vi uma garota morena de cabelos curtos, de vestido indiano e bolsa de crochê. Mas não era você. O relógio está marcando 20:55, e o espetáculo do Galpão está marcado para as 21. Estamos no horário de verão. Começou hoje. Adiantar o relógio em uma hora. Tanto que quando eram seis da tarde - a hora em que eu cheguei aqui - ainda estava dia claro. Cheguei tão cedo porque queria ser o primeiro a chegar, os lugares não estão marcados, e eu ia ficar de plantão na porta do teatro para pegar a primeira, no máximo a segunda fila. Gosto de ficar bem perto do palco, ouvir o ruído dos passos dos atores sobre o piso de madeira, notar detalhes mínimos do espetáculo, prestar atenção em tudo. E o mais ainda era ter a expectativa de ver você aparecer lá longe na rua, vir se aproximando de mim, me reconhecer no meio do povo, como se estivesse ali só por minha causa. Você iria me dar um abraço, um beijo no rosto. Então nós iríamos nos atualizar sobre nossas novidades, você iria me contar sobre as agruras de se formar, sobre os problemas na sua casa, sobre os amigos comuns que sumiram, sobre o que você anda lendo. Eu ia falar sobre a chatice do meu emprego, sobre a minha filha, sobre eu ter mudado de casa outra vez em menos de um ano. Enquanto esperássemos pelo início da peça, tomaríamos uma xícara de capuccino na cafeteria do teatro -está fazendo frio - e ficaríamos zapeando as prateleiras da livraria. Mas já são 21h, o primeiro sinal já tocou, e você que não chega. Passa pela minha cabeça, e aperta o meu coração, a possibilidade de você não vir, me dar um "bolo" como daquela vez ano passado. Depois você se justificou dizendo que era por "coisas de mulher", essas coisas de todo mês. Eu disse que tinha entendido, que "tudo bem", mas assisti o espetáculo sozinho, com um gosto amargo na boca; fiquei um tempo triste e aborrecido, mas depois que você apareceu lá na faculdade - como se não tivesse desaparecido - e eu esqueci tudo no mesmo instante em que te vi de novo. 21:02. A platéia lotada já, casais juntos, famílias inteiras na mesma fila, todos ansiosos e alegres, bem arrumados para a ocasião. E eu na porta do teatro ainda, olhando para a esquerda e para a direita, vendo você em todas as moças que passam, mas nenhuma delas é você. Nem precisa mais da bolsa de crochê, nem do vestido indiano, nem dos cabelos curtos. Não precisa nem mesmo ser morena, confundo todas com aquela a quem espero ansiosamente, a única que me interessa em toda a cidade. A única que eu amo. 21:05. Segundo sinal. Ah, não, de novo, não!
Então, de repente, lá no Mercado das Flores, uns cento e tantos metros de onde eu estou, aponta uma garota de vestido indiano, cabelos curtos e bolsa de crochê. Morena. É ela! Em cima da hora! Os passos apressados dizem que ela está ansiosa também, que veio quase correndo pelas ruas desde o ponto em que ela desceu do ônibus dela. Quando me vê, aflito, sorri: "Desculpa. Esqueci do horário de verão".

sábado, 21 de maio de 2011

A IDÉIA DO FIM

No plano e no espaço onde penso que existo,
Apenas um ponto infinitesimal e finito
diz que sou algo menor do que realmente me sinto
e que um dia qualquer não serei nem isso
Nem haverá de mim qualquer sinal.

QUASE O TEMPO

Eu e você não nos encontraremos
por muito tempo
Depois de hoje quem sabe
Se haverá outro acaso
Numa cidade tão grande

Nessa noite conversaremos
por muitas horas
sobre a saudade.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

A OUTRA FACE

Me apego ao que me foge
e a dor que sinto me cai bem
vigio o algoz para que ele me alcance
E faça o mal que prometeu
É isso ou a solidão
Que causa medo.

NÃO PODEM SABER

(Para Grissom e Sara)

Se eu me surpreendesse
Não seria surpresa
Pois suspeito o que viria a ser
Embora eu não tenha a menor idéia do que me espera

Me acostumei a não crer
Tendo esperança
E a te querer abrindo mão de ti
Discretamente te assediando a distância.

ESTRANHOS ÍNTIMOS

Acabou o resto de amor
Um pedaço que nenhum dos dois guardou
Achando que daria
Um de nós roubou a melhor parte do que a gente seria
E eu diria que esse alguém era eu
Mas não digo
A gente pensava cada um por si
Sem saber o que o outro queria
Achando que era igual

MERO ACASO

É quase certo que hoje não será:
Mas eu espero.

INDISCRIÇÃO ALHEIA

Pelo meu silêncio já se vê
que eu queria dizer o que não digo:
Qualquer olhar desatento
já saberia o meu segredo.

terça-feira, 29 de março de 2011

AMOR NÃO TEM PREÇO

Recompensa de R$ 1.000 é oferecida para quem achar cão de morador de rua
O cachorro Neguinho sumiu quando Renato foi levado para um abrigo da prefeitura

Do R7, com Rede Record

Uma recompensa de R$ 1.000 é oferecida para quem encontrar o cachorro de um morador de rua na zona sul do Rio de Janeiro. O cão atende pelo nome de Neguinho. Renato, que vive numa praça em Ipanema, foi levado à força por uma equipe da prefeitura para um abrigo. Para não perder o melhor amigo, ele deixou o cão amarrado a uma grade, mas quando voltou, poucas horas depois, o animal não estava mais lá.

Uma moradora, que se solidarizou com o drama de Renato, decidiu ajudá-lo, mandou confeccionar os cartazes e prometeu ajudar com parte da recompensa de R$ 1.000.

- O Renato pegou o Neguinho com quatro meses. Então é um pai e um filho, uma relação muito bonita com o animal que é o nosso amigo mais fiel mesmo.

Quando voltou à praça, Renato soube que duas mulheres pensaram que o cãozinho estava abandonado. Elas chegaram a comprar ração e uma coleira nova para Neguinho e levaram ele.

Renato, que conseguiu um emprego e uma casa para morar, diz que ainda não deixou a praça com medo de o animal voltar.

- Já tinha perdido a minha família, tudo que eu tinha o governo já tirou e agora me tiraram a única coisa que era um apoio de vida, que fazia eu me sentir vivo, me sentir alguém. Oportunidade para subir na vida eu já ganhei, já está quase tudo pronto, mas se eu estou demorando a ir, é por causa do meu cachorro, sem ele eu não consigo.

domingo, 27 de março de 2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

É BOM VIVER (2)

sábado, 19 de março de 2011

QUEM, COMO, ONDE, PORQUÊ?



Uma análise de CSI Las Vegas – Investigação Criminal.



