segunda-feira, 24 de agosto de 2009

O SOFÁ (VERSÃO DE TEREZA, MULHER DE JÚLIO)

Tem razão: esse sofá é meio cafona mesmo. Hoje mais cedo, reparando bem nele, notei que está puído e encardido, de tanto o Chiquinho deixar cair chocolate nele. Lavar não adianta mais. O moço que eu chamei várias vezes já disse: "Dona, não tem mais jeito, não. O jeito é comprar um novo". Mas eu olho pra esse sofá e me lembro do dia que a gente foi morar junto. Lembro de você e o Pedro carregando ele escada acima no nosso primeiro apartamento; lembro que você dormiu nele aquele dia que a gente brigou a primeira vez, mas tarde da noite eu senti a sua falta na cama e vim pra sala. Eu me deitei do seu lado, você me abraçou, balbuciou alguma coisa incompreensível e voltou a dormir. Lembro de você brincando de aviãozinho com o nosso filho, você deitava no sofá e levantava o menino lá no alto, imitando o barulho do motor; a gargalhada dele dava gosto de ouvir. A gente era feliz, ou eu pensava que a gente era, Júlio. Feliz até você esquecer um papel no bolso da calça, tinha "Clara" e um número de celular escrito nele. Você tentou explicar, se complicou, e no fim teve que dizer que estava com ela já um tempo, aí que eu entendi aqueles estranhos "serões" no escritório. Me sinto meio culpada por isso, de uns tempos pra cá eu ando meio "caída", meio descuidada, já não tenho mais aquele "fogo" que eu tinha quando a gente se conheceu. Se não fosse por mim, Júlio, você não tinha tomado coragem aquele dia da calourada, até hoje estaria me olhando com aquele olhar de cachorrinho abandonado, que era até bonitinho, sabe? Além disso, essas brigas da gente já estão no limite, você tem toda razão de ficar chateado comigo, eu arranjo qualquer pretexto pra te tirar do sério, eu tenho feito de tudo pra te atazanar. Agora que você resolveu de vez pular fora, eu não tiro a sua razão. Nenhum homem gosta de mulher que fica de marcação cerrada em cima, com ciúme até dos amigos; "você está me sufocando", você diz sempre; "você não acredita quando eu falo a verdade", dói admitir, mas você tem razão. Agora que eu sei que você não está mentindo, que essa tal de Clara existe mesmo, que não é só miragem da minha imaginação ciumenta, eu estou morta de medo, nunca senti isso antes, nunca pensei que pudesse te perder, ainda mais depois de tantos anos de casados. Chorei o dia todo hoje, nem banho eu tomei, tentei dormir à tarde, e já liguei pra faculdade avisando que não vou dar aula à noite. O Chiquinho está na casa daquele amigo dele, só chega mais tarde, eles dois estão fazendo um trabalho de história, eu acho; papai vai levar ele pro sítio amanhã e só volta depois do feriado, terça-feira; pode deixar, eu converso com ele, explico direitinho, apesar de que eu é que não estou entendendo nada. Não estou precisando de dinheiro, não. Também não estou preocupada com as contas, obrigado por se lembrar delas por mim. Minha cabeça não tem espaço pra essas coisas. Tudo o que me aflige, o que me desorienta, o que me faz avançar o sinal, é essa história de eu te perder, de você ir embora, de me trocar, sua mulher a vinte anos, por uma garotinha que você pôs pra trabalhar no seu escritório, uma "vigaristazinha qualquer" que vai tomar o meu lugar na sua cama, que vai comprar outro sofá com você. Até aquela viagem que você tinha planejado pra gente, você vai com ela; aquele anel que eu te mostrei, lembra? Pois é, o que eu fiquei sabendo é que você vai comprar um mais bonito ainda pra sua amante...ai, que palavra horrível, Júlio! Parece que a sua mulher virou uma coisa sem valor, um traste inútil, que quando já não presta mais pra nada você vai lá e compra uma novinha, sem defeito, que não está gasta pelo tempo. Não quero conhecer ela, não...vê-la só vai piorar a minha situação, Júlio; eu vou me comparar a ela, vou ver por quem e porque você está me trocando. Com certeza ela é bem mais nova que eu, e está atrás de um homem bem de vida que nem você. Quando é que você a conheceu, mesmo? Foi naquele dia que você fez as entrevistas com os novos estagiários ou naquela festa na casa do professor Alfredo? Agora não importa mais, Júlio. Não precisa mais explicar nada, eu vou tentar entender, vou tentar continuar viva depois dessa. Não, que drama que nada! Eu nunca passei por isso, eu nunca te perdi, não sei como reagir, não tenho força pra isso. Já está ficando tarde, está frio lá fora; você quer aquela blusa azul da faculdade emprestada? Depois você manda o motoboy da firma me devolver lá no meu trabalho. Você não mudou nada, Júlio: continua falando que não sente frio, depois quando fica gripado, eu é que tenho que dar uma de enfermeira...ah, é...nem isso eu posso ser mais. Pede pra essa Clara cuidar bem de você, ser carinhosa que nem eu sou... Diz que você gosta de doce de abóbora com coco...eu sei fazer, aposto que ela não sabe nem fritar um ovo...vocês vão ter empregada? Hoje a Dona Iolanda não veio, o marido dela está doente, falei que ela pode ficar com ele no feriado. Não, ele está internado ainda. Ela vai te agradecer...mês passado ela até me perguntou sobre isso, se você não podia adiantar mesmo o pagamento dela, ela mostrou a receita, absurdo mesmo o preço dos remédios, ela morre de vergonha de te pedir alguma coisa... "Sei lá, o Seu Júlio pode querer me mandar embora", Quê isso, Dona Iolanda! A senhora está com a gente a tanto tempo! A senhora é que nem a avó do Chiquinho! Falando em empregada, vou fazer um cafezinho pra gente, quer? (Fica mais um pouco). A chave do Corsa? Tá ali, ó. Na mesinha, do lado do nosso retrato. Vou lá ver o café.
"Tereza, sua imbecil! Você vai deixar ele ir fácil desse jeito? O que essazinha tem que eu não tenho? Tá certo que ela é mais novinha, mas eu sei do que esse cara gosta, eu entendo ele, eu tolero os piores defeitos dele...até aquela mania de colecionar carrinhos, o que muita mulher deve achar infantil...aqueles fios brancos no cabelo deixam ele tão charmoso, aquelas rugas que já começaram a aparecer no canto dos olhos, meu Júlio é um homem tão bonito quanto no dia em que veio a primeira vez, tão novinho , tão bobinho, me perguntar qual era a diferença entre "injúria" e "difamação". Pra dizer a verdade, eu é que quis ele, eu é que tomei a iniciativa, e o coitado, tão inexperiente, tão tímido, tadinho; com certeza, a cantada fajuta na calourada foi o Pedro que ensinou pra ele...mas deu tão certo que até hoje, ou melhor, até agora, o resultado estava ao meu lado! Não vou deixar ele me ver chorando, e vou tentar disfarçar que estou tremendo que nem vara verde...vou lá pra sala, vou ser forte ao menos por enquanto. Só quando eu ouvir o barulho da chave trancando a porta do lado de fora, o elevador descendo, o motor do carro ligado e o portão fechando é que vou me desfazer em lágrimas, cair no chão que nem uma criança e vou acordar amanhã deitada no sofá, com uma olheira desse tamanho, uma dor dilacerante no peito e um vazio imenso no coração...
Vou lá pra sala... quer ver como você é forte, Dona Tereza?

Hã? Como? Como assim não vai mais? Como assim desistiu? Verdade, Júlio? Você ainda me ama? E a Clara? Sério? Vai falar com ela? Tem certeza? Meu Deus, meu Deus!Meu marido me ama!Desculpa Júlio, desculpa, meu amor, tudo que eu falei era mentira, você não é nada daquilo que eu falei! Tive tanto medo, meu amor! Não ia conseguir viver sem você!Me perdoa, pelo amor de Deus, eu te amo. Não vou brigar mais com você, nunca mais. Ai, estou tão cansada, estou exausta, Júlio. Chorei o dia todo, sabia? Nem tomei banho, você quer a sua mulher assim mesmo, cheirando mal, nem lavei o cabelo, vai ver que nem escovei os dentes...Ai, Júlio, você não mudou nada, mesmo...

