domingo, 1 de março de 2009

UM DRUMMOND

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

(1902-1987)

AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

O SONHO DO CARACOL

El Sueño del Caracol [Schneckentraum] (Espanha, Alemanha,2001, 15 min. Direção por Iván Sáinz-Pardo,com Julia Brendler, Fabian Busch)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A METADE PARTIDA

eu suporto não ser
em silêncio

mero ermo

mudo amor que tenho em mim
segue, pórem
teus passos

enfermo do bem que guardo
em segredo

Não me importo pela dor que sinto:

por ter sentido por ti.

METRÓPOLE

Desapareço na cidade
Para não te encontrar
Vou a lugares onde te vi
para ver se você
Não está

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

PAT GETS A CAT

domingo, 22 de fevereiro de 2009

SIGNS

[SIGNS, EUA, 2009,12 min; direção por Patrick Hughes; com Nick Russel & Kestie Morassi]

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A ONDA E A PEDRA

Lenta erosão contra a montanha:
É assim que desapareces;
Uma palavra a menos cada dia
Um instante a mais de ausência
É como o final de uma música
Ainda acordes distantes -
Um longo solo em surdina.

CULPADA DE TUDO

Que ela me confessa
Sem perceber
Quando o olhar se acanha
Não há dúvida
Se ela se envergonha
De se perceber observada
Ela se entrega
Ela me conta os segredos dela
Quando desvia o olhar para a janela
Quando se enrubesce por me ver
Ela se deixa entrever
E em vão ainda tenta esconder o que sente
Mas, cá entre nós
Ela sabe que não mente muito bem.

SÓ UMA MULHER

Trama seus truques banais
Coisa de vilã de novela
Risível maldade de mulher

Deixa-me desconcertado durante o dia
Quando vem no pensamento
Aquela idéia
Dissimule bem o sentimento que tens
Não deixe que eu espreite
Na fresta do vestido azul
Um coração que acelera
contra a vontade.

Olhe-me desse jeito que me desmonta
E brinca de montar com as peças
Um jogo de bagunça
Mas faça de conta que é
Só brincadeira.

VERSO BRANCO

Quando de vez em quando
Uma idéia ganha asas
Eu faço um laço com as palavras
Para prendê-la
Pássaro raro precisa ser preso
Para mostrar seu canto.

(sem título)

Quando acontece um poema comigo
Eu fico inquieto e esquisito
Fico alheio de tudo
Quando me vem à cabeça um verso.

Quando acontece de vir à mente
Algo que rima ou não
Mas que eu acho bonito
Procuro um pedaço de papel mais à mão
Senão esqueço:

Já levei um poema inteiro
Escrito na palma da mão
Por falta de espaço.

MAPA AFETIVO

Desenho o Contorno da tua face de cujo olhar desce uma lágrima
Como se fosse suave chuva sobre a rua da minha casa na manhã do último dia
Estendo os braços ao vazio do Horizonte
Em algum lugar da cidade que existe no pensamento chamo teu nome
Olhas para trás: só o vento te fala de mim agora.
Espalhei cartazes contando histórias tristes e dias distantes
Quis seguir pela contramão do tempo
Parar a cidade inteira pra te ver
Quis te prender
Te fazer esperar
Cercar todas as saídas
Pra não te ver fugir
E ir para longe te procurar dentro de mim.

CAÓTICA CANÇÃO

Minha confusa paixão por você
Te dá tudo o que tem de bom e de ruim
E quer você do jeito que vier

Minha canção é uma mistura de todas as palavras que te falo, as coisas absurdas que te digo e que me calo
É meu verso sem sentido querendo uma razão pra te querer

Minha emoção é que nem fogo de artifício:
Faz uma explosão que enche a noite de barulho e brilho
E se apaga depois
sem nenhum vestígio.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