"Se você quer pegar um rato, aja como um rato, e não como um gato". A frase dita pelo perito forense Gil Grissom (William Petersen), supervisor do turno da noite do Departamento de Criminalística da Polícia de Las Vegas serve bem para resumir o que um grupo de técnicos munido de sua parafernália tecnológica fazem para chegar às respostas das quatro questões propostas pelo título desse artigo: quem fez o quê, como conseguiu fazê-lo, em que lugar o fato concreto se deu, e que motivações – abertas ou ocultas – estavam em jogo no momento crucial do ato. Entender o criminoso – diz Grissom – é pensar como ele, é compreendê-lo até, e é interpretar seus sentimentos e motivos; antes mesmo de realizar o pré-julgamento moral que somos tentados a fazer diante de um criminoso, nós, "cidadãos de bem", deveríamos nos ater aos fatos concretos, entendê-los, saber como chegou o ponto em que alguém, em sua sã consciência, foi levado a cometer um ato lesivo à vida ou ao patrimônio de um semelhante. E chegar a estas respostas depende não só do emprego de meios fornecidos pela ciência e pela tecnologia, mas exige método, muita intuição, esforço, coragem, um pouco de sorte e uma boa dose de paciência.
Tudo começa no grande teatro de operações chamado "a cena do crime" ( é por isso que a série se chama Crime Scene Investigation). O local e seu perímetro é exaustivamente esquadrinhado, dissecado,fotografado, escaneado por engenhocas sofisticadas ou pelos olhos experientes, perspicazes e bem treinados dos CSI’s, que é como esses peritos forenses são chamados. Tudo para ver com os olhos do suspeito e da vítima, enxergar o que estes viram na hora do crime, colocar-se no lugar dos personagens da ação. Não se trata, porém, de voltar no tempo – algo fisicamente impossível, como observaria Grissom - mas de tornar a vivê-lo como no instante em que ele se deu e, de preferência, no lugar exato. Daí, cabe aos CSI’s colher em campo cada fiapo de informação que o local do crime pode fornecer para recontar a história, cada pedacinho de cada pequeno detalhe tem que ser cuidadosamente recolhido e etiquetado, classificado pela sua importância no contexto. Um caco de vidro, um toco de cigarro, um fio de cabelo, uma goma de mascar, um bilhete, uma carta, fluidos corporais no lençol da cama – sangue, suor, sêmen – podem indicar quem estava ali, e quando, e com quem, e sabe se lá fazendo o quê, até que o desenrolar dos fatos resultasse em homicídio, suicídio, furto, incêndio, faces do mal materializadas pela ação ou a omissão de um ser humano, contra si ou seus
semelhantes. Cabe a eles repetir os passos da vítima e do seu algoz, ouvir o diálogo que aconteceu então, reproduzir os gritos, as acusações, as recriminações, atirar de novo exatamente na mesma direção, se possível usando a mesma arma. E recolher os vestígios deixados pelo descuido do criminoso, como uma pegada no chão, uma marca de pneu no asfalto, uma faca suja de sangue na cozinha, pêlos no ralo do banheiro, restos de comida na lata de lixo da calçada. Depois, levar tudo isso
para o bem equipado Laboratório Criminal, onde aparelhos e produtos químicos com nomes complicados irão extrair daqueles objetos aparentemente inutéis a verdade sobre um crime, e a pista para chegar aonde o criminoso está. É no Crime Lab que o
"crime perfeito" começa a ser desmontado para ser recriado nos monitores de computador, na máquina que encontra em segundos a única combinação possível dentre milhões de perfis de DNA, e no AFIS, que encontra também entre milhões a digital que
corresponde exatamente àquela colhida na cena do crime. Com a identificação positiva em mãos, agora é só ir atrás do bandido, já que agora sabemos tudo sobre ele - onde mora, quem é e o que faz,e porque está fichado. É aí que às vezes nos surpreendemos com a revelação saída da máquina de DNA ou do AFIS. O criminoso, o bandido, pode ser de alta periculosidade, condenado e procurado em todo o país, ou pode ser aquele seu vizinho estranho, que não conversa com ninguém; pode ser alguém em quem você mais confiava, até mesmo alguém da família, seu pai, sua mãe, sua mulher, seu filho adolescente, sua filha querida. Às vezes você descobre que seu mais leal empregado está roubando o caixa, que seu melhor amigo está tendo um caso com a sua namorada, que seu marido está te traindo com a sua melhor amiga. E que cidadãos "acima de qualquer suspeita" podem se transformar em maníacos sanguinários, em habéis farsantes, em assassinos covardes; a máscara social de "cidadão de bem" cai por terra e revela a sua verdadeira face. Mesmo o pai de família que parece o mais dedicado pode às vezes se revelar um monstro: comete abuso sexual contra a filha no quarto do casal. A mãe super protetora, capaz dos maiores sacrifícios para proteger os filhos, pode estar nesse mesmo instante colocando veneno na comida deles. As pessoas de quem jamais esperaríamos tais atitudes acabam confessando diante do interrogador o segredo terrível, a falta grave, o desespero que levou a consequências trágicas, causou danos irreversíveis, muito desproprocionais ao agravo. Muitas vezes, uma pessoa, no auge da emoção, na violência da paixão, acaba por extravasar o pior de si: a sede de vingança, o egoísmo, a mesquinhez, a covardia, a possessividade muitas vezes confundida com amor.
A parte mais difícil e dolorosa do processo, aquela que nenhum dos profissionais gosta é a de ter que lidar com os mortos e a comunicar aos vivos a perda de seus entes queridos, é ter que levar o pai ou a mãe, a namorada, o amigo da vítima para
reconhecer o corpo - ou partes desfiguradas dele - guardado na geladeira do necrotério do Departamento de Polícia, uma etiqueta no dedão do pé com o nome ou, se desconhecido, apelidando-o de "John Doe" (fulano), número tal. As lágrimas, os gritos, os desmaios quando o funcionário do necrotério puxa a gaveta e mostra ao parente o corpo do seu ente querido, são de cortar o coração mesmo dos mais experientes. Ver inerte em uma bandeja fria de aço o menino alegre que acabara de ganhar o campeonato de futebol na escola, a garotinha do papai, a mulher da sua vida deve ser a pior experiência, ainda mais quando se sabe ou se desconfia que a morte foi provocada por alguém. Deve ser terrível para um pai ou uma mãe saber que aquela sutura em forma de Y no peito do cadáver do filho indica que os seus órgãos internos foram removidos pelo legista-chefe, à procura de algum indício que revele a COD (cause of death, causa da morte), à procura dos fragmentos da bala fatal, da substância venenosa, de alguma coisa que possa levar a quem fez aquilo. É em cima de uma mesa de aço, com serras elétricas para cortar a carne dos
cadáveres, pias e bacias para recolher e processar vísceras humanas, que a cara da morte se mostra.






O legista Robbins, um simpático e falante velhinho que usa muletas, mostra a Grissom num pedaço de cérebro, num coração recém extraído, numa amostra de tecido humano, a explicação científica sobre como a vítima morreu, por onde e como é que a bala entrou, qual pode ter sido a substância letal que a vítima ingeriu.
Grissom sempre diz a seus subordinados que eles são "a voz da vítima" e que, se os mortos não falam, mostram alguma coisa que pode ajudar a descobrir o que ou quem os matou. Se lutaram pela vida, se reagiram à agressão, deixarão nas suas vestes, nos seus objetos, no próprio corpo a marca do agressor: lesões de defesa, como arranhões e perfurações secundárias, não aquelas que efetivamente causaram a morte; traços do DNA do suspeito nas roupas, sob as unhas, numa taça, num guardanapo de papel, no
controle remoto da TV.Mas todas essas coisas - ou evidências, no jargão técnico dos peritos – e de novo citando o supervisor Grissom – são inúteis se não obtiverem o respaldo do rigor cientifico exigido pelos métodos da investigação forense, se as evidências não explicarem as impressões, se não houver uma correspondência unívoca e inequívoca destas em relação àquelas. Uma suposição – perigosamente eivada de "achismos" ou de julgamentos falhos e precipitados , às vezes até de preconceitos do próprio investigador– é totalmente inválida se não for submetida a rigorosos ensaios químicos, físicos e biológicos e enquanto não for demonstrado que de fato tem sentido, que aquela prova material, testemunhal ou circunstancial é definitiva e inquestionavelmente parte do cenário. No tribunal, diante de juízes e de promotores, uma prova material, por mais evidente que seja, pode ser sumariamente desqualificada se estiver contaminada pelo "ponto de vista" daquele que a coletou, se o crivo moral do investigador for mais importante que o objeto em si.
Quem faz esse todo trabalho é tão humano quanto o criminoso ou a vitíma, e é, apesar de toda a proficiência e treino, passível de cometer erros, de pôr tudo a perder por um deslize, de calcular mal. E os CSI's do nosso seriado são, antes de
tudo, gente de carne e osso; são heróis, mas não super-heróis: se levam tiros morrem, se caem da altura se ferem, sentem dor, ódio, compaixão, torcem o nariz diante de restos humanos em decomposição,choram e se irritam, não são indestrutíveis, não fazem os malabarismos inacreditáveis de outros filmes de "ação" que estamos acostumados a ver. E todos eles - já está na hora de apresentá-los - tem problemas.



Grissom, o supervisor, metódico, autocentrado e extremamente dedicado ao trabalho, quase perdeu a audição, por causa de uma doença hereditária; prefere a solidão de seu amplo apartamento em meio às suas estantes repletas de livros de entomologia, ao convívio com outras pessoas; por isso reluta em assumir de fato a paixão e a atração que sente pela subordinada, a CSI Sara Sidle (Jorja Fox), que também é apaixonada pelo chefe; mas esse relacionamento, contrário às normas do Departamento, tem que ser escondido de todos, custa a se estabelecer, a ser admitido por ambos, e sofre em silêncio a extrema dor de não poder ser aberto ao mundo. Sara, quando criança, viu a mãe esfaquear o pai até a morte, e até hoje vive com os fantasmas do passado; passou a infância e parte da adolescência em abrigos, e já teve problemas com álcool - uma vez foi pega no teste do bafômetro.



Warrick Brown (Gary Dourdan) é viciado em jogo (é uma tentação para ele viver em Las Vegas,onde em cada esquina há um cassino), toma um remédio para dormir e outro para manter-se acordado, e já se envolveu em um caso de extorsão com um juiz corrupto, além de ter que conviver com a culpa por ter não ter evitado o assassinato de Holly Gribbs, uma CSI novata que estava a seus cuidados. Warrick deixou a perita sozinha na cena do crime e foi jogar pôquer num cassino. O suspeito voltou ao local e atirou nela.



Catherine Willows (Marg Hengelberg) que já foi dançarina num clube de striptease, tem uma filha adolescente, um divórcio conturbado, um pai milionário (dono de cassino),suspeito de vários crimes; e, apesar de linda, nunca teve sorte com os homens.



O Detetive Jim Brass (Paul Guilfoyle), foi alvo de uma sindicância interna por que teria atirado num policial durante uma perseguição a ladrões de carro; divorciado, tem uma filha adolescente problemática, prostituída e drogada, e que o odeia mas fica de olho no seguro de vida do pai, quando este se vê entre a vida e a morte depois de ser baleado.