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O SOFÁ



Vou deixar aqui aquele sofá horrível que você quis comprar, achava que combinava com a cor das paredes. Eu não gostei, mas pra te agradar - eu sempre fazia isso - pus no meu crediário. Naquela época, o salário de um funcionário público metido a estudante de direito só dava pra isso mesmo: pra pagar a faculdade e os carnês. Nós nos amávamos tanto que nem isso era problema. Mas a gente foi morar junto, veio o Francisco, você teve que trancar e seu pai cortou sua mesada. Foi difícil convencê-lo a vir visitar o neto, mas você sabe como são os avós: o velho se encantou no ato pelo garoto. Por isso, acho que ele não vai pensar duas vezes em levá-lo pro sítio esse fim de semana e no feriado, assim o menino não vai sofrer tanto quando o pai dele for embora de casa. Depois você explica pra ele porque que papai teve que se mudar. Você sabe que a gente sempre escondeu do menino as nossas brigas, evitava falar alto perto dele. Mas eu acho que o Chico percebia quando algo não estava bem. Lembra quando a professora dele ligou pra dizer que o garoto estava chorando no banheiro da escola? Pois é: ele sabe de tudo, mas é tão inteligente que lida com isso sozinho, finge que não está nem aí, que fica na dele. O Chico é tímido que nem o pai, com quatorze anos ainda não está paquerando as meninas do colégio. Eu tinha vinte e cinco quando te conheci, no terceiro período, quando você estava dando monitoria de Direito Penal. Ficamos uns dois semestres naquele chove-não-molha, até o Pedro (sempre o Pedro) te chamar para aquela fatídica calourada. "Ah, vem você também, Júlio", disse ele. Fui a contragosto, detestava festas, ainda mais calouradas, aqueles cabeludos bêbados e drogados esgoelando aqueles rocks horríveis, mas eu estava "decidido" a de umas vez por todas abrir o jogo, pra te ganhar ou perder sem engano, que nem na música da Marina. Pois é, nove meses depois, a barriguda mais linda do mundo deu à luz um garotinho loirinho e bochechudo que batizei com o nome do meu avô materno. Vivemos no aperto uns dois anos, até eu me formar. Graças ao professor Alfredo, aliás o Desembargador Alfredo Ramos Nunes, rapidamente eu consegui arranjar um bom emprego e nome na carreira. O apartamento mudou, mudou de bairro, mudou o salário, mas o sofá dos tempos de faculdade ficou, lembra os tempos felizes, você sempre diz. Mas pra onde eu vou agora ele não vai. Porque você não vai junto. Clara até que perguntou se você não gostaria de conhecê-la, poderiam até ser amigas, não estamos virando inimigos só porque estamos nos separando, ela diz. Mas você não quer, eu aceito. Depositei o primeiro cheque da pensão do Chiquinho na sua conta, paguei a mensalidade do colégio, e se ele precisar do dinheiro pro intercâmbio diz pra ele que mês que vem eu vou abrir uma caderneta no banco. Não se preocupe com o carro; as multas e o IPVA já foram pagos, eu assumi aqueles pontos do dia que você passou o sinal, lembra? Então, acho que é isso. Tá aqui o endereço e o telefone do escritório novo, pode ser que Clara atenda, seja simpática com ela, tá? Um café? sim, eu aceito. Não, não tá fazendo frio. Pode deixar, eu tenho uma blusa no carro. Não se incomode comigo, não. A Dona Iolanda não veio hoje? E o marido dela, já saiu do hospital? Vou ver se adianto o salário dela, coitada...esses remédios, tão caros...Tudo bem, eu espero. Você viu as chaves do Corsa? Ah, sim, no lugar de sempre, ali, perto do "nosso" retrato. Você vai deixar ele ali? Vai na cozinha, parece que a água do café tá fervendo.
Enquanto espera, Júlio, para procurar as chaves do carro, olha a mesinha no canto da sala. O homem do "nosso" retrato beija e abraça uma moça linda, com uma beca de formanda. O ano é 19...o homem do retrato é ele, a moça linda é esta que está disfarçando mal as lágrimas, e o tremor das mãos na xícara de café fumegante. Ela aparece na sala, e ele a olha. Tão linda quanto nos tempos da faculdade, tão atraente quanto quando os caras da outra turma passavam olhando para trás e fazendo "comentários", o que deixava Júlio furioso de ciúmes. "Não envelheceu tanto quanto eu", Júlio pensa, "não sentiu os efeitos do tempo". "Esses cabelos loiros, que nem os do nosso filho, os olhos de um azul indescritível, iguais aos do nosso filho; mesmo com essas olheiras profundas(deve ter chorado hoje o dia todo), mesmo não tendo se penteado, mesmo com essa camiseta surrada e essas calças de moleton, a minha mulher é linda, a minha mulher é desejável ainda, já me vi muitas vezes tendo ciúmes até dos alunos dela!" "Onde é que você está com a cabeça, seu idiota? A Clara não é tão linda assim, não me ama desse jeito, não sabe quase nada de mim, não passou os apertos que nós passamos juntos; ela nem reclama quando eu ronco, quando eu e deixo a toalha molhada em cima da cama, quando eu falo que vou ficar até mais tarde no escritório; será que está certo eu deixar a minha mulher de vinte anos por causa de uma aventura que nem sei se vai dar certo, será que vale a pena apostar tudo, largar tudo por uma estranha qualquer?" "Não! Ainda dá tempo... posso ligar pra Clara, explicar tudo pra ela. Vou dizer a ela que não vou mais largar a minha esposa, que não vou mais pro Caribe, que aquele anel de diamantes vai ficar lá mesmo no Shopping. Vou falar pra ela continuar trabalhando lá na firma, se quiser. Se não, eu arranjo outro emprego pra ela com meus amigos lá do Tribunal. Se ela vai entender, é outra história. Amanhã mesmo, vou ligar pro meu sogro e falo pra ele trazer o Chiquinho pra casa antes do feriado. Digo pro Chiquinho que vou comprar aquele PlayStation que ele tanto quer, que ele volta". "Agora, será que se eu estender a mão, olhar pra minha mulher como costumava olhar quando eu ainda não namorava com ela, aquele olhar de cão vadio, será que se eu pedir perdão, dizer pra ela que eu ainda a amo, que essa tal de Clara é uma aventura inconseqüente, coisa de 'idade do lobo', ela vai me abraçar chorando, e em meio às lágrimas, vai me pedir perdão, e dizer que ainda me ama, que aqueles adjetivos impublicáveis eram só coisa de mulher ofendida, terrificada pela ameaça de perder o único homem que amara para uma "vigaristazinha qualquer"'? "Vem cá, minha amada, minha amiga, me perdoa, eu desisti de ir embora, eu não vou mais brigar com você, nunca mais, eu te amo, você me ama também, né? Então, deixa isso prá lá, vamos esquecer tudo, eu ligo depois pra Clara e explico tudo. Não chora, não... Olha aqui, vamos viajar, eu tiro umas férias, estou mesmo precisando, deixo o escritório com o Rogério, ele cuida daquilo lá pra nós. Não, não vamos levar o Francisco, não. Só eu e você, que tal? Senta aqui. Puxa, como esse sofá durou, hem? Me dá um beijo.
Apague a luz. Me abraça. Eu te amo".

(dois anos depois)

Cena: Um homem de quarenta e poucos anos, de óculos, um pouco calvo, está sentado num sofá, lendo o jornal. Ao seu lado, uma mulher loira de olhos azuis, com seus mais ou menos quarenta também, lê "Crime e Castigo" de Dostoiévski, enquanto embala um bebezinho no colo. Um rapaz de mãos dadas com uma garota morena entra e diz:

- Pai, mãe, essa é a minha namorada, a Clara.

UM ANO DEPOIS

Ontem (2o de agosto) fez um ano que fui a Faculdade de Letras pela última vez. Quem acompanha o Menino sabe o quanto eu gostava desse lugar. Sabe que lá eu fiz vários amigos, que vivi os melhores dias da minha vida; sabe dos apertos que enfrentei lá, das alegrias e tristezas que tive; sabe que eu amei e aprendi, que eu ajudei e recebi ajuda; que eu fui homenageado e execrado, que venci e que às vezes me rendi sem ter lutado. No dia em que voltei para rever tudo, um fato trágico aconteceu: o João Luciano, cadeirante, matou-se dentro de uma sala de aula, supostamente motivado pela paixão por uma professora do curso de alemão, uma de suas musas loiras. A "obcessão" pelas moças de pele clara era pública e notória no caso do João. Mas tirando essa "bizarrice", ele era um cara extraordinário, extremamente inteligente e sensível, apesar de algumas idéias um tanto quanto radicais; sentado naquele cadeira, havia um ser humano como qualquer um de nós, com todos os defeitos, mas com algumas qualidades que só ele tinha, o que o tornavam o que ele verdadeiramente era, sem a pecha do preconceito e da imbecilidade com que algumas pessoas se referiam a ele, justamente por não conhecê-lo direito. Um dos "universiotários" presentes à fatídica noite de 20 de agosto, na confusão em que se tornou o corredor, com o pessoal do SAMU, a polícia e os jornalistas, saiu-se com a seguinte pérola: "Se ele não morrer, o máximo que vai acontecer é ele ficar paralítico". Deu vontade de xingar o infeliz, mas eu fiquei calado. Não valia a pena discutir com o idiota.
Aquele dia não foi só esse episódio trágico, não. Revi várias pessoas queridas, fui celebrado e festejado por muitos, coloquei em dia várias "fofocas", matei a saudade de (quase) todo mundo. Gostaria de ter visto e de ter falado com uma certa pessoa, que não vi e com quem não falei.
Tudo isso fez um ano. Não sei se se repetirá. Não sei se as pessoas ainda estão lá.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