MONDO LIVRO

Afonso Borges é um velho conhecido da cena cultural de Belo Horizonte. Ele organiza a mais de 20 anos o "Sempre Um Papo", projeto que já trouxe a cidade mais de duas mil personalidades do mundo editorial. O "Sempre um Papo" também acontece em Brasília, Rio de Janeiro, Curitiba, interior de Minas e Paraná. O público estimado em toda a existência do projeto ultrapassa mais de 800 mil pessoas. Borges, que é também poeta e jornalista, mantém na Rádio Guarani (96,5MHz) o "Mondo Livro - o blog sonoro da literatura" um programete super divertido sobre as novidades do mundo literário e da língua, que vai ao ar de segunda a sexta, às 9h10 e 18h30, com o patrocínio de uma construtora local. Bem humorado, instigante e inteligente. São esses os adjetivos que podem ser aplicados ao programa de Afonso Borges. Se você tiver uma oportunidade, ouça. Garanto que você vai gostar. Os áudios e os textos do Mondo Livro também estão disponíveis no blog.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

QUARTO DE DESPEJO

O subterrâneo do céu
Sob o chão dos teus pés
É minha atual habitação
No refugo do teu coração
Eu vivo
No porão do amor
Todos os guardados jazem esquecidos
E aquele mesmo retrato teu no meu sorriso
É desde então, um tempo já perdido,
Um rei que vive num asilo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

30 de janeiro, Dia da Saudade



Jean-Pierre Gibrat, "Le Sursis"

Em vez de eu dizer o que eu penso, passo a palavra ao nosso amigo Pablo Neruda. Ele fala melhor do que eu.

PABLO NERUDA(RICARDO NEFTÁLI REYES, 1904-1973)
de "Crepusculário" (1923)
tradução por Aline Rabelo


SAUDADE - Que será... eu não sei... busquei
em certos dicionários poeirentos e antigos
e em outros livros que não me deram o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que as montanhas são azuis como ela,
que nela empalidecem amores distantes,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
a nomeia em um tremor de tranças e mãos.

E hoje, em Eça de Queiroz, sem olhar eu a adivinho,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma borboleta de corpo estranho e fino
sempre distante - tão distante! - de minhas tranquilas redes.

Saudade... Ouça, vizinho, sabes o significado
desta palavra branca, que como um peixe se evade?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A RUA