Nick Stokes (George Eads) o mais atlético e corpulento do grupo, ex jogador de basquete na faculdade, revela que foi vítima de abuso infantil por parte de uma babá; no trabalho, foi perseguido por um maníaco, foi enterrado vivo, acusado de matar uma garota de programa, e de deixar vazar uma investigação sigilosa do Departamento. Com tudo isso em seu desfavor, com os traumas e neuroses cotidianas que todos nós vivemos, seria de se esperar que a vida pessoal dos investigadores interferisse de maneira significativa no trabalho deles, chegasse a comprometer o resultado das suas diligências. E é isso mesmo que acontece: uma vez Sara é vista acariciando o rosto do chefe; isto é o bastante para um promotor colocar em dúvida toda a investigação; em outra ocasião, o vício em jogo de Warrick é questionado diante de um júri, e o todo o trabalho que o investigador teve quase demonstra-se inútil; Nick, que é o que mais toma as dores da vítima, muitas vezes chega a agredir um suspeito; mesmo Grissom, um dos mais respeitados e famosos criminalistas do país, tem sua credibilidade posta a prova porque, devido à perda progressiva da audição, não consegue entender a pergunta da promotora no julgamento; Catherine uma vez faz explodir o laboratório, simplesmente porque esquece uma substância inflamável perto de uma fonte de calor; interrogada, ela desabafa: passa dezesseis horas por dia no trabalho, quatro tentando dormir e as quatro restantes tentando controlar os impulsos da filha adolescente. Além disso, não pode investigar os crimes atribuídos ao pai. A complexidade dos dramas morais, afetivos e psicológicos dos personagens é o que os torna humanos como nós, e é o que faz nos identificarmos com eles; no entanto, o profissionalismo, a dedicação, o sentimento do dever, o esforço quase que sobrehumano falam mais alto que as dificuldades: horas e horas extras, dias de sono (eles trabalham à noite) perdidos, risco de morte iminente a cada novo caso, nada disso tira deles a vontade de descobrir a verdade, o amor pela justiça, o empenho para chegar aos culpados e fazer com que estes sejam punidos, para dar algum conforto espiritual aos que perderam um ente querido de forma cruel e trágica.

quinta-feira, 3 de março de 2011

ANTES DO DIA SEGUINTE

Antes foi o tempo de ser
o que se vai contar
Do que deixou para sempre de existir
só eu sei o que será
Quando um dia eu me lembrar
que não me esqueço.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

(sem título)

O leite derramado
tem gosto de pó.

sábado, 29 de janeiro de 2011

sem título

Que seja fantasia isto que eu sinto
Mesmo que me cause dor e alegria
Que só me faça sentido sendo ilusão
Coisas reais foram inventadas pela imaginação:
Antes de existir avião
Ícaro voava.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

É BOM VIVER

A última vez que escrevi aqui (olhem no post anterior) foi em setembro do ano passado. Não que nesse período não me tenha acontecido nada digno de ser registrado, pelo contrário. Os últimos meses foram agitados e movimentados em minha vida, no mau e (mais no) bom sentido. O intervalo entre setembro e aqui, no que diz respeito a este blog, não foi aplicado em manter as postagens em dia por um único e simples motivo, que é um dos sete capitais: preguiça. Eu poderia justificar-me dizendo que tive dificuldades em me conectar, já que fiquei um bom tempo sem internet em casa, e gastar rios de dinheiro nas lan-houses por aí não era definitivamente uma boa idéia; falta de assunto, de novidades, de altas aventuras, também não foi por isso que não tive a boa vontade de sentar na frente de um computador e digitar meninohomem.blogspot.com. Foi por pura preguiça mesmo. Indolência. Se eu estou perdoado por isso, espero que ainda me seja permitido voltar a escrever nesse espaço. De setembro até aqui, como eu já falei, várias coisas aconteceram. Meu país agora é pela primeira vez governado por uma mulher; o crime organizado no Rio de Janeiro recebeu um duro golpe das forças de segurança do Estado; o povo se alimenta melhor, tem mais empregos, compra mais coisas, bugingangas eletrônicas, carros, sonha mais e mais realiza seus sonhos. Há um clima de euforia genaralizada, uma esperança que pode ser vista no olhar de todos. Mas ainda há tragédias, as naturais e as provocadas pela mão do homem, há a miséria, a mancha da violência, há o caos no trânsito, que atrasa a vida e às vezes a interrompe para sempre. Ainda se pode ver naqueles mesmos olhares a falta absoluta de esperança - é uma contradição, sim - a tristeza em ver o trabalho de uma vida sendo levado literalmente por água ou morro abaixo. Ainda há quem não pode comprar, mesmo o indispensável para apenas sobreviver, ainda há quem não tem o direito de sonhar. Quanto a mim, o mais relevante é que entrei na fase dos "enta", da qual eu provavelmente não vou mais sair, a menos que um dia ter mais de cem anos seja possível pra todo mundo. Estou me surpreendendo cada vez mais em como a minha filha está crescendo, em como ela é sensível, bonita e inteligente e cada vez mais (no bom sentido) esperta. O meu trabalho continua a mesma coisa, as pessoas nunca vão parar de ser multadas no trânsito e sempre será necessário notificá-las dos seus erros e exigir delas a reparação imposta pelo Estado. Falo em trânsito, falo da loucura que é circular por esta cidade, e eu mesmo fui "vítima" dele, o trânsito: a duas semanas, numa tarde de quinta-feira como esta, eis que eu estava na rua, em uma grande avenida da região Norte de Belo Horizonte, quando começou uma chuva torrencial. Do outro lado da rua, havia um abrigo de ônibus: querendo manter-me minimamente seco, a minha reação foi correr desembestado para baixo do abrigo. Só que entre o abrigo e eu havia o movimento dos carros. Não deu outra: um deles me pegou. A minha sorte é que o motorista teve o reflexo de frear bem em cima da minha pessoa. Eu fui atigindo lateralmente pelo automóvel (nem deu pra ver a marca). O saldo disso tudo foi, além do susto, uma escoriação no abdomen e ferimentos na mão esquerda, além de uma noite passada na emergência de um hospital público, onde eu vi todo o sofrimento humano: baleados, esfaqueados, politraumatizados, gente em ataque cardíaco, todo tipo de dor. Coisa que impressiona, choca, mas ensina que a vida é apenas uma e que tem muito valor. Já estou totalmente recuperado. E o carro escapou ileso. Bom isso já é passado.
Sinto falta de algumas coisas do meu passado recente, pessoas que eu gostaria de rever estão distantes, projetos que abandonei no meio do caminho eu queria retomar, se é que eles ainda possam ser retomados. Todo dia eu quero ir de novo aos lugares em que vivi, todo dia eu quero reencontrar e reatar os meu laços, os meus vínculos, os meus afetos. Todo dia eu digo que "daqui pra frente tudo vai ser diferente", mas aquele motivo lá do início deste texto me empurra pra trás e me faz ficar parado onde estou. Quem sabe agora?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

EARLY MORNIN' #2

A cidade se esquece de tudo que acontece à noite
Os que sonham se levantam para trabalhar
O fogo vermelho do batom
torna-se cinza

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Peanuts

Charles M. Schulz (1922-2000)
publicado originalmente em 28/09/1963



Linus: Trabalhar com as mãos é uma boa terapia...você tira da cabeça uma porção de problemas...toda vez que eu fico deprimido, eu construo castelos de areia...tenho estado bastante deprimido ultimamente! (Tradução por Olavo Duarte)

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Primavera

(Cassiano/Sílvio Rochael)

Quando o inverno chegar
Eu quero estar junto a ti
Pode o outono voltar
Eu quero estar junto a ti

Porque (é primavera)
Te amo (é primavera)
Te amo, meu amor

Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)
Trago esta rosa (para te dar)

Meu amor...
Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)
Hoje o céu está tão lindo (vai chuva)

domingo, 26 de setembro de 2010

Amor : Tática e estratégia

Mario Benedetti (1920-2009)
tradução por Maria Teresa Almeida Pina

Minha tática é
olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és

minha tática é
falar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível

minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti

minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados

para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos

minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples

minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

MAIS BENEDETTI

MARIO BENEDETTI (1920)

POEMAS DO ESCRITÓRIO (1953-1956)

Tradução por Júlio Luís Gehlen

SÓ ENQUANTO ISSO

Você volta, dia de sempre,
rompendo o ar justamente onde
o ar tinha crescido feito muros.

Você porém nos ilumina brutalmente
e na simples náusea da sua claridade
sabemos quando nos cairão os olhos,
o coração, a pele das recordações.

Claro, enquanto isso
há frases, há pétalas, há rios,
há a ternura como um vento úmido.
Só enquanto isso.

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

Amor, de tarde

MARIO BENEDETTI (1920)

POEMAS DO ESCRITÓRIO (1953-1956)

Tradução por Júlio Luís Gehlen

AMOR DE TARDE

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são quatro
e termino a planilha e penso 10 minutos
e estico as pernas como todas as tardes
e faço assim com os ombros para relaxar as costas
e estalo os dedos e arranco mentiras.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são cinco
e eu sou uma manivela que calcula juros
ou duas mãos que pulam sobre quarenta teclas
ou um ouvido que escuta como ladra o telefone
ou um tipo que faz números e lhes arranca verdades.

É uma pena você não estar comigo
quando olho o relógio e já são seis.
Você podia chegar de repente
e dizer “e aí?” e ficaríamos
eu com a mancha vermelha dos seus lábios
você com o risco azul do meu carbono.

Da “Antologia Poética”, São Paulo, Record, 1988

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

ENCANTAMENTO

(o primeiro para o zero)

Com os olhos longe
E o coração perdido
o pensamento fora daqui
Me sinto num sonho sem estar sonhando
Mas sem acreditar no que estou vivendo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

A ILHA PERDIDA

Para A.

Onda de um mar distante
Quebra numa terra
Dantes, muito antes, navegada
Torna, feita maré,
à praia,
Corais, embarcações, sereias:
Mensagens esquecidas.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

ESSE É O CARA

Djavan vai lançar o primeiro disco como interprete em 30 anos de carreira. Leia aqui a matéria do UAI sobre o lançamento de "Ária".
Uma das pérolas garimpadas dos clássicos da música brasileira para o álbum é esta "Luz e Mistério", de Beto Guedes e Caetano Veloso, cuja belíssima letra segue abaixo:

Luz e mistério
por Beto Guedes e Caetano Veloso

Oh! Meu grande bem
Pudesse eu ver a estrada
Pudesse eu ter
A rota certa que levasse até
Dentro de ti

Oh! meu grande bem
Só vejo pistas falsas
É sempre assim
Cada picada aberta me tem mais
Fechado em mim

És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério

Doçura de luz
Amargo e sombra escura
Procuro em vão
Banhar-me em ti
E poder decifrar teu coração

És um luar
Ao mesmo tempo luz e mistério
Como encontrar
A chave desse teu riso sério

Oh grande mistério, meu bem, doce luz
Abrir as portas desse império teu
E ser feliz

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Ai que inveja do Arnaldo Antunes...

Se eu soubesse mesmo escrever, eu escreveria assim...simples e lindo...

Se Tudo Pode Acontecer
Arnaldo Antunes

Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando de mão dada de qualquer maneira
Eu quero que esse momento dure a vida inteira
E além da vida ainda de manhã no outro dia
Se for eu e você
Se assim acontecer. . .
Se tudo pode acontecer
Se pode acontecer qualquer coisa
Um deserto florescer
Uma nuvem cheia não chover
Pode alguém aparecer
E acontecer de ser você
Um cometa vir ao chão
Um relâmpago na escuridão
E a gente caminhando de mão dada de qualquer maneira
Eu quero que esse momento dure a vida inteira
E além da vida ainda de manhã no outro dia
Se for eu e você
Se assim acontecer

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Menina de 7 anos paga férias na Disney vendendo limonada nos EUA


Uma menina de 7 anos de idade vai passar férias na Disney World com a mãe, nos Estados Unidos, depois de conseguir quase US$ 2 mil vendendo limonada em uma barraquinha.No último dia 29 de julho, Julie Murphy montou sua barraquinha ajudada pela mãe, Maria, em um festival de artes em Portland. A barraquinha, entretanto, foi interditada por autoridades sanitárias do condado de Multnomah, porque a menina não tinha licença para operar como restaurante.Os fiscais afirmaram que a licença custava US$ 120 (cerca de R$ 210) e advertiram que se ela se recusasse a suspender as vendas, a multa seria de US$ 500 (cerca de R$ 870).O copo de limonada estava sendo vendido por Julie a US$ 0,50 (R$ 0,87).

Segundo informações do jornal local The Oregonian, alguns visitantes do festival sugeriram que ela distribuísse a bebida em troca de doações, mas os fiscais não aceitaram a proposta, e a menina acabou deixando o local às lágrimas.O caso causou comoção entre os americanos, despertando um debate na internet e gerando críticas ao excesso de burocracia.Na quinta-feira passada, a menina, que mora em um subúrbio de Portland, recebeu um pedido de desculpas oficial do condado pelo ocorrido.O diretor do conselho administrativo do condado, Jeff Cogen, declarou à imprensa americana: "Há uma razão para as leis existirem", mas "uma menina de 7 anos de idade vendendo limonada em uma barraquinha não equivale a um adulto vendendo burritos em uma carrocinha".Cogen afirmou ainda que a venda de limonada por crianças em frente de suas casas é uma tradição americana, lembrando que ele vendia limonada quando pequeno e seus filhos o fazem até hoje.Com a notoriedade do caso, Julie foi procurada por estações de rádio e TV locais. Uma dessas estações de TV e uma loja de pneus patrocinaram uma nova barraquinha para a menina vender limonada durante uma tarde.Ao todo, Julie conseguiu US$ 1.838,31 (cerca de R$ 3.220) com a venda da bebida, e decidiu usar o dinheiro para passar férias na Disney com sua mãe, no fim do mês."A gente aprecia muito o que todo mundo fez", disse sua mãe, Maria Fife ao The Oregonian."Ela abriu sua barraquinha de limonada, teve uma boa experiência, e isso é tudo o que ela queria, em primeiro lugar. E ela também conheceu algumas pessoas bastante legais."

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

PAPEL

Se eu rabisco o que sinto
Então o que sinto é um risco?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

AMAZING GRACE

(para A. )

Você é tão bonita
Quanto Louis Armstrong
cantando As Time Goes By.

(ou seria o Jobim em Eu Sei que Vou te Amar?)

quarta-feira, 21 de julho de 2010

LOVE AFFAIR

Não chegamos às vias de fato -
Mas quase nos amamos:
Ao ponto do estranhamento.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

OS OUTROS NOMES DO AMOR

Engraçado a dor que que não é doença
Estranha ânsia que não é de urgência
E a calmaria aflita pelo mar
O que é isso que estou sentindo agora
Algo que eu não queria querer
E que me foi roubado
mas eu nunca tive?

A NOITE DO PRIMEIRO DIA

Não, não sei ainda,
pela manhã conversamos sobre isso
Por hora, agora, não diga nada
Saberemos os dois o que aconteceu
Mas só depois
Por enquanto não fazemos idéia
do que está havendo entre nós
Surpreendidos que estamos
Nem vamos ainda viver para o dia seguinte
O que não vivemos.

(...)

Acontece às vezes,
e quando acontece pára o tempo:
Não dura muito mais que um instante
Mas traz ao momento presente todo o passado
Basta uma palavra para dizê-lo:
Saudade.

DIÁRIO DO MÊS DE AGOSTO

Hoje lembrei-me de ti:
Como sempre faço
Já estou acostumado a pensar assim
É estranho até quando me esqueço de algum detalhe
Eu que sou tão interessado -
Agora à pouco, como sempre,
Senti saudade
Como se esta, antes, não existisse
A mesma estranha impressão do primeiro dia
Quando a saudade, de fato, não existia.

HIPERCENTRO

Sigo distante
Atentamente
a ausência
Um som familiar me alcança:
toda a cidade chama a minha presença
Num ponto impreciso
da Rua Goiás.

(...)

Esses fícus da Avenida Carandaí têm um cheiro estranho:
Com notas de tempo passado
O ar fantasmagórico dos edifícios antigos -
Mortos ilustres nos nomes das placas.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

AS PROVAS

Parte do teu pensamento está no meu corpo
Como a marca de nascimento: não só o sangue
mas os tempos; não apenas as vísceras dos sentimentos
Mas os mínimos instantes
Toda a ausência que existe serve para denunciar algo que já foi presente
Como a cicatriz de um tiro
que ainda dói.

AS IDADES

Vou ao começo quando quero
Ao mesmo tempo em que me repito
Os dias voltam a ser quando eu sinto
Quando vejo o que já vi
Volto ao início sempre que preciso saber o que serei
também quando desejo lembrar o que não sei
E quando quase me esqueço de mim mesmo
Torno ao intante em que me descobri.

A ÚLTIMA CRIAÇÃO DE DEUS

Se eu não te amasse,
algo parecido aconteceria
e mudaria alguma coisa de lugar
para semopre:
Por exemplo, nasceria uma ilha no mar
e do chão cresceria a montanha
Se eu não te amasse
- o que é difícil de imaginar -
Um fato incomum a todos causaria espanto
Como o nascimento de uma improvável estrela
no céu dos cientistas.
Se, por mero descuido do destino,
eu não te conhecesse
Certamente a natureza ganharia novas criaturas
E Deus inventaria alguma coisa no lugar do amor:
Algo tão belo que só Ele conhece.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

(sem título)

Sinto, não sou bom em decifrar mistérios
Mesmo os mais claros
Acho que são ilusões as imagens
Penso que olhares tão reais são sonhos
Só porque eu quero.

PARALELAS

Nunca te toco:
Embora te siga de não muito distante;
Desde bem antes, até o tempo presente
E para sempre.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

ESTAÇÃO CENTRAL*

Eu vi o trem:
levava a montanha para o mar.






*os trens da Ferrovia Centro Atlântica atravessam a área central de Belo Horizonte, transportando minério de ferro em direção ao porto de Vitória, no Espírito Santo.

sábado, 22 de maio de 2010

(sem título)

Meu amor é letra e música:
Sem a voz.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Professora universitária se casa com mendigo nove dias após conhecê-lo


do "R7"

Um dia, a professora universitária Joanne St Clair, de Lancashire (Inglaterra), resolveu fazer uma viagem de supetão, para fugir do estresse. Chegando a Los Angeles (EUA), ela conheceu um mendigo. Nove dias depois, Joanne estava casada com Daniel Orlick. Passados sete anos, Joanne e Daniel continuam juntos - e com um filho (o segundo está a caminho). Os dois se conheceram na entrada de uma pousada em Venice Beach, onde Daniel havia trabalhado. O primeiro contato foi uma discussão sobre o desenho animado "Os Simpsons". Depois, o sem-teto cortejou a inglesa com algumas canções que ele mesmo compusera.
Daí para o casamento foi um pulo. Os dois se casaram em um tribunal de Los Angeles e tatuaram alianças no dedo anelar. A noite de núpcias foi passada na mesma pousada. O casal vive na Inglaterra. Joanne atualmente é empresária do marido. Ela e Daniel administram uma gravadora independente.
"Por causa da forma como nos conhecemos, não há a expressão 'não pode' na nossa casa", disse a inglesa.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Post-it faz 30 anos e ainda é sucesso no mundo


do "R7"

Foto por Jim Watson/AFP
Bloquinho é um dos cinco itens de escritório mais vendidos nos EUA; invenção fracassada, foi usado como lembrete de missa dominical.

Enquanto o videocassetes e os walkmans foram deixados de lado, outro invento dos anos 80, o Post-it, o miniquadrado adesivo colorido que invadiu escritórios e portas de geladeiras, comemora seus 30 anos ainda como um sucesso.Fruto de um invento fracassado, o Post-it foi lançado no mercado em abril de 1980 pelo grupo 3M, e figura todos os anos entre os cinco itens de escritório mais vendidos nos Estados Unidos.
De lá para cá, o pequeno quadrado de papel amarelo de 7 cm por 7 cm ganhou oito tamanhos, 25 formas e 62 cores, e é vendido em 150 países, mas a 3M não divulga dados de vendas. Robert Thompson, professor de cultura popular da Universidade Syracuse de Nova York, contou que o Post-it é uma invenção perfeita.
- Nada consegue substituí-lo, nem um bip em um telefone nem um lembrete eletrônico. Continuaremos usando os Post-it dentro de cem anos.
Thompson acrescentou que o invento reflete as tendências dos anos 80: uma vida cada vez mais complexa e a necessidade de controlar essa complexidade. O professor diz que "o Post-it apareceu na mesma época em que surgiram os computadores pessoais, e é de fato um objeto de alta tecnologia".
Os inventores do lembrete adesivo, Arthur Fry e Sencer Silver, dois engenheiros da 3M, foram imortalizados no mês passado no palácio nacional de inventores (National Inventors Hall of Fame), junto com Jacques-Yves Cousteau e uma quinzena de outros inventores, cujas inovações "contribuíram ao progresso humano, social e econômico".
Naquele dia, Fry, de 78 anos, disse que pedem a ele seis ou sete autógrafos por semana desde o sucesso de seu invento.
- O Post-it tornou a vida mais fácil para as pessoas em uma época de profusão de informação.
Confira também
Para comemorar o aniversário, a empresa convocou estudantes de 11 a 18 anos para um concurso, no qual devem criar obras de arte originais a partir do Post-it.
Como costuma acontecer com as invenções, o pequeno bloco de notas adesivas nasceu de uma experiência fracassada de Spencer Silver. Em 1968, o engenheiro produziu uma cola que não aderia muito bem. Poucos anos depois, seu colega Arthur Fry inventou o conceito crucial de Post-it, frustrado por não ter um lembrete para sua missa dominical.
O adesivo fracassado de Silver, que tem atualmente 22 patentes, foi crucial para as ações de colar e descolar os papeis, sobre qualquer superfície.
E a empresa se adapta à epoca atual. Este ano lançou um Post-it ecológico, feito de papel 100% reciclado e com uma cola criada a partir de uma planta.

Copyright AFP - Todos os direitos de reprodução e representação reservados

quarta-feira, 31 de março de 2010

EXEMPLO DE HONESTIDADE

Isto está em tão em falta hoje em dia...


Mulher de Brasília tenta pagar dívida há 40 anos.

Ela pegou o equivalente a R$ 300 emprestado com uma vizinha, mas perdeu o contato com a mulher. Mulher já recorreu até a órgãos do governo para achar a amiga


quarta-feira, 3 de março de 2010

Eduardo e Mônica

Animação da canção "Eduardo e Mônica" da banda Legião Urbana.
direção de Leonardo Morais
Música: "Eduardo e Mônica" de Renato Russo, Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, para o álbum "Dois" (1986)

sábado, 27 de fevereiro de 2010

MELANCOLIA (BLUES)

Melancolia: nuvem cinza no céu azul
Dia de sol parcialmente nublado
Mel amargo, fel adocicado
Fruto agridoce do amor

(A melancolia é que nem sal:
Muito faz mal
Mas não se vive sem)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O CASO

Isso não termina o que sabemos um do outro
No dia em que nos escondemos, estávamos juntos
Se foi errado o que fizemos
Éramos cúmplices -
Esse é o nosso segredo:
Cale-se comigo.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

domingo, 31 de janeiro de 2010

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

esboço em branco

idéias ainda um pouco recentes:
algo que senti agora à pouco -
preciso disso em palavras que
não sei dizer tão cedo:

Pode ser que num instante eu as deixe de lado.

(sem título, também)

Uma palavra suave
para uma sensação tão heavy
que é o amor
leve como a nuvem
que cai inundação.

A QUE EU VI CHEGAR

Lembro-me de que vieste querendo saber
alguma coisa sobre algo de que já nos
esquecemos
Uma urgência que perdeu a importância com o tempo

Tenho para mim que
aquele contratempo imediato que te trouxe aqui
era a sorte que não tinha outro
pretexto para te levar ali
onde nunca antes tinhas estado
foi a invenção do acaso
que te tirou do caminho costumeiro
para mudá-lo

E o desvio inesperado
apontou o destino.

(sem título)

Depois do instante crucial
o que vem em seguida ainda é urgente

é justamente no final, com as luzes acesas
e acordado do sonho,
que mais se deseja

- quando o que parecia impossível
revela-se real.

domingo, 24 de janeiro de 2010

MIXTAPE

A FLECHA DO CUPIDO



(assista até o final dos créditos)

POST-IT LOVE

terça-feira, 19 de janeiro de 2010





Na Inglaterra, gato que pegava ônibus sozinho morre atropelado


Publicado no Jornal "O Tempo" (19/01/2010)



DA REDAÇÃO

(Leia a matéria no "Daily Mail" - em inglês)

Um felino conhecido na cidade de Plymouth, na Inglaterra, por embarcar sozinho, diariamente no mesmo horário, em um ônibus da linha 3 morreu atropelado por um carro quando tentava mais uma vez entrar no veículo. O fato foi noticiado nesta terça-feira pelo periódico americano Dailymail.

O gato, de nome Casper, tinha doze anos e repetia o ritual de pegar o mesmo ônibus ao longo de 4 anos. Casper era conhecido pela população e não dava transtorno aos demais passageiros durante seus passeios no ônibus, que duravam cerca de 17 quilômetros.

O animal esperava o ônibus todos os dias em um ponto em frente a casa onde vivia com a dona. Casper entrava no veículo, se acomodava em uma das cadeiras e ficava até que o ônibus retornasse ao ponto de partida.

A dona do animal, Susan Finden, 65 anos, lamentou a morte de Casper dizendo que ele era querido pela população e vai fazer muita falta na cidade.



A dona de Casper, Susan Finden e o motorista do ônibus, Rob Stonehouse

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

MENINOS E MENINAS

SORTE NO JOGO...

Aposto no inesperado
E chego
a jogar
todos os ases
O único
truque
que tenho
é me lançar
e me fazer de vencido
descarto o trunfo
no ato:

não sou um jogador nato
como você.

FIM DO COMEÇO

o que acaba e ainda falta
o que termina no meio
o que nem chega a ser começo
e que se vai antes do fim
Nem deveria existir.

A QUEM INTERESSA POSSA

Arrumando coisas guardadas em gavetas e em caixas, recomponho o tempo passado e não perdido. Vejo notícias que faziam sentido no dia em que aconteceram, recados urgentes para aquela hora, memórias válidas para o instante. Mas nas mãos do meu pensamento, os dias, as horas e os instantes é como se acontecessem, urgissem e valessem para o minuto presente, para a hora vindoura, para o dia seguinte. Não esqueço de nada, porque guardo tudo nas gavetas, porque trago comigo em compartimentos do coração as memórias dos dias, os recados urgentes, as notícias do tempo, rigorosa e cronologicamente catalogados, bastando buscar uma palavra-chave para recordá-los e recuperá-los. E, de algum modo, revivê-los como se ainda vivessem. Assim, aquela conversa ao telefone, aquela caminhada pelas ruas da cidade, aquele olhar do dia da terceira despedida ainda estão aqui. Porque estão bem guardados.

domingo, 17 de janeiro de 2010

AMORES POSSÍVEIS

Amores em ser
Amores que deixam a desejar
Desejar e não ter
De querer ficar
e não querer

One Night Stand

Second Date


Shoes Off!

sábado, 28 de novembro de 2009

"RETALHOS" (Blankets)




Ontem eu mandei uma carta para o desenhista americano Craig Thomspon, gentilmente traduzida para o inglês pela minha amiga Aline Rabelo. Nela, eu peço para ele me enviar um desenho autografado por ele de seu "Retalhos" (Blankets) uma caudalosa história em quadrinhos - mais de 500 páginas! O autor esteve em Belo Horizonte em setembro, onde foi a estrela do FIQ - Festival Internacional de Quadrinhos, em sua sexta edição na cidade. Eu conhecera a obra de Thompson ao baixar "Blankets" no E-mule, completamente por acaso, em uma versão para o espanhol. Estava procurando aleatoriamente histórias em quadrinhos e me deparei com esta bela história. Tempos depois, também por acaso, fui ao cinema assistir "De Profundis", de Miguelanxo Prado (também quadrinista) e esperando pela sessão das cinco, entrei na livraria e comecei a folhear uns livros, apenas para passar o tempo. Qual não foi a minha supresa quando, ao olhar para uma estante, dei de cara com o livro. Não pensei duas vezes antes de sacar o cartão do bolso e gastar R$45,00 (caro!) na bela edição da Companhia das Letras, um calhamaço que quase não coube na minha bolsa. Fui andando para casa depois do filme, estava uma bela tarde de domingo, de clima agradável, não estava fazendo o calor que nos açoitara a semana toda. Durante a caminhada, fui lendo e me tornando amigo de Craig e de seu irmão Phil, conhecendo a história dele desde a infância na interiorana Marathon, uma cidadezinha nos cafundós do estado de Wisconsin. Craig nos conta de sua rígida educação numa família cristã, do árduo trabalho no campo, das bricadeiras e do relacionamento com o irmão mais novo - em uma casa "velha e com problemas de ventilação e de aquecimento", os dois tinham que dividir a mesma cama. O que o fazia se distanciar da dura realidade, do abuso sexual do baby-sitter (isso mesmo: o babá dos meninos era um homem), das humilhações na escola, do frio excessivo no inverno e do calor escaldante do verão, da brutalidade do pai, era se refugiar na fantasia, nos sonhos e nos desenhos, talento que Craig desde cedo relevou.
Mais o que mais me encanta na história de "Retalhos" é a narrativa da mais sublime e traumática experiência pela qual todos nós passamos: o primeiro amor. Numa colônia de férias da igreja Batista, Craig conhece Raina, uma garota "rebelde", impulsiva, cheia de personalidade, mas absolutamente encantadora, autêntica e linda, dessas pelas quais não é difícil se apaixonar. Essa experiência irá moldar para sempre a sua vida.



"Retalhos" (2003)
THOMPSON, Craig
Título original: "Blankets"
Edicão em português da Companhia das Letras
Tradução por Érico Assis
23 x 15,8 cm 1ª Edição - 2009
preço médio: R$49,00

(ainda sem título)

Essa cidade imensa
Ficou pequena
Para minha dor
Quando me pus a caminho
Para voltar para o meu deserto
Por ruas onde há mais sofrimento e desespero
Do que o que eu sinto por dentro
E me envergonho de chorar sem motivo
Quando me comparo com o mendigo
Sem pão e sem amor
Enquanto eu sigo para o meu castelo.

Vejo os que não tem destino
Vagando para o ermo
Quem sabe procurando tanto quanto eu
Eu que pensei que já tinha me encontrado.
Vejo o que não tem o que comer
E se veste com trapos
Que mal podem esconder a fome e o frio
Enquanto eu choro a minha arrogância de não ter
Um tesouro
Envergonho-me de protestar por causa disso
Enquanto há tantos que já nem podem falar
E pedir abrigo.

SEGUNDO SOBRE O CACTO

Ao contrário do que se pensa
os espinhos é que têm flores.

A OUTRA LEITURA DE NARCISO

Eu me apaixonei pela minha imagem vista por ti
desde a primeira vez em que me vi e não era eu mesmo
quase não me reconheci ao olhar-me no espelho:
eu era o olhar de um outro ser.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

QUANDO VOCÊ VOLTAR

Volte para mim
Mas não para hoje:
Volte para o começo
Antes de nos vermos

Volte o tempo
Os passos para trás
Para repetir do mesmo jeito
o que nós dois fizemos

Volte a dizer seu nome
porque eu não me lembro direito

volte para não dizer o que não deveria ser dito
para antes do erro
para o primeiro momento

Volte a não ser
a não ficar
para eu desejar
de novo conhecer
a estranha
que acaba de chegar.

PRIMEIRO SOBRE O CACTO

Encontrando no agreste um cacto
terei água para a sede.
Arrancarei os espinhos
Delicadamente.

O CORREDOR

Caminho contra o concreto
Mas é amargo o gosto do chão
Não corro porque o ar me empurra
De volta ao começo
Esbarro em desencontro
Perco o rumo quando cruzo o erro
Às voltas em torno de mim mesmo

(IMEDI)ATO

Sem querer você sabe
mesmo sem saber
O que há sobre mim
mesmo sem me ver a tanto tempo
tudo é imediato:
assim que sinto
vai um vento
e te diz.

ARMISTÍCIO

Eu me faço de difícil
Apenas para dizer que eu estou disponível
O tempo todo para você
Se eu proponho me render
É que estou disposto a conquistar você
E me comprometer de vez em teus desígnios
O meu pretexto é uma armadilha
Para que você
Que pensa ter o domínio da situação
Caia em contradição
Se eu proponho um jogo
É para perder
E poder negociar uma rendição:
Eu só aceito me entregar com uma condição
Que você me leve contigo.

O MAR EM VÃO

Envelheceram as horas de espera:
Deu-se o cansaço da esperança, por fim
Os que ficaram olhando o mar
Tentando ver o navio
Que os iria levar
Voltaram para o abismo
Já não era sem tempo desistir
A falta promessa de um messias
Dom Sebastião que viria nos buscar
Era apenas uma fantasia.

DIAMANTINA

Boa parte do pouco que consegui
graças a tudo o que pus a perder
é muito menos que te entrego
Esse tesouro que te ofereço como dote
É produto do tempo que passei colhendo, embaixo do fundo do poço,
Onde há um veio de diamantes à flor do chão
Diamantes que, para os ignorantes, são apenas pedras.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

(sem título)

Tenho o coração na boca:
Por isso a dor -
E o silêncio.

domingo, 30 de agosto de 2009

AMOR NÃO CORRESPONDIDO

Do blog da portuguesa Ana Oliveira



sexta-feira, 28 de agosto de 2009

UM HOMEM LIVRE

Acostumei a ver esse muro na minha frente. Nem percebia mais que havia um portão e já tinha esquecido que um dia ele seria aberto pra mim. Do meu crime eu não vou falar nessa história, só digo que foi coisa de dez anos que fiquei preso. Eu não sabia escrever antes de entrar nessa prisão. Quem me ensinou foi o Professor, que até ano passado cumpria pena por homicídio, matou a mulher e o amante dela a tiros. Na rebelião, foi a vez de ele levar um tiro, esse de um polícia. Lembro que sempre o filho mais novo dele (o único que ainda vinha visitar o pai) trazia um livro. Ele lia pros colegas de cela. Era engraçado ver aqueles homens rudes, uns condenados por tráfico, uns por assalto à mão armada, uns por homicídio,ficarem encantados com aquelas histórias maravilhosas que o Professor contava. A minha preferida era a do Zadig, de um tal de Voltaire, contando sobre um princípe persa que viveu altas aventuras; tinha outra muito legal que era a daqueles hobbits (acho que é assim que escreve), uma história de um anel mágico que fazia muito poderoso quem o possuísse; aqueles caras, que nunca haviam tido na vida um momento de fantasia, vibravam com as histórias que o Professor trazia, tinha até torcida pelos personagens. Uma vez, o Rubão, que pegou uns anos por causa de um carregamento de maconha, teve que disfarçar as lágrimas, quando soube que Romeu e Julieta tinham morrido; "Eu matava esse padre burro, desgraçado, que idéia mais sem noção" disse ele, quando o Professor contou que a idéia de dar um remédio pra Julieta parecer como morta foi do Frei Lourenço; não adiantava dizer que era uma estratégia bolada pelo padre pra que Romeu pudesse resgatar a amada e fugir com ela: Rubão batia as mãos na mesinha, irado, xingando de tudo que era palavrão o nome do santo homem; era bacana ver aqueles caras rindo que nem crianças (acho que eles se tornavam as crianças que nunca haviam sido) quando o Professor narrava as peripécias de Dom Quixote e do fiel escudeiro Sancho Pança. O Chico do Canivete e o Malaquias até fizeram um teatro com a história; no dia da apresentação, veio o Diretor da Penitenciária pra assistir; deu até na televisão, que um grupo de presidiários estava montando uma peça baseada em Dom Quixote de La Mancha; a biblioteca do Professor serviu de cenário e a Dulcinéia era o Manuel, vestido de mulher (todos sabiam que ele era gay e que tinha umas histórias esquisitas com o Rubão). Ano passado o presídio foi de novo reportagem na televisão, mas dessa vez não era ficção. A rebelião que matou o nosso querido Professor (morreu tentando defender a biblioteca) também levou o Rubão, o Malaquias, o Manuel, o Chico do Canivete, os dois primeiros de tiro e os outros, juntos com mais cinqüenta, no incêndio do pavilhão três, o nosso. Eu escapei todo chamuscado, tive que sair pra ir pro hospital de queimados, voltei pra cela dois meses depois.Como só faltava seis meses pra acabar minha pena, fiquei quietinho lá dentro, me comportei; cuidei da biblioteca do Professor e ainda recebia a visita do filho dele, que continuava trazendo livros; essa semana, minha última na cadeia, ele trouxe o livro daquele cara que atravessou a remo o Oceano Atlântico, o tal de Klink; diz ele na dedicatória que é pra eu "ganhar o mundo, enfrentando as ondas do mar bravio"; o rapaz como que me adotou como pai, depois da morte do Professor. Hoje estou saindo, e o rapaz disse que eu podia passar uns dias na casa dele, que a esposa não se importaria, que sabia que o sogro gostava muito de mim, que era eu o melhor amigo dele.
Estou indo embora daqui: ficar preso claro que não é bom, e ser ex-presidiário deve ser pior ainda, os outros vão te olhar com aquela cara de espanto, ninguém vai te dar emprego, você só vai arrumar mulher se for na zona. Mas eu guardo boa lembrança desse lugar: vou lembrar sempre do Professor contando a história das Mil e uma Noites prum bando de caras sentados no chão do pátio do banho de sol, eles com os olhos brilhantes e sonhando com as suas princesas, com suas Sherazades que haviam ficado lá fora, do outro lado do muro da cadeia; vou lembrar sempre do dia que eu consegui pela primeira vez escrever alguma coisa, e que o Professor bateu palmas e riu alto; o guarda achou que ele tava ficando doido. "Nada não, seu guarda, é que esse menino finalmente está deixando de ser burro", disse ele. O guarda deu de ombros, olhou pra mim com uma expressão neutra e continuou a ronda pelas celas. Eu a partir daí me entusiasmei e até me inscrevi naquele programa que alguém escreve para um prisioneiro e ele responde. Foi assim que eu conheci a Rosalva; ela me escrevia todo mês, dizia que se apaixonara por mim,e que também lera os "Cem Sonetos de Amor", do Pablo Neruda; ela disse que adorou os poemas (horríveis) que eu escrevi pra ela, e respondeu com uma cartinha perfumada. Os caras da minha cela cairam de gozação em cima de mim, me chamavam de Don Juan (a história do sedutor era contada pelo professor). Perdi a conta das vezes que sonhei com ela, tinha um retrato 3x4 colado no espelhinho ao lado do meu catre; Rosalva era morena, e só de imaginar seu corpo, que eu não via, me dava alguma coisa que eu não sentia desde que eu ainda estava na rua e tinha as minhas mulheres. Da última vez que eu escrevi pra ela, eu contei que já estava pra sair, mas até hoje ela não respondeu, não sei porque. Só sei que todo dia eu enchia o saco do guarda do pavilhão três, que era e ainda é meu amigo; Getúlio, esse o nome do guarda, era o que distribuía as cartas pros presos.
Aliás, é ele que tá me chamando agora. Ele está com uma chave na mão, uma expressão zombeteira na cara, como se dissesse "Aí, seu trouxa, vai pra rua, encarar a realidade". Mas ele me dá um aperto de mão, um tapinha nas costas e me diz: "Acho que cê vai querer voltar pra cadeia quando ver como é que tá lá fora. Vai com Deus, cara".
O portão pesado se abre. Um passo e eu deixo dez anos na minha vida. Dez anos encarcerado, vendo "o sol nascer quadrado" como se diz na linguagem de malandragem. Um vira-lata fuça um monte de lixo na calçada; os carros passam deixando a fuligem do escapamento; as prostitutas se espalham, os botecos estão cheios de desocupados; uma viatura passeia por ali, dois ou três mal-encarados dentro, fazendo ronda; eu indeciso com meus primeiros passos livres em dez anos, não sei pra onde ir, não lembro mais o ônibus que vai pro meu bairro, parece que os números mudaram. Entro num bar, peço uma bebida (Getúlio, escondido, me deu uma nota de cinquenta),bebo e sinto como se nunca tivesse saboreado um belo copo de cerveja na vida. Estou livre, e não sei o que fazer. Acho que vou passear no parque, ver as mulheres, sentar num banco de praça e ficar ali só olhando, pensando na vida. Quando começa a anoitecer, vou pros lados da zona, mas o que sobrou da nota de cinquenta não paga um programa nem com a prostituta mais barata do lugar. Resolvo então procurar o caminho da casa de minha mãe, se é que ela vai querer me ver; durante esses dez anos, dá pra contar nos dedos quantas vezes ela foi me visitar - acho que ela tinha mais era vergonha de ter um filho na cadeia. No fundo, no fundo, como toda mãe, ela me amava. Pergunto daqui e dali, e descubro o número do ônibus; a rua de casa não mudou muito: ainda tem o sacolão, o boteco, e agora tem uma tal de "lan-house" onde era a Pentescostal; minha mãe sempre tentava me levar pro culto, mas quando eu ia era pra ficar zoando os hinos, botando palavrão nas letras dos cânticos de Louvor. No dia que eu fiz aquilo (não vou contar o que é), minha mãe estava no culto e foram buscar ela pra me ver na delegacia. Imagino a vergonha que ela deve ter passado, coitada, entrando no carro da polícia, no meio do povo, e o pastor dizendo pra ela que em nome de Jesus o filho seria inocentado.
Toco a campainha. Uma senhora de óculos, encurvada pela idade, andando com dificuldade, vem atender, olhando desconfiada para este homem estranho à porta; quando ela percebe que sou eu, ela me olha, enchendo os olhos de água e diz só isso: "meu filho, entra.
Tá frio aí fora".

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O SOFÁ (VERSÃO DE TEREZA, MULHER DE JÚLIO)

Tem razão: esse sofá é meio cafona mesmo. Hoje mais cedo, reparando bem nele, notei que está puído e encardido, de tanto o Chiquinho deixar cair chocolate nele. Lavar não adianta mais. O moço que eu chamei várias vezes já disse: "Dona, não tem mais jeito, não. O jeito é comprar um novo". Mas eu olho pra esse sofá e me lembro do dia que a gente foi morar junto. Lembro de você e o Pedro carregando ele escada acima no nosso primeiro apartamento; lembro que você dormiu nele aquele dia que a gente brigou a primeira vez, mas tarde da noite eu senti a sua falta na cama e vim pra sala. Eu me deitei do seu lado, você me abraçou, balbuciou alguma coisa incompreensível e voltou a dormir. Lembro de você brincando de aviãozinho com o nosso filho, você deitava no sofá e levantava o menino lá no alto, imitando o barulho do motor; a gargalhada dele dava gosto de ouvir. A gente era feliz, ou eu pensava que a gente era, Júlio. Feliz até você esquecer um papel no bolso da calça, tinha "Clara" e um número de celular escrito nele. Você tentou explicar, se complicou, e no fim teve que dizer que estava com ela já um tempo, aí que eu entendi aqueles estranhos "serões" no escritório. Me sinto meio culpada por isso, de uns tempos pra cá eu ando meio "caída", meio descuidada, já não tenho mais aquele "fogo" que eu tinha quando a gente se conheceu. Se não fosse por mim, Júlio, você não tinha tomado coragem aquele dia da calourada, até hoje estaria me olhando com aquele olhar de cachorrinho abandonado, que era até bonitinho, sabe? Além disso, essas brigas da gente já estão no limite, você tem toda razão de ficar chateado comigo, eu arranjo qualquer pretexto pra te tirar do sério, eu tenho feito de tudo pra te atazanar. Agora que você resolveu de vez pular fora, eu não tiro a sua razão. Nenhum homem gosta de mulher que fica de marcação cerrada em cima, com ciúme até dos amigos; "você está me sufocando", você diz sempre; "você não acredita quando eu falo a verdade", dói admitir, mas você tem razão. Agora que eu sei que você não está mentindo, que essa tal de Clara existe mesmo, que não é só miragem da minha imaginação ciumenta, eu estou morta de medo, nunca senti isso antes, nunca pensei que pudesse te perder, ainda mais depois de tantos anos de casados. Chorei o dia todo hoje, nem banho eu tomei, tentei dormir à tarde, e já liguei pra faculdade avisando que não vou dar aula à noite. O Chiquinho está na casa daquele amigo dele, só chega mais tarde, eles dois estão fazendo um trabalho de história, eu acho; papai vai levar ele pro sítio amanhã e só volta depois do feriado, terça-feira; pode deixar, eu converso com ele, explico direitinho, apesar de que eu é que não estou entendendo nada. Não estou precisando de dinheiro, não. Também não estou preocupada com as contas, obrigado por se lembrar delas por mim. Minha cabeça não tem espaço pra essas coisas. Tudo o que me aflige, o que me desorienta, o que me faz avançar o sinal, é essa história de eu te perder, de você ir embora, de me trocar, sua mulher a vinte anos, por uma garotinha que você pôs pra trabalhar no seu escritório, uma "vigaristazinha qualquer" que vai tomar o meu lugar na sua cama, que vai comprar outro sofá com você. Até aquela viagem que você tinha planejado pra gente, você vai com ela; aquele anel que eu te mostrei, lembra? Pois é, o que eu fiquei sabendo é que você vai comprar um mais bonito ainda pra sua amante...ai, que palavra horrível, Júlio! Parece que a sua mulher virou uma coisa sem valor, um traste inútil, que quando já não presta mais pra nada você vai lá e compra uma novinha, sem defeito, que não está gasta pelo tempo. Não quero conhecer ela, não...vê-la só vai piorar a minha situação, Júlio; eu vou me comparar a ela, vou ver por quem e porque você está me trocando. Com certeza ela é bem mais nova que eu, e está atrás de um homem bem de vida que nem você. Quando é que você a conheceu, mesmo? Foi naquele dia que você fez as entrevistas com os novos estagiários ou naquela festa na casa do professor Alfredo? Agora não importa mais, Júlio. Não precisa mais explicar nada, eu vou tentar entender, vou tentar continuar viva depois dessa. Não, que drama que nada! Eu nunca passei por isso, eu nunca te perdi, não sei como reagir, não tenho força pra isso. Já está ficando tarde, está frio lá fora; você quer aquela blusa azul da faculdade emprestada? Depois você manda o motoboy da firma me devolver lá no meu trabalho. Você não mudou nada, Júlio: continua falando que não sente frio, depois quando fica gripado, eu é que tenho que dar uma de enfermeira...ah, é...nem isso eu posso ser mais. Pede pra essa Clara cuidar bem de você, ser carinhosa que nem eu sou... Diz que você gosta de doce de abóbora com coco...eu sei fazer, aposto que ela não sabe nem fritar um ovo...vocês vão ter empregada? Hoje a Dona Iolanda não veio, o marido dela está doente, falei que ela pode ficar com ele no feriado. Não, ele está internado ainda. Ela vai te agradecer...mês passado ela até me perguntou sobre isso, se você não podia adiantar mesmo o pagamento dela, ela mostrou a receita, absurdo mesmo o preço dos remédios, ela morre de vergonha de te pedir alguma coisa... "Sei lá, o Seu Júlio pode querer me mandar embora", Quê isso, Dona Iolanda! A senhora está com a gente a tanto tempo! A senhora é que nem a avó do Chiquinho! Falando em empregada, vou fazer um cafezinho pra gente, quer? (Fica mais um pouco). A chave do Corsa? Tá ali, ó. Na mesinha, do lado do nosso retrato. Vou lá ver o café.
"Tereza, sua imbecil! Você vai deixar ele ir fácil desse jeito? O que essazinha tem que eu não tenho? Tá certo que ela é mais novinha, mas eu sei do que esse cara gosta, eu entendo ele, eu tolero os piores defeitos dele...até aquela mania de colecionar carrinhos, o que muita mulher deve achar infantil...aqueles fios brancos no cabelo deixam ele tão charmoso, aquelas rugas que já começaram a aparecer no canto dos olhos, meu Júlio é um homem tão bonito quanto no dia em que veio a primeira vez, tão novinho , tão bobinho, me perguntar qual era a diferença entre "injúria" e "difamação". Pra dizer a verdade, eu é que quis ele, eu é que tomei a iniciativa, e o coitado, tão inexperiente, tão tímido, tadinho; com certeza, a cantada fajuta na calourada foi o Pedro que ensinou pra ele...mas deu tão certo que até hoje, ou melhor, até agora, o resultado estava ao meu lado! Não vou deixar ele me ver chorando, e vou tentar disfarçar que estou tremendo que nem vara verde...vou lá pra sala, vou ser forte ao menos por enquanto. Só quando eu ouvir o barulho da chave trancando a porta do lado de fora, o elevador descendo, o motor do carro ligado e o portão fechando é que vou me desfazer em lágrimas, cair no chão que nem uma criança e vou acordar amanhã deitada no sofá, com uma olheira desse tamanho, uma dor dilacerante no peito e um vazio imenso no coração...
Vou lá pra sala... quer ver como você é forte, Dona Tereza?

Hã? Como? Como assim não vai mais? Como assim desistiu? Verdade, Júlio? Você ainda me ama? E a Clara? Sério? Vai falar com ela? Tem certeza? Meu Deus, meu Deus!Meu marido me ama!Desculpa Júlio, desculpa, meu amor, tudo que eu falei era mentira, você não é nada daquilo que eu falei! Tive tanto medo, meu amor! Não ia conseguir viver sem você!Me perdoa, pelo amor de Deus, eu te amo. Não vou brigar mais com você, nunca mais. Ai, estou tão cansada, estou exausta, Júlio. Chorei o dia todo, sabia? Nem tomei banho, você quer a sua mulher assim mesmo, cheirando mal, nem lavei o cabelo, vai ver que nem escovei os dentes...Ai, Júlio, você não mudou nada, mesmo...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O SOFÁ



Vou deixar aqui aquele sofá horrível que você quis comprar, achava que combinava com a cor das paredes. Eu não gostei, mas pra te agradar - eu sempre fazia isso - pus no meu crediário. Naquela época, o salário de um funcionário público metido a estudante de direito só dava pra isso mesmo: pra pagar a faculdade e os carnês. Nós nos amávamos tanto que nem isso era problema. Mas a gente foi morar junto, veio o Francisco, você teve que trancar e seu pai cortou sua mesada. Foi difícil convencê-lo a vir visitar o neto, mas você sabe como são os avós: o velho se encantou no ato pelo garoto. Por isso, acho que ele não vai pensar duas vezes em levá-lo pro sítio esse fim de semana e no feriado, assim o menino não vai sofrer tanto quando o pai dele for embora de casa. Depois você explica pra ele porque que papai teve que se mudar. Você sabe que a gente sempre escondeu do menino as nossas brigas, evitava falar alto perto dele. Mas eu acho que o Chico percebia quando algo não estava bem. Lembra quando a professora dele ligou pra dizer que o garoto estava chorando no banheiro da escola? Pois é: ele sabe de tudo, mas é tão inteligente que lida com isso sozinho, finge que não está nem aí, que fica na dele. O Chico é tímido que nem o pai, com quatorze anos ainda não está paquerando as meninas do colégio. Eu tinha vinte e cinco quando te conheci, no terceiro período, quando você estava dando monitoria de Direito Penal. Ficamos uns dois semestres naquele chove-não-molha, até o Pedro (sempre o Pedro) te chamar para aquela fatídica calourada. "Ah, vem você também, Júlio", disse ele. Fui a contragosto, detestava festas, ainda mais calouradas, aqueles cabeludos bêbados e drogados esgoelando aqueles rocks horríveis, mas eu estava "decidido" a de umas vez por todas abrir o jogo, pra te ganhar ou perder sem engano, que nem na música da Marina. Pois é, nove meses depois, a barriguda mais linda do mundo deu à luz um garotinho loirinho e bochechudo que batizei com o nome do meu avô materno. Vivemos no aperto uns dois anos, até eu me formar. Graças ao professor Alfredo, aliás o Desembargador Alfredo Ramos Nunes, rapidamente eu consegui arranjar um bom emprego e nome na carreira. O apartamento mudou, mudou de bairro, mudou o salário, mas o sofá dos tempos de faculdade ficou, lembra os tempos felizes, você sempre diz. Mas pra onde eu vou agora ele não vai. Porque você não vai junto. Clara até que perguntou se você não gostaria de conhecê-la, poderiam até ser amigas, não estamos virando inimigos só porque estamos nos separando, ela diz. Mas você não quer, eu aceito. Depositei o primeiro cheque da pensão do Chiquinho na sua conta, paguei a mensalidade do colégio, e se ele precisar do dinheiro pro intercâmbio diz pra ele que mês que vem eu vou abrir uma caderneta no banco. Não se preocupe com o carro; as multas e o IPVA já foram pagos, eu assumi aqueles pontos do dia que você passou o sinal, lembra? Então, acho que é isso. Tá aqui o endereço e o telefone do escritório novo, pode ser que Clara atenda, seja simpática com ela, tá? Um café? sim, eu aceito. Não, não tá fazendo frio. Pode deixar, eu tenho uma blusa no carro. Não se incomode comigo, não. A Dona Iolanda não veio hoje? E o marido dela, já saiu do hospital? Vou ver se adianto o salário dela, coitada...esses remédios, tão caros...Tudo bem, eu espero. Você viu as chaves do Corsa? Ah, sim, no lugar de sempre, ali, perto do "nosso" retrato. Você vai deixar ele ali? Vai na cozinha, parece que a água do café tá fervendo.
Enquanto espera, Júlio, para procurar as chaves do carro, olha a mesinha no canto da sala. O homem do "nosso" retrato beija e abraça uma moça linda, com uma beca de formanda. O ano é 19...o homem do retrato é ele, a moça linda é esta que está disfarçando mal as lágrimas, e o tremor das mãos na xícara de café fumegante. Ela aparece na sala, e ele a olha. Tão linda quanto nos tempos da faculdade, tão atraente quanto quando os caras da outra turma passavam olhando para trás e fazendo "comentários", o que deixava Júlio furioso de ciúmes. "Não envelheceu tanto quanto eu", Júlio pensa, "não sentiu os efeitos do tempo". "Esses cabelos loiros, que nem os do nosso filho, os olhos de um azul indescritível, iguais aos do nosso filho; mesmo com essas olheiras profundas(deve ter chorado hoje o dia todo), mesmo não tendo se penteado, mesmo com essa camiseta surrada e essas calças de moleton, a minha mulher é linda, a minha mulher é desejável ainda, já me vi muitas vezes tendo ciúmes até dos alunos dela!" "Onde é que você está com a cabeça, seu idiota? A Clara não é tão linda assim, não me ama desse jeito, não sabe quase nada de mim, não passou os apertos que nós passamos juntos; ela nem reclama quando eu ronco, quando eu e deixo a toalha molhada em cima da cama, quando eu falo que vou ficar até mais tarde no escritório; será que está certo eu deixar a minha mulher de vinte anos por causa de uma aventura que nem sei se vai dar certo, será que vale a pena apostar tudo, largar tudo por uma estranha qualquer?" "Não! Ainda dá tempo... posso ligar pra Clara, explicar tudo pra ela. Vou dizer a ela que não vou mais largar a minha esposa, que não vou mais pro Caribe, que aquele anel de diamantes vai ficar lá mesmo no Shopping. Vou falar pra ela continuar trabalhando lá na firma, se quiser. Se não, eu arranjo outro emprego pra ela com meus amigos lá do Tribunal. Se ela vai entender, é outra história. Amanhã mesmo, vou ligar pro meu sogro e falo pra ele trazer o Chiquinho pra casa antes do feriado. Digo pro Chiquinho que vou comprar aquele PlayStation que ele tanto quer, que ele volta". "Agora, será que se eu estender a mão, olhar pra minha mulher como costumava olhar quando eu ainda não namorava com ela, aquele olhar de cão vadio, será que se eu pedir perdão, dizer pra ela que eu ainda a amo, que essa tal de Clara é uma aventura inconseqüente, coisa de 'idade do lobo', ela vai me abraçar chorando, e em meio às lágrimas, vai me pedir perdão, e dizer que ainda me ama, que aqueles adjetivos impublicáveis eram só coisa de mulher ofendida, terrificada pela ameaça de perder o único homem que amara para uma "vigaristazinha qualquer"'? "Vem cá, minha amada, minha amiga, me perdoa, eu desisti de ir embora, eu não vou mais brigar com você, nunca mais, eu te amo, você me ama também, né? Então, deixa isso prá lá, vamos esquecer tudo, eu ligo depois pra Clara e explico tudo. Não chora, não... Olha aqui, vamos viajar, eu tiro umas férias, estou mesmo precisando, deixo o escritório com o Rogério, ele cuida daquilo lá pra nós. Não, não vamos levar o Francisco, não. Só eu e você, que tal? Senta aqui. Puxa, como esse sofá durou, hem? Me dá um beijo.
Apague a luz. Me abraça. Eu te amo".

(dois anos depois)

Cena: Um homem de quarenta e poucos anos, de óculos, um pouco calvo, está sentado num sofá, lendo o jornal. Ao seu lado, uma mulher loira de olhos azuis, com seus mais ou menos quarenta também, lê "Crime e Castigo" de Dostoiévski, enquanto embala um bebezinho no colo. Um rapaz de mãos dadas com uma garota morena entra e diz:

- Pai, mãe, essa é a minha namorada, a Clara.