A LÍNGUA DE NERUDA E CERVANTES

Ser funcionário público às vezes é bom. A estrutura da administração municipal oferece alguns benefícios e oportunidades, mas é preciso estar atento para não perder a chance. No meu e-mail corporativo apareceu a mensagem: "Curso de línguas estrangeiras na Secretaria Municipal Adjunta de Recursos Humanos. Inscrições de 5 a 10 de agosto." Fui conferir lá no endereço que estava no e-mail e no mesmo dia fiz uma inscrição para o sorteio das vagas. Quase nunca tenho sorte com esse negócio de sorteio, mas dessa vez eu consegui: estou fazendo o curso de Espanhol, às segundas e quartas, no Centro. A aula é de seis e quarenta às sete e quarenta da noite, horário meio puxado, difícil não chegar atrasado com o trânsito caótico de Belo Horizonte; mas no final todo esse "sacrifício" vai valer pra eu ler Neruda e Cervantes no original. O livro, "Rápido, Rápido" (custa caro!) eu consegui emprestado com a Aline, grande amiga, que aliás se estiver lendo esse post vai saber o quanto eu sou grato a ela pela prontidão e boa vontade em me ajudar nesse caso. Daqui a um ano e meio, poderei ler o El País, o Clarin, ver filmes do Almodóvar sem legendas, cantar as músicas do Carlos Galhardo com sotaque portenho, vou poder assistir aos canais de TV a cabo da Espanha.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Morte de cão emociona alunos e funcionários da UFSC


Catatau, o ‘UFSCão’, foi encontrado morto por suspeita de envenenamento.
Mascote participava de manifestações a festas no campus.

Luciana RossettoDo G1, em São Paulo


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Catatau, o ‘UFSCão’, foi encontrado morto por suspeita de envenenamento. (Foto: www.flickr.com/rafaelvilela)

A morte de um cachorro causou uma grande comoção no campus da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em Florianópolis. Mascote querido de alunos e servidores, Catatau era famoso por acompanhar todos os eventos envolvendo os estudantes, mas foi encontrado morto, por suspeita de envenenamento, em um dos córregos que passam na área da universidade, na sexta-feira (24).


Rogeria D’el Rei Martins, que trabalha na área administrativa da UFSC, contou ao G1 que Catatau foi abandonado no campus em 1997, ainda filhote. Alimentado por alunos e funcionários, que contam com a ajuda de uma Ong que tenta impedir o abandono de animais no local, era considerado o cão mais popular da universidade e ganhou o apelido de “UFSCão”.

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Catatau participava de vários atos no campus da UFSC (Foto: www.flickr.com/rafaelvilela)

“Catatau sempre participou de todos os atos dos alunos, de protestos a festas. Ele estava nas formaturas, nos trotes, sempre junto com os estudantes. Na saída dos alunos, ele chegava até a acompanhar os estudantes nos arredores, mas depois voltava. Com esse jeito tão carinhoso, ele conquistou todo mundo”, conta Rogéria.


Uma das últimas proezas protagonizadas por Catatau ocorreu durante a invasão do gabinete da reitoria por alunos. O cão ocupou a cadeira do reitor durante o ato e tinha apoio dos alunos para permanecer no cargo.

O estudante de Design Gráfico Rafael Vilela conta que, em abril, Catatau acompanhou um protesto de alunos contra o aumento do passe de ônibus em Florianópolis. “Éramos uns 40 alunos e saímos em passeata do campus até o centro. Caminhamos por uns 40 minutos embaixo de chuva, e o Catatau foi junto. Ele fez parte da manifestação e depois conseguiu voltar para o campus de carona com alguns alunos que estavam de carro. Tem aluno que já levou o Catatau até para a praia”, disse.

Apesar da suspeita de assassinato, a morte de Catatau não poderá ser investigada. “Não temos câmeras no local onde ele foi encontrado, não teríamos como descobrir quem o jogou no córrego”, disse Rogéria.

Enterro

Catatau foi enterrado ainda na sexta-feira perto do monumento Pira da Resistência, que foi erguido pelos próprios servidores. Para Rogéria, o local vai se tornar um ponto de peregrinação de alunos. “Alguém já deixou um vaso com flores brancas para ele. Era um cachorro muito especial”, disse.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

É VERDADE, ANA!

Sim, Ana o filme Alice no País das Maravilhas estréia em abril de 2o09!

sábado, 25 de julho de 2009

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS (2)

Trailer teaser já está na Internet. Filme estréia no Brasil em abril (rimou!) de 2010.
Assista no Youtube:

sexta-feira, 24 de julho de 2009

FALHA NOSSA

Pessoas! Alguns links de filmes aqui no Menino não estão funcionando. Vou consertá-los aos poucos. Enquanto isso...

sábado, 18 de julho de 2009

PROVAVELMENTE AMOR

Em mim, algo se revolve
Como se fosse uma dor
Sem nome
Mas que me provoca a sensação de uma leveza enorme
Como se eu voasse
Não sei como se chama
A causa
Nem sequer sei se ela me conhece.

NARCISO INSEGURO

Se eu não sou eu,
Quem é este no espelho,
Espelho meu?

NÃO SE PREOCUPE, ESTOU BEM




Lili voltou das férias em Barcelona ansiosa para contar as novidades para seu irmão gêmeo Löic. Mas quando chega em casa, num distante mas agradável subúrbio parisiense, fica sabendo que Löic foi embora, depois de mais uma violenta discussão com o pai, com o qual nunca se dera bem. Lili, ao contrário, é muito ligada ao irmão, se desespera ao saber do seu desaparecimento, cai em depressão e se recusa a comer. Quando recebe uma carta do irmão, Lili decide ir procurá-lo, sem muitas pistas de onde ele possa estar. Lili só sabe que Löic caiu na estrada com seu violão e a cada dia escreve de um lugar diferente, sempre aproveitando a ocasião para declarar seu ódio ao pai, ao qual se refere com termos bastante "indelicados". Este "Não se Preocupe, Estou Bem" narra como uma "mentira caridosa" aquela que todos nós contamos para poupar um ente querido de uma decepção, de um sofrimento o qual julgamos que tal pessoa seja incapaz de suportar, traz conseqüências às vezes trágicas.

Não Se Preocupe, Estou Bem (Je Vais Bien, Ne T’en Fais Pas, França, 2006, 100 min) Direção e Roteiro: Philippe Lioret. Com Mélanie Laurent, Kad Merad, Isabelle Renauld. Baseado na obra de Olivier Adam.
Assista ao trailer:

sexta-feira, 17 de julho de 2009

GRANDE RESPONSABILIDADE

Patrícia McQuade escreve: "...então trate de escrever coisas bonitas porque sou exigente demais." E ela me chama de modesto. Bom, eu poderia dizer que me orgulho da minha modéstia (risos). Mas que ela não me ouça: não sei se o que escrevo é bonito. Apenas digo o que penso e sinto, minhas impressões sobre as coisas do mundo, minhas idéias (não vou tirar o acento dessa palavra tão cedo!). Se essas "mal traçadas linhas" têm alguma beleza, se tocam o sentimento de alguém, que bom. Ok, Sra. McQuade, tudo que eu escrever daqui em diante será para obedecer a sua "ordem" e às suas "exigências". Espero que você goste.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

COMEÇA A EXPECTATIVA






Alice no País das Maravilhas na versão de Tim Burton está em fase de pós-produção e chega aos cinemas americanos em março de 2010. Johnny Depp é o Chapeleiro Maluco. A australiana Mia Wasikowska faz o papel de Alice. Michael Sheen, que foi Tony Blair no filme "A Rainha" é o Coelho Branco. Outros grandes astros que participam do elenco são Chistopher Lee (lembram dele? É o Saruman de O Senhor dos Anéis) que faz o monstro Jabberwock e Stephen Fry, que é o gato de Cheschire.

O site Filmofilia (em inglês) traz fotos e mais detalhes da produção.


quarta-feira, 15 de julho de 2009

UM ACHADO, UM "ACONTECIMENTO"

Olha o que veio a mim por acaso: o blog "Acontecimentos" do poeta Antônio Cícero, que nos meios musicais é o irmão de Marina Lima, e é autor das melhores letras da cantora. Siga esse link:

terça-feira, 14 de julho de 2009

CAROS AMIGOS

Eu não sabia que deveria moderar os comentários às postagens do meu blog. Vou ver se consigo desativar essa função, porque tenho certeza de que todos os eventuais visitantes são gente boa. Portanto, não precisam de moderação: todos são bem vindos para comentar tudo o que eu escrevo. Por causa dessa minha "ignorância" de como funciona esse ambiente virtual, só agora fiquei sabendo que Patrícia McQuade, Thiago Assis e Aline Rabelo fizeram recentemente menções elogiosas ao meu modesto e mal traçado Menino Homem que - diga-se de passagem - estava (está) meio jogado de lado. A desculpa de sempre é o "tempo", a correria da vida, que nos impede de parar para observar alguma sutileza, que nos priva da capacidade de se surpreender e de se emocionar com o mundo, preocupados que ficamos em "viver". Não tenho andado muito "inspirado" ultimamente, e todas as minhas tentativas de escrever não deram em nada. O incentivo que faltava vem na forma da maneira carinhosa e generosa com que essas pessoas (não deixarei de citar você, Paulinha) se referem a mim nos seus comentários. Como o mais impiedoso crítico do meu próprio trabalho, nunca acho que ele tem tanto valor artístico. Preciso da abalizada avaliação de pessoas sensíveis e inteligentes como essas que citei para que eu veja qualidades na minha "produção poética". Certa vez eu escrevi assim a uma pessoa querida: "Fico muito feliz de saber que você gosta do que eu escrevo, e por acreditar que outras pessoas também possam gostar; só isso, como já disse, já é mais do que eu poderia esperar, tendo em vista que eu pensava escrever só para mim, falando do meu próprio mundo, das coisas de dentro, das minhas inquietações e sentimentos. Quando percebo que mais de uma pessoa pensa dentro do meu texto, que ele cabe em outros contextos, isso significa que o que sinto e penso toca o pensamento e o sentimento de outras pessoas. Acredito que este seja o maior reconhecimento buscado por todos aqueles que escrevem: ser a voz que fala ao coração de outras pessoas". A ela e a todos eu prometo que vou procurar onde deixei a minha inspiração. Deve estar na mesma gaveta onde eu guardei os planos, as promessas, os projetos, os rascunhos, as paixões da minha vida. O espaço da minha mesa está cheio de processos administrativos, autos de infração, planilhas e relatórios, de fatos da vida cotidiana e perecível. Durante todo o dia eu convivo com as mais diversas maneiras dos motoristas dessa cidade de criar problemas e arranjar transtornos. O trânsito é realmente um caos, as pessoas estão cada vez perdidas e mais agressivas na metrópole. Vence quem sobrevive, quem está protegido dentro das suas carcaças metálicas brilhantes. Por tratar o tempo todo com isso, temo estar ficando meio que anestesiado, não me indignando, não esboçando mais qualquer reação, ficando indiferente, tratando pessoas como números de processo ou dados estatísticos. A salvação é que eu tenho as palavras e através delas eu posso expressar isto, externar a minha angústia, compartilhá-la com pessoas como vocês, que ainda não endureceram o coração.

(SEM TÍTULO)

Coisas minhas que não sei onde estão
Não estão perdidas
Se não as tenho agora comigo
É que meu coração
também não está aqui.

ALGO JÁ ANTIGO

Hoje me lembro de antes
eu era isso
Fui o que sou no tempo
em que vivo
Não é de agora que me sinto
como se jamais tivesse visto
o que nunca esqueci.

sábado, 13 de junho de 2009

DE TUDO RESTA UM POUCO

(uma coisa assim meio Drummond)

Um pouco de tudo permaneceu intacto:
A parte não consumida pelo silêncio
que contaminou de morte o resto das palavras
O que não foi perdido por não ter existido
não vem mais ao caso
já que só interessava o risco
E nem era mais segredo naquele instante em que foi revelado
E estava já vencido ao se render

O maior perigo era se arrepender
de jamais ter dito.

DIA DOS NAMORADOS

Empresário atira na ex e se mata em Mogi Mirim (SP)

do jornal "Agora" (São Paulo)

Uma policial militar foi assassinada a tiros pelo ex-namorado, que cometeu suicídio logo depois.

O crime aconteceu ontem pela manhã, no Dia dos Namorados, em Mogi Mirim (151 km de SP). Segundo a polícia, o empresário Nilton Gross, 40 anos, e a policial militar Adriana Gomes, de 35, haviam tido um longo namoro, mas ele era casado e Adriana terminou o relacionamento neste ano.

A polícia não soube dizer se ele ainda é casado. Ontem, por volta das 9h, o empresário foi ao prédio onde morava a policial militar para tentar uma reconciliação.

Diante da recusa dela em reatar o romance, ele pegou um revólver calibre 38 --possivelmente a arma da policial-- e deu dois tiros na ex, que foi atingida na cabeça e no coração. No mesmo local, ele foi encontrado morto.

A polícia ainda aguarda o resultado da necropsia, mas as investigações indicam que ele ingeriu veneno. O enterro de Adriana estava previsto para acontecer na manhã de hoje. O corpo de Gross será transferido para o Paraná.

JÉSSIKA TORREZAN

domingo, 24 de maio de 2009

A CADEIA

Para que tenhas o que é teu
Para que pertenças ao espaço que eu tentei invadir
Eu me esquivo de ti
Embora continue a vigiar
noite e dia

Te dou o silêncio que você pediu
Pois desde o início eu não ouvi
A queixa gentil contra o meu afeto

Se meu abraço te impede de se livrar de mim
Se sufocada estás pelo meu excesso de zelo
Eu te deixo sair
Fugindo de ti
como um leão acuado
e com medo.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

MAÍSA E OS MONSTROS



A expressão tensa da menina no palco parecia indicar que algo não estava bem. Primeiro, ela se soltou bruscamente da mão do apresentador e se afastou dele, lívida e trêmula; logo depois, de olhos arregalados, ela viu aparecer no estúdio a rídicula figura de outra criança, fantasiada toscamente como um "monstro". Certo, o tal monstro não assustaria quase ninguém. Mas no caso da garota de seis anos chamada Maísa, atualmente a principal "atração" do programa dominical de Sílvio Santos, foi o bastante para que ela entrasse em pânico, e fugisse aos berros do estúdio. A platéia veio abaixo com as gargalhadas, como se aquilo fosse um show de palhaços. O apresentador chamava a menina em vão, pedindo que ela voltasse. Ela voltou, mas pouco depois, incitada pelo apresentador, que ameaçava trazer o "monstrinho" de volta, ela deixou o estúdio para não voltar mais. Sílvio Santos repetia: "essa Maísa não tem jeito mesmo...". Ora, trata-se de uma criança de seis anos. Por mais que ela pareça "espontânea" e "extrovertida" ela não deveria ser exposta a ridicularização pública a que é submetida toda tarde de domingo. Por mais que suas respostas às provocações do apresentador pareçam "inteligentes", ela não tem o discernimento e capacidade de julgamento necessários; é uma criança, e como reza o ECA - Estatuto da Criança e do Adolescente - , deve ser preservada de situações constrangedoras e vexatórias, ou de ser exposta ao ridículo. O apresentador a provoca até o limite da sua paciência, para que ela, na sua inocência, faça o público cair na risada. Algumas pessoas com quem conversei sobre o assunto justificam a participação de Maísa no programa pela quantidade de dinheiro que ela deve receber pela atração, pelo "sucesso" que ela representa, pelos pontos de audiência que deve roubar das emissoras concorrentes. Ora, ela talvez não tenha consciência disso tudo, nem a noção do quanto "vale" no mercado televisivo - ela já foi "disputada" por outros canais. Maísa sequer pode usufruir legalmente de todo o dinheiro que tem. A administração dos ganhos dela deve estar nas mãos de alguém contratado pelos pais.
Num mercado como a televisão, em que toda novidade é perecível, não há de durar muito para que passe o "efeito Maísa" e ela caia no esquecimento, sendo substituída por outra bizarrice dessa natureza. No momento em que ela não gerar mais audiência (e lucros), quando o público não tiver mais interesse, quando se esgotarem todas as surradas piadas do apresentador para fazer a garotinha ficar nervosa, brava e sair correndo chorando, aí então é só colocar outra coisa no ar.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

CINCO FRAÇÕES DE UMA QUASE HISTÓRIA


(Cinco Frações de uma Quase História, Brasil, 2008, 96 min. Direção dos episódios por Armando Mendz, Cristiano Abud, Cris Azzi, Guilherme Fiúza, Lucas Gontijo e Thales Bahia. Com Cláudio Jaborandy, Cynthia Falabella ,Gero Camilo,Jece Valadão,Leonardo Medeiros,Luiz Arthur,Murilo Grossi,Nivaldo Pedrosa. Disponível em DVD)

Você está cercado de malucos. Isso mesmo. Todos nessa cidade tem alguma coisa de loucura, em menor ou maior grau. São dois milhões e quatrocentas mil pessoas - sem contar as que vem de fora - vivendo a dor e a delícia da metrópole, negociando permanentemente com o caos, contra o tempo, buscando incessantemente um produto caro e difícil de se encontrar no mercado: a felicidade. Uma mercadoria que pode vir embalada de diversas formas. Bem perto, no carro ao lado, no assento do ônibus atrás de você, na fila do banco, no supermercado da esquina, há pessoas de todos os tipos, e você nem imagina do que elas são capazes. No meio de toda essa gente, vamos encontrar nesse "Cinco Frações de Uma Quase História" cinco tipos estranhos, cinco pessoas esquisitas, cinco histórias de vida que, no paroxismo de suas atitudes, no auge das suas paranóias e neuroses são muitos parecidos com todos nós. São animais urbanos. Pode ser alguém como um fotógrafo obcecado pelos pés femininos e os persegue pelas ruas, pode ser também um sujeito que se projeta nas imagens que vê na televisão, pode ser um reles funcionário de repartição que vê na proposta indecorosa do chefe uma chance de sair da vida mesquinha e medíocre que leva; pode ser uma secretária desiludida no amor que sonha em se casar, nem que seja na marra. Ou ainda pode ser um empregado de matadouro que pensa em se vingar da traição da mulher. São cinco seres humanos. O filme foi todo rodado em locações em Belo Horizonte, que aqui aparece nobre e discreta, como um pano de fundo para as histórias narradas, que em algum ponto se cruzam, sem contudo se tocar. Como acontece quando passamos por um estranho na rua. Por um instante ele pode até chamar sua atenção por causa de alguma atitude inusitada, mas logo depois segue levando a vida e você nunca mais o vê.
Assista ao trailer e leia mais sobre "Cinco Frações" no ótimo site oficial: www.cincofracoes.com.br/

segunda-feira, 27 de abril de 2009

CARTA PARA O FUTURO

Quando isso chegar a seu conhecimento
Já terá acontecido como passado
Vai ficar o relato guardado contigo para o tempo
como a história que lida num livro
volta a ser

Isto é o dia de hoje
dias e dias depois, e é o
Conto do instante em que está sendo
para você saber
que, quando ler o que está escrito,
ainda será assim do mesmo jeito.

APRENDER A CAIR

Caio leve
como neve
para cobrir com um manto branco
o chão
Mas é
Para matar de frio e
Para virar avalanche
Que desabo suave do céu.

A chuva para encher o rio
e virar inundação
Não precisa ser tempestade:

Pode cair de mansinho.

ILHA DE SANTA HELENA *

Trabalha para o dia já perdido
Um pouco de sangue para o fim do tempo
Vai buscar o sustento dos sonhos já desfeitos
Nas intermináveis filas
Perca-se mais uma esperança, de todas as que já foram perdidas
A batalha mais importante da guerra:
Vencida.



*Napoleão Bonaparte morreu exilado na Ilha de Santa Helena.

domingo, 26 de abril de 2009

TONGUE TIED

TONGUE TIED (República Tcheca, 2004, 4min30s. Direção por Emily Sheskin. Com Ivo Hrbac, Marina Vradiy, Lenka Novotna)

sexta-feira, 24 de abril de 2009

ÍMPETO AFOITO

É a angústia que me controla os atos
E a inquietação quem me guia pelo caminho torto
Em buscar aflito o que me acalmaria
é a solidão que insiste em ter companhia para a noite
Mas do que nos serve a calmaria quando
desesperada pelo mar
Navega contra o vento
Do que vale a onda que se atira na pedra
Se morre na praia a maré cheia?

CONVERSA DE MULHERES

Alguém me contou que te viu
hoje de tarde
Disseram que você estava brava
e se referiu a mim com nomes feios
Depois, às gargalhadas
Falou mal de todas as bobagens masculinas
E disse que eu era um dos piores da sua vida.
Esse alguém não soube, porém,
que na escuridão do seu quarto
Junto com a raiva que você sentia
vieram as lágrimas.

terça-feira, 21 de abril de 2009

METADE DE DOIS

Meu amor é um ser inválido:
Tem apenas dois pés e dois braços

Amores comuns
Costumam ter quatro.

REMÉDIOS DO AMOR

REMÉDIOS DO AMOR (Brasil, 2002, 19 min. Direção por João Vargas Penna. Com Andrea Caruso, Bruno Murtinho, João Faleiro, Luciana Brites, Paulo André, Rodrigo Signoretti. Música por Marco Antônio Guimarães. Filmado no Edifício Niemeyer, Praça da Liberdade, em Belo Horizonte e em Ouro Preto)
ASSISTA no Porta Curtas (www.portacurtas.com.br)

Remédios do Amor

A ÍNTEGRA DO ROTEIRO

(Adaptado do "Sermão do Mandato" [1643] do Padre Antônio Vieira, [1608-1697])REMÉDIOS DO AMOR
CORO
(off)
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável: de amor: de amor nosso: e de amor incurável, e sem remédio:
VIEIRA
(off)
Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o pri-meiro rendido é o entendimento. Usar de razão, e amar, são duas coisas que não se ajuntam.
CORO
(off)
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável: de amor; de amor nosso;e de amor incurável, e sem remédio
VIEIRA
(continua em off)
O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tres-variar, se for amor.
VIEIRA
(em off)
São afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de have-rem de durar pouco, que terem durado muito;
VIEIRA
(continua, off)
São como as linhas, que partem do centro para a circunferência, que quanto mais continuadas, tanto menos unidas.
VIEIRA
(off)
De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não tira;
VIEIRA
(off)
embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas, com que voa e foge.
VIEIRA
(off)
Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba.
VIEIRA
(off)
Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera?
VIEIRA
(off)
Por isso os Antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho.
VIEIRA
(off)
O segundo remédio do amor é a ausência. Muitas enfermidades se curam só com a mudança do ar; o amor com a da terra.
VIEIRA
(off)
É o amor como a Lua, que em havendo Terra em meio, dai-o por eclipsado.
VIEIRA
(off)
E que terra há que não seja a terra do esquecimento, se vos passastes a outra terra? Se os mortos são tão esquecidos, havendo tão pouca terra entre eles e os vivos; que podem esperar e que se pode esperar dos ausentes?
VIEIRA
(off)
Se quatro palmos de terra causam tais efeitos; tantas léguas que farão? Em os longes passando de tiro de seta, não chegam lá as forças do amor.
VIEIRA
(off)
Os olhos são as frestas do coração, por onde respira; e daqui vem, que o coração na presença, em que tem abertos os olhos, por eles evapora e exala os afetos;
VIEIRA
(continua, off)
porém na ausência, em que os tem tapados pela distância, que lhe sucede? Assim como o vaso sobre o fogo, que tapado e não tendo por onde respirar, concebe maior calor, e o reconcentra todo em si e talvez rebenta,
VIEIRA
(continua, off)
assim o coração ausente, faltando-lhe a respiração da vista, e não tendo por onde dar saída ao incêndio,(continua)
VIEIRA
(continua, off)
recolhe dentro em si toda a força e ímpeto do amor, o qual cresce naturalmente, e se acende e adelgaça de sorte, (continua)
VIEIRA
(continua, off)
que não cabendo no mesmo coração, rebenta em maiores e mais extraordinários efeitos.
VIEIRA
(em off)
A natureza e a arte curam contrários com contrários. Sendo pois a ingratidão o maior contrário do amor, quem duvida que este ter-ceiro remédio seria também o último e o mais presente e eficaz…?
VIEIRA
(em off)
A virtude que lhe dá tamanha eficácia, se eu bem o considero, é ter este remédio da sua parte a razão.
VIEIRA
(em off)
Diminuir o amor o tempo, esfriar o amor a ausência, é sem-razão de que todos se queixam; mas que a ingratidão mude o amor e o con-verta em aborrecimento, a mesma razão o aprova, o persuade, e pa-rece que o manda.
VIEIRA
(em off)
Que sentença mais justa, que privar do amor a um ingrato? O tempo é natureza, a ausência pode ser força, a ingratidão sempre é delito.
VIEIRA
(em off)
O tempo tira ao amor a novidade, a ausência tira-lhe a comunica-ção, a ingratidão tira-lhe o motivo.
VIEIRA
(em off)
E ferido o amor no cérebro, e ferido no coração, como pode viver?
VIEIRA
(em off)
É pois o quarto e último remédio do amor, e com o qual ninguém deixou de sarar, o melhorar do objeto. Dizem que um amor com outro se paga, e mais certo é, que um amor com outro se apaga.
VIEIRA
(em off)
Assim como dois contrários em grau intenso não podem estar juntos em um sujeito;
VIEIRA
(continua, em off)
assim no mesmo coração não podem caber dois amores; porque o amor que não é intenso, não é amor.
VIEIRA
(continua, em off)
Daqui vem, que se acaso se encontram e pleiteiam sobre o lugar, sempre fica a vitória pelo melhor objeto.
VIEIRA
(continua, em off)
É o amor entre os afetos, como a luz entre as qualidades.
(off)
Diz que é de amor, e de amor nosso, e de amor incurável: de amor; de amor nosso;e de amor incurável; e sem remédio…
(…continua, em off)
Comumente se diz, que o maior contrário da luz são as trevas, e não é assim (continua…)
VIEIRA
(…continua, em off)
O maior contrário de uma luz, é outra luz maior.
VIEIRA
(continua, em off)
As estrelas no meio das trevas luzem, e resplandecem mais; mas em aparecendo o Sol, que é luz maior, desaparecem as estrelas.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

HISTORINHAS CURTAS (2)

Aqui de novo flagrantes da vida alheia. Pequenos cotidianos, iguais aos de muita gente que eu conheço, parecidos com os dias que já vivi e vivo. Só as histórias é que falam de pessoas imaginárias, criadas -eu já falei sobre isso antes - pela imaginação de um autor ou de um roteirista. Mas as histórias poderiam ser de qualquer um de nós. Afinal, todos nós já vivemos a descoberta do primeiro amor, assim como da primeira desilusão amorosa; todos nós temos histórias alegres, divertidas e cômicas sobre a juventude, e um ou outro caso escabroso para esconder. Coisas do tipo fumar no corredor morrendo de medo de papai ou mamãe descobrir. Também eu e você já passamos pela aventura do primeiro emprego, do primeiro divórcio, do primeiro pedido de demissão. Esses curtas falam de descobertas, de redescobrimentos, de reviravoltas na vida necessárias para começar de novo, falam de ritos de passagem, da dura jornada a fase adulta da nossa existência, quando deixamos de ser para nos tornarmos, quando temos que deixar muita coisa de lado para formarmos a personalidade que vamos passar a ter.

ESPALHADAS PELO AR (Brasil, 2007.15 min.Dirigido por Vera Egito. Com Ana Carolina Lima, Estevan Santos, Renata Torralba Horta
ESPALHADAS PELO AR

ENGANO
(Brasil, 2008, 11 min. Direção por Cavi Borges. Com Felipe Mônaco, Miila Derze

ENGANO

PERTO DE QUALQUER LUGAR (Brasil, 2007, 17 min. Direção por Mariana Bastos Com Caroline Abras (Gabi), Rafael Losso (Tom), Renata Gaspar (Julia), Victor Ribeiro (Rafa)

PERTO DE QUALQUER LUGAR

MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE UM EDITOR DE PASSOS
(Brasil, 2006, 16 min. Direção por Daniel Turini. Com Eduardo Gomes, Fernando Sato, Rita Batata, Vinícius Piedade)

MEMÓRIAS SENTIMENTAIS DE UM EDITOR DE PASSOS

quinta-feira, 9 de abril de 2009

EARLY MORNIN'

Uma luz acesa, outra apagada
A cidade semi desperta
Meio (des)acordada

Ainda sonham os notívagos
Perambulam sonâmbulos
Os que trabalham já se levantaram
para a crua realidade da luz do dia.

quinta-feira, 2 de abril de 2009


Achei mais uma adaptação para o cinema do conto "Noites Brancas" de Dostoiévski. Desta vez, trata-se de "Belye Nochi" (em círilico, белые ночи), dirigido por Ivan Pyryev com a atriz Lyudmila Marchenko no papel de Nástenka, Oleg Strizhenov interpretando o Sonhador sem nome e Anatoli Fedorinov fazendo o Inquilino. Essa versão do clássico de Dostoiévski segue à risca o texto original, ambientando a história de Nastenka e o Sonhador em São Petersburgo e na época histórica do conto dostoievskiano. Mas o diretor se permite "viajar" um pouco na imaginação dos protagonistas: quando o Sonhador fala dos seus sonhos e delírios, as imagens (de uma adorável singeleza) mostram-no nas situações em que ele se projeta; da mesma forma, quando Nastenka pensa em se "casar com um príncipe chinês" temos realmente as imagens de seus devaneios. Em "Belye Nochi" o Sonhador, já velho e decrépito, habitando uma espelunca suja e enfumaçada, relembra aquelas quatro "noites brancas" em que conheceu a mulher da sua vida, que quatro dias depois viu desaparecer da sua visão para sempre nos braços do Outro Qualquer.

[sem título]

Diz que foi sem querer:
Mas já quis -
E me fez infeliz por vontade
E me fez mal sem maldade

A vilã de filme infantil
Magoa de um jeito gentil
Me engana de boa fé

ADORNO

Rosáceas nos cabelos
Volutas nos dedos
Mármore nos seios
Pedras raras nos olhos negros:
Castelo de desejo.

quarta-feira, 1 de abril de 2009

NÃO SUMI

Escolho a data de hoje, 1º de abril, dia da mentira, para voltar a mexer no meu blog. Não é mentira que eu ando meio "preguiçoso" quando se trata de me manter em dia com a tarefa de postar minhas coisas aqui. Também não deixa de ser verdade que hoje em dia as coisas andam meio mornas, meio sem novidades. Não estou apaixonado por ninguém, não vi nenhum filme legal (embora tenha vários na "fila" pra ser assistidos), não li nada de interessante ultimamente. Minha vida tem sido o trabalho, que está tranqüilo, e as precupações de praxe. Quando criei esse "Menino Homem" a tempos atrás, eu esperava ter assunto pra todos os dias, achava que tinha que falar de tudo, mesmo quando não tivesse nada pra dizer. O tempo passou, passou também a empolgação da novidade. Falei em outro lugar aqui no blog que sempre acontece isso com quem se aventura a ter uma "faceta no ciberespaço". Acontece de tempos em tempos isso de a gente deixar o ciberespaço de lado para cuidar de coisas da Terra, para lidar com fatos concretos, agir off-line. É talvez o que esteja acontecendo atualmente. Mas hoje, justamente no dia em que nada que se diga pode ser levado a sério, é que eu volto à lida. Se for mentira, se amanhã mesmo eu sair de novo pra só voltar daqui a não sei quantos dias, a culpa não é minha...quer dizer, é sim.

sexta-feira, 13 de março de 2009

TRACEY THORN: "RAISE THE ROOF"

Tracey Thorn é da dupla britânica Everything But the Girl. O timbre delicado e doce da sua voz, as canções com levadas que às vezes lembram a nossa boa e velha bossa nova, as letras inspiradas, têm sido a minha trilha sonora ultimamente. Essa "Raise the Roof" encanta pela simplicidade do arranjo, pela batida eletrônica não tão "batida" como as músicas que são feitas hoje em dia e sobretudo por este vídeo, com sua singela historinha de amor. "Raise the Roof" é do trabalho solo de Tracey, "Out of the Woods", de 2007. Ouça.
Para mais coisas sobre Tracey, visite o site dela:

"Raise the Roof", o vídeo, foi dirigido por Eduard Grau e filmado em Bucareste, na Romênia.

terça-feira, 10 de março de 2009

NÃO DEVERIA SABER

Um tolo contaria
Para o inimigo
O segredo.
Eu disse a ela
Tudo o que eu sentia.

Terceiro sobre a leveza

No ar, a palavra mais simples
desenha a história
Que vou contar amanhã
Depois de descansar.

O JOGO DA MEMÓRIA

Colho fragmentos:
São cacos
Quando volto o tempo

No caminho
Ecos indistintos
E incompletos

Vaga impressão
De já ter visto
Pois faz tanto

Só que isto
Já não faz sentido.

PAS-DE-DEUX *

Daí a gente dança
Que nem gente grande
Eu de longe e você por aí
- a música de fundo sem harmonia -
Então fica assim:
a gente fica agora e ainda hoje se esquece
Você de tudo e eu de mim.

* no balé clássico, é a coreografia executada por um casal de bailarinos.

TODAS AS OUTRAS

Não fosses tu a melhor de todas
As mulheres verdadeiras
Dessas que por não serem perfeitas
São lindas
Daquelas em que erros e enganos têm razão de ser
Não fosses tu a mais estranha
das desconhecidas
Se fosses banalmente natural,
Se estivesses, como todas, atada à superfície
Se os sorrisos e os cosméticos
Ou as lágrimas
Mentissem por você
Certamente eu não te amaria.

ACONTECEU COMIGO

Veja o que está escrito:
é tudo o que eu disse desde o início
Gosto de contar e recontar
o que aconteceu comigo
Leia o que foi visto
Pense nisso
É o que eu diria se te visse
Gosto de pensar que tudo isso
Está no ar
Guarde os retratos, os recados
os registros
Se um dia qualquer
você se lembrar

domingo, 1 de março de 2009

RARE BOOKS AND MANUSCRIPTS

RARE BOOKS AND MANUSCRIPTS (Inglaterra, 2005, 12 min. Direção por Bruce Webb. Com Neve McIntosh, Alexander Giles e Ian Mosby)



Numa tranqüila biblioteca, a tímida Jess apaixona-se por um rapaz e, depois de conseguir "roubar" o número do cartão dele, começa a enviar para ele livros cujos títulos formam mensagens secretas. Mas Jess também anda recebendo livros de nomes estranhos, que também formam frases com sentido completo. E mais: se o seu muso tem uma namorada, que um dia vai buscá-lo na biblioteca, quem será o seu "admirador secreto"?

rare books and manuscripts

BEM NA FITA

Gente! Olha só a nota que saiu no "Hora da Reflexão", boletim quinzenal que é publicado na empresa onde trabalho. A matéria fala maravilhas sobre o meu modesto Menino Homem. Eis a íntegra da nota:

(abre aspas)

A internet oferece uma ampla variedade de recursos para promover relações interativas entre seus usuários, mas os blogs são uma ferramenta que tem ganhado grande popularidade atualmente e se tornaram uma verdadeira febre. Se você é um dos poucos seres não familiarizados com tema, o blog é uma espécie de diário digital onde o internauta pode publicar textos, imagens e músicas. Neles é possível ver de tudo: do antigo diário das adolescentes, antes trancado a chaves, até conteúdos específicos sobre temas acadêmicos, empresariais ou culturais; notícias do dia-a-dia; ou o que mais passar pela cabeça do blogueiro. Um blog que merece ser visitado é o Menino Homem, criado por nosso colega Olavo Duarte, da GPROM e que traz poesias (muitas delas de autoria do próprio Olavo), curiosidades, notas históricas, atualidades, crônicas, críticas, vídeos, charges e muitas dicas culturais. Também vale muito a pena ler as postagens mais antigas, onde você vai encontrar resenhas e críticas sobre filmes, animações e curtas escolhidos a dedo. Uma leitura muito agradável e bastante educativa. Não deixe de conferir.

(fecha aspas)

DUAS MINHAS

FALSO PUDOR

De tudo, só sei um pouco:
É o que me basta para querer
o que me falta
Do mundo, apenas a parte que me cabe
faz pretender o que resta
A fresta da porta entreaberta
permite-me adivinhar
um vulto envolto num véu de ar
que deixa o segredo à mostra:
uma jóia por trás de uma parede.



O ÁLIBI

Ela me deixava ao mesmo tempo desconcertado e comovido
O engraçado susto que era repentino
E o constante sobressalto de costume
O fato de já saber dos descompassos, de já adivinhar
No tempo quando ela ia chegar
Deixava-me tão aflito de esperar
Que nenhuma surpresa seria novidade
Pairava então a expectativa no ar
E por mais que eu tentasse disfarçar
Eu era o principal suspeito.

EU NÃO TE AMO

Tens razão: eu não te amo
Porque mal te conheço:
Só vi até agora a superfície do oceano
Não passei do toque suave da seda do vestido
É verdade sim que não te amo
Mas desejo aprender qual é o caminho
E quero saber o que há e está escondido
Conhecer o segredo tão protegido
dentro do espelho.
Sim, não te amo, não
Porque não fui ao abismo,
Talvez por medo,
Porque não desci ao inferno contigo
Para te dar a mão no desespero
Também não estivemos no céu porque
Estivemos parados olhando para o chão

Quando o teu sorriso seria o meu sol noite e dia,
Não te procurei pelos lugares aonde você ia.

Não te amo, porque não me confundi contigo
E também porque não me perdi no meio de tudo
Para te encontrar.

Talvez um dia eu te diga tudo isso.

CAIXA DE PASSADO

Presente no meu dia é o que já foi longe no tempo
Recorda-se de repente algo do passado
Voltam os relógios para o instante do começo
Torna a tocar desde o início a melodia.
E eu me sinto como se nascesse agora
Para a época em que eu não sabia que já estava vivo
Porque a voz que por dentro se calava
Não me havia dito.
Retorna a impressão inicial da novidade,
Repete-se a surpresa
O segredo deixa de ser revelado
Para ser redescoberto.

UM DRUMMOND

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

(1902-1987)

AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
e o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

O SONHO DO CARACOL

El Sueño del Caracol [Schneckentraum] (Espanha, Alemanha,2001, 15 min. Direção por Iván Sáinz-Pardo,com Julia Brendler, Fabian Busch)

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

A METADE PARTIDA

eu suporto não ser
em silêncio

mero ermo

mudo amor que tenho em mim
segue, pórem
teus passos

enfermo do bem que guardo
em segredo

Não me importo pela dor que sinto:

por ter sentido por ti.

METRÓPOLE

Desapareço na cidade
Para não te encontrar
Vou a lugares onde te vi
para ver se você
Não está

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

PAT GETS A CAT

domingo, 22 de fevereiro de 2009

SIGNS

[SIGNS, EUA, 2009,12 min; direção por Patrick Hughes; com Nick Russel & Kestie Morassi]

sábado, 14 de fevereiro de 2009

A ONDA E A PEDRA

Lenta erosão contra a montanha:
É assim que desapareces;
Uma palavra a menos cada dia
Um instante a mais de ausência
É como o final de uma música
Ainda acordes distantes -
Um longo solo em surdina.

CULPADA DE TUDO

Que ela me confessa
Sem perceber
Quando o olhar se acanha
Não há dúvida
Se ela se envergonha
De se perceber observada
Ela se entrega
Ela me conta os segredos dela
Quando desvia o olhar para a janela
Quando se enrubesce por me ver
Ela se deixa entrever
E em vão ainda tenta esconder o que sente
Mas, cá entre nós
Ela sabe que não mente muito bem.

SÓ UMA MULHER

Trama seus truques banais
Coisa de vilã de novela
Risível maldade de mulher

Deixa-me desconcertado durante o dia
Quando vem no pensamento
Aquela idéia
Dissimule bem o sentimento que tens
Não deixe que eu espreite
Na fresta do vestido azul
Um coração que acelera
contra a vontade.

Olhe-me desse jeito que me desmonta
E brinca de montar com as peças
Um jogo de bagunça
Mas faça de conta que é
Só brincadeira.

VERSO BRANCO

Quando de vez em quando
Uma idéia ganha asas
Eu faço um laço com as palavras
Para prendê-la
Pássaro raro precisa ser preso
Para mostrar seu canto.

(sem título)

Quando acontece um poema comigo
Eu fico inquieto e esquisito
Fico alheio de tudo
Quando me vem à cabeça um verso.

Quando acontece de vir à mente
Algo que rima ou não
Mas que eu acho bonito
Procuro um pedaço de papel mais à mão
Senão esqueço:

Já levei um poema inteiro
Escrito na palma da mão
Por falta de espaço.

MAPA AFETIVO

Desenho o Contorno da tua face de cujo olhar desce uma lágrima
Como se fosse suave chuva sobre a rua da minha casa na manhã do último dia
Estendo os braços ao vazio do Horizonte
Em algum lugar da cidade que existe no pensamento chamo teu nome
Olhas para trás: só o vento te fala de mim agora.
Espalhei cartazes contando histórias tristes e dias distantes
Quis seguir pela contramão do tempo
Parar a cidade inteira pra te ver
Quis te prender
Te fazer esperar
Cercar todas as saídas
Pra não te ver fugir
E ir para longe te procurar dentro de mim.

CAÓTICA CANÇÃO

Minha confusa paixão por você
Te dá tudo o que tem de bom e de ruim
E quer você do jeito que vier

Minha canção é uma mistura de todas as palavras que te falo, as coisas absurdas que te digo e que me calo
É meu verso sem sentido querendo uma razão pra te querer

Minha emoção é que nem fogo de artifício:
Faz uma explosão que enche a noite de barulho e brilho
E se apaga depois
sem nenhum vestígio.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

MONDO LIVRO

Afonso Borges é um velho conhecido da cena cultural de Belo Horizonte. Ele organiza a mais de 20 anos o "Sempre Um Papo", projeto que já trouxe a cidade mais de duas mil personalidades do mundo editorial. O "Sempre um Papo" também acontece em Brasília, Rio de Janeiro, Curitiba, interior de Minas e Paraná. O público estimado em toda a existência do projeto ultrapassa mais de 800 mil pessoas. Borges, que é também poeta e jornalista, mantém na Rádio Guarani (96,5MHz) o "Mondo Livro - o blog sonoro da literatura" um programete super divertido sobre as novidades do mundo literário e da língua, que vai ao ar de segunda a sexta, às 9h10 e 18h30, com o patrocínio de uma construtora local. Bem humorado, instigante e inteligente. São esses os adjetivos que podem ser aplicados ao programa de Afonso Borges. Se você tiver uma oportunidade, ouça. Garanto que você vai gostar. Os áudios e os textos do Mondo Livro também estão disponíveis no blog.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

QUARTO DE DESPEJO

O subterrâneo do céu
Sob o chão dos teus pés
É minha atual habitação
No refugo do teu coração
Eu vivo
No porão do amor
Todos os guardados jazem esquecidos
E aquele mesmo retrato teu no meu sorriso
É desde então, um tempo já perdido,
Um rei que vive num asilo.

quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

30 de janeiro, Dia da Saudade



Jean-Pierre Gibrat, "Le Sursis"

Em vez de eu dizer o que eu penso, passo a palavra ao nosso amigo Pablo Neruda. Ele fala melhor do que eu.

PABLO NERUDA(RICARDO NEFTÁLI REYES, 1904-1973)
de "Crepusculário" (1923)
tradução por Aline Rabelo


SAUDADE - Que será... eu não sei... busquei
em certos dicionários poeirentos e antigos
e em outros livros que não me deram o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que as montanhas são azuis como ela,
que nela empalidecem amores distantes,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
a nomeia em um tremor de tranças e mãos.

E hoje, em Eça de Queiroz, sem olhar eu a adivinho,
seu segredo se evade, sua doçura me obceca
como uma borboleta de corpo estranho e fino
sempre distante - tão distante! - de minhas tranquilas redes.

Saudade... Ouça, vizinho, sabes o significado
desta palavra branca, que como um peixe se evade?
Não... e me treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

A RUA


Meu assunto o dia todo são as ruas. É nela em que ocorrem as infrações de trânsito, tema cotidiano do meu trabalho. Ruas. Avenidas. Praças. Da minha cidade, eu as conheço quase todas, de tanto ter que me referir a elas na minha atividade diária. Digitadores me perguntam o tempo todo onde fica tal rua, se tal rua cruza com tal avenida, se o número tal fica num bairro ou no outro. Conheço-as intimamente, as ruas. Por algumas eu tenho uma relação de afeto, gosto de ir até elas, nelas passear. Desses lugares, que o Dicionário Houaiss define como uma palavra derivada do latim "ruga", "sulco" e que significa "via pública urbana ladeada de casas, prédios, de muros ou jardins", eu guardo muitas das minhas memórias afetivas da cidade, do que vivi em todas elas. Dia desses escrevi um texto chamado "As Esquinas" do qual reproduzo aqui um trecho: "A canção dos Beatles, “In My Life”, nos diz “(...) há lugares dos quais vou me lembrar por toda a minha vida”. (There are places I'll remember all my life). E é assim exatamente o que acontece comigo. Tem certos lugares em Belo Horizonte que fazem parte da minha história. Se eu voltar a eles pelos meus pés ou através do pensamento, todas as memórias daqueles tempos viverão novamente. Basta alguém mencionar o nome de uma rua, basta-me passar por uma esquina para que as lembranças me levem de novo aos momentos que ali vivi. Tenho a memória dos meus passos, sei de cor os caminhos que segui e por que razão estive lá"
(...)
Agora me lembro de uma canção de Djavan, chamada, não por acaso, "As Esquinas", que diz "só eu sei as esquinas que atravessei". Caminho por toda a cidade, algumas vezes sem saber porque ando tão longe de casa, sem o que procurar e sem urgências para resolver. Simplesmente saio de casa, e sigo por um caminho indeterminado, que vai sair em algum lugar onde eu jamais havia estado antes. Gosto de caminhar vendo o movimento incessante, caótico e contraditório, de sentir a pulsação da cidade. O burburinho e o barulho me atraem e me prendem como música, as cores das vitrines reluzem nos meus olhos, as revistas, as placas, os vestidos das moças, os edifícios que espetam o céu e furam o ar pesado, as filas das pessoas nos caixas dos bancos, nos pontos de ônibus, cada um em um milhão que vem e vão, cada um em seu universo, cada um uma cidade em si mesmo: tudo isso é interessante para mim, tudo me comove e espanta, e eu vejo isso como se nunca antes tivesse visto. No meio de toda essa profusão, de repente me interessa um ramo florido de um ipê teimoso em ser belo no meio da fumaça preta, do concreto sujo, do cartaz apelativo de um produto qualquer. Eu percebo o olhar de um mendigo, o olhar de um ser humano esquecido pela multidão e vejo nele alguém que se parece com todos, que se parece comigo, que é da mesma espécie que eu; eu paro para deixar o turbilhão passar, o cordão de monstros mecânicos, de máquinas de aço seguir seu curso rumo a tudo o que não é passado, em direção ao distante; paro para ver o trânsito que leva tudo necessariamente para o seu fim e termo. Paro e fico olhando e meu olhar se perde seguindo o andar de uma desconhecida que nunca mais vou ver, mas que por um instante é bela de se ver e que a outros olhares atrai. Olho a cidade ao redor e quase tudo me interessa, como se fosse uma criança que pela primeira vez fosse a um parque de diversões, como o enamorado que nunca antes havia visto o rosto da sua amada; na França, me chamariam "flaneür", esse tipo especial de andarilho, que vaga sem rumo, um ser errante, alguém que deambula pela cidade sem um propósito aparente, buscando não se sabe o quê em sua caminhada. Ele nunca anda apenas por andar, para simplesmente ir a um lugar determinado, com uma hora definida para estar lá. O destino é o caminho, o objetivo da busca é o caminhar, ir-se sem plano ou roteiro. Simplesmente sair à rua, como se isto o vivificasse. Acho que sou assim. A rua, em todas as suas particularidades, me atrai e fascina.
Estou para ler desde muito tempo o A Alma Encantadora das Ruas, do jornalista, escritor, cronista e acadêmico João do Rio, nascido João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto (1881-1921). Já na primeira linha da obra, ele enuncia “Eu amo a rua”. João do Rio, ao morrer, foi “homenageado” com uma pequena rua em Botafogo, na cidade do Rio de Janeiro; a rua foi batizada com o nome de Paulo Barreto, pelo qual também era conhecido o escritor. Pouco para quem faz uma louvação à rua, em todos os seus aspectos urbanísticos e sociais. Pois se trata mesmo de um estudo profundo e abrangente, não propriamente acadêmico, sobre este espaço tão peculiar de sociabilidade que é a rua. Entre duas esquinas, todas as manifestações do humano são possíveis: os anúncios, os gritos, a fala animada das turmas de amigos, os afagos dos casais – hetero e homossexuais – a pressa e a vagareza dos passos, o apelo do mendigo por uma moeda, o religioso que prega, e o bêbado que erra os passos; na rua se exalta, se ostenta, se arroga, a violência se impõe. Num ambiente quase saturado, finito e confinado, limitado por leis, demarcados os espaços, convivemos todos e todos nos enfrentamos, estranhos entre si, cada qual em sua própria idiossincrasia, cada um em sua rua particular. João do Rio olha a tudo isso com o olhar menos corriqueiro, que observa as minúcias, os detalhes. O “Alma Encantadora das Ruas” jaz inerte na minha estante, à espera de que eu ande pelas ruas do Rio de Janeiro do início do século XX como se eu lá estivesse ou lá vivesse, à época em que o livro foi escrito.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

O SALVADOR DAS PÁTRIAS


charge de Duke, em "O Tempo" (21/01/2009)



"Yes, We Can".
Podemos?

A eleição do senador Barack Obama, 47 anos, o primeiro negro a ocupar a Casa Branca e um dos mais jovens a assumir o cargo tido como o mais importante do mundo, trouxe alento e esperança não só para os seus compatriotas, mas para quase o mundo inteiro. Antítese total do ocupante anterior da Salão Oval, ao contrário do atabalhoado e estouvado George W. Bush, autor de repetidas gafes, alvo da antipatia de quase todo mundo e tema predileto dos cartunistas, o simpático e carismático Obama está em lua de mel com a sua população. Por enquanto, exaltam-se as suas qualidades de excelente orador, de exímio articulador político, de ousado marqueteiro, de aglutinador de massas. Resta saber agora se, no dia a dia, recebidas as "heranças malditas" do(s) (des)governos anterior(es) Obama terá o mesmo jogo de cintura que exibiu no baile do dia da posse, se terá o mesmo dom de comover a todos com suas palavras bem redigidas e pronunciadas enfaticamente. O próprio Obama reconhece em seu discurso que os problemas e os inimigos são amplos e diversos. Obama sabe que o país que comandará nos próximos quatro anos estende sua influência política, sua força