Meu assunto o dia todo são as ruas. É nela em que ocorrem as infrações de trânsito, tema cotidiano do meu trabalho. Ruas. Avenidas. Praças. Da minha cidade, eu as conheço quase todas, de tanto ter que me referir a elas na minha atividade diária. Digitadores me perguntam o tempo todo onde fica tal rua, se tal rua cruza com tal avenida, se o número tal fica num bairro ou no outro. Conheço-as intimamente, as ruas. Por algumas eu tenho uma relação de afeto, gosto de ir até elas, nelas passear. Desses lugares, que o Dicionário Houaiss define como uma palavra derivada do latim "ruga", "sulco" e que significa "via pública urbana ladeada de casas, prédios, de muros ou jardins", eu guardo muitas das minhas memórias afetivas da cidade, do que vivi em todas elas. Dia desses escrevi um texto chamado "As Esquinas" do qual reproduzo aqui um trecho: "A canção dos Beatles, “In My Life”, nos diz “(...) há lugares dos quais vou me lembrar por toda a minha vida”. (There are places I'll remember all my life). E é assim exatamente o que acontece comigo. Tem certos lugares em Belo Horizonte que fazem parte da minha história. Se eu voltar a eles pelos meus pés ou através do pensamento, todas as memórias daqueles tempos viverão novamente. Basta alguém mencionar o nome de uma rua, basta-me passar por uma esquina para que as lembranças me levem de novo aos momentos que ali vivi. Tenho a memória dos meus passos, sei de cor os caminhos que segui e por que razão estive lá"
(...)
Agora me lembro de uma canção de Djavan, chamada, não por acaso, "As Esquinas", que diz "só eu sei as esquinas que atravessei". Caminho por toda a cidade, algumas vezes sem saber porque ando tão longe de casa, sem o que procurar e sem urgências para resolver. Simplesmente saio de casa, e sigo por um caminho indeterminado, que vai sair em algum lugar onde eu jamais havia estado antes. Gosto de caminhar vendo o movimento incessante, caótico e contraditório, de sentir a pulsação da cidade. O burburinho e o barulho me atraem e me prendem como música, as cores das vitrines reluzem nos meus olhos, as revistas, as placas, os vestidos das moças, os edifícios que espetam o céu e furam o ar pesado, as filas das pessoas nos caixas dos bancos, nos pontos de ônibus, cada um em um milhão que vem e vão, cada um em seu universo, cada um uma cidade em si mesmo: tudo isso é interessante para mim, tudo me comove e espanta, e eu vejo isso como se nunca antes tivesse visto. No meio de toda essa profusão, de repente me interessa um ramo florido de um ipê teimoso em ser belo no meio da fumaça preta, do concreto sujo, do cartaz apelativo de um produto qualquer. Eu percebo o olhar de um mendigo, o olhar de um ser humano esquecido pela multidão e vejo nele alguém que se parece com todos, que se parece comigo, que é da mesma espécie que eu; eu paro para deixar o turbilhão passar, o cordão de monstros mecânicos, de máquinas de aço seguir seu curso rumo a tudo o que não é passado, em direção ao distante; paro para ver o trânsito que leva tudo necessariamente para o seu fim e termo. Paro e fico olhando e meu olhar se perde seguindo o andar de uma desconhecida que nunca mais vou ver, mas que por um instante é bela de se ver e que a outros olhares atrai. Olho a cidade ao redor e quase tudo me interessa, como se fosse uma criança que pela primeira vez fosse a um parque de diversões, como o enamorado que nunca antes havia visto o rosto da sua amada; na França, me chamariam "flaneür", esse tipo especial de andarilho, que vaga sem rumo, um ser errante, alguém que deambula pela cidade sem um propósito aparente, buscando não se sabe o quê em sua caminhada. Ele nunca anda apenas por andar, para simplesmente ir a um lugar determinado, com uma hora definida para estar lá. O destino é o caminho, o objetivo da busca é o caminhar, ir-se sem plano ou roteiro. Simplesmente sair à rua, como se isto o vivificasse. Acho que sou assim. A rua, em todas as suas particularidades, me atrai e fascina.
Estou para ler desde muito tempo o A Alma Encantadora das Ruas, do jornalista, escritor, cronista e acadêmico João do Rio, nascido João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921). Já na primeira linha da obra, ele enuncia “Eu amo a rua”. João do Rio, ao morrer, foi “homenageado” com uma pequena rua em Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro; a rua foi batizada com o nome de Paulo Barreto, pelo qual também era conhecido o escritor. Pouco para quem faz uma louvação à rua, em todos os seus aspectos urbanísticos e sociais. Pois se trata mesmo de um estudo profundo e abrangente, não propriamente acadêmico, sobre este espaço tão peculiar de sociabilidade que é a rua. Entre duas esquinas, todas as manifestações do humano são possíveis: os anúncios, os gritos, a fala animada das turmas de amigos, os afagos dos casais – hetero e homossexuais – a pressa e a vagareza dos passos, o apelo do mendigo por uma moeda, o religioso que prega, e o bêbado que erra os passos; na rua se exalta, se ostenta, se arroga, a violência se impõe. Num ambiente quase saturado, finito e confinado, limitado por leis, demarcados os espaços, convivemos todos e todos nos enfrentamos, estranhos entre si, cada qual em sua própria idiossincrasia, cada um em sua rua particular. João do Rio olha a tudo isso com o olhar menos corriqueiro, que observa as minúcias, os detalhes. O “Alma Encantadora das Ruas” jaz inerte na minha estante, à espera de que eu ande pelas ruas do Rio de Janeiro do início do século XX como se eu lá estivesse ou lá vivesse, à época em que o livro foi escrito.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O SALVADOR DAS PÁTRIAS


charge de Duke, em "O Tempo" (21/01/2009)



"Yes, We Can".
Podemos?

A eleição do senador Barack Obama, 47 anos, o primeiro negro a ocupar a Casa Branca e um dos mais jovens a assumir o cargo tido como o mais importante do mundo, trouxe alento e esperança não só para os seus compatriotas, mas para quase o mundo inteiro. Antítese total do ocupante anterior da Salão Oval, ao contrário do atabalhoado e estouvado George W. Bush, autor de repetidas gafes, alvo da antipatia de quase todo mundo e tema predileto dos cartunistas, o simpático e carismático Obama está em lua de mel com a sua população. Por enquanto, exaltam-se as suas qualidades de excelente orador, de exímio articulador político, de ousado marqueteiro, de aglutinador de massas. Resta saber agora se, no dia a dia, recebidas as "heranças malditas" do(s) (des)governos anterior(es) Obama terá o mesmo jogo de cintura que exibiu no baile do dia da posse, se terá o mesmo dom de comover a todos com suas palavras bem redigidas e pronunciadas enfaticamente. O próprio Obama reconhece em seu discurso que os problemas e os inimigos são amplos e diversos. Obama sabe que o país que comandará nos próximos quatro anos estende sua influência política, sua força econômica e, principalmente, seu poderio militar, aos quatro cantos do mundo. Tudo que acontece nos EUA -de bom e de ruim - repercute em todo o planeta. Obama não pode ignorar que os EUA são responsáveis, pela sua política industrial e de meio ambiente, por boa parte do desequilíbrio climático que atualmente assola o mundo. Sabe que a Guerra no Iraque é um morticício inútil, que a situação só tende a piorar enquanto as tropas americanas por lá permanecerem. Obama deve conhecer muito bem sobre como o seu país interferiu nas questões internas de muitos países, quase sempre em nome dos interesses americanos. Obama sabe, sobretudo, que hoje em dia a crise bate a porta de seus compatriotas, toma-lhes as casas, os automóveis, a conta no banco e o emprego e tira-lhes o pão da mesa.
Mas que se acredite no que ele promete e propõe. Dê-se um voto de confiança ao jovem advogado de Chicago, ao jovem negro que fez o reverendo Jesse Jackson chorar ao anunciar "que na América tudo é possível", que evoca a memória de Martin Luther King e promete realizar o "sonho americano" da igualdade das raças. Os negros em toda a parte do mundo, do Brooklin a Soweto, já elegeram Obama como seu mais novo representante, como o mais novo abolidor, o messias tão esperado, o Dom Sebastião dos sonhadores, o Super Homem, o Salvador da Pátria. Obama, é claro, está longe de ser, sozinho, a solução de tudo. Dependerá muito de como ele e sua equipe conduzirão as coisas daqui pra frente. Vai depender de como os EUA vão propor saídas negociadas para os conflitos em que estão envolvidos. Vai depender da extinção de Guantánamo, de guardar os mísseis, de trazer seus soldados de volta para casa. Vai resolver se os americanos tiverem seus empregos outra vez, e a economia voltar a crescer, os pregões das bolsas de valores fecharem em alta, as automobilísticas pararem de demitir e de pegar dinheiro do governo. Isso tudo "dá pra fazer" como diria um político daqui de Minas que foi candidato a prefeito de Belo Horizonte.
Can We? Yes, We Can. (Podemos? Sim, Podemos). Se quisermos.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

UM OUTRO EU

Ostento a margem escura do poema
Por onde transborda a lágrima
de uma triste cena
De uma beleza esculpida e calculada

Não, não é a minha
tristeza
(Mais funda)
que está escrita

O personagem da desventurada poesia
é um outro eu
que me contesta.

O TEMPO

Um dia, às quatro horas da tarde
voltou o tempo
Todos os relógios da cidade ficaram parados
Esperando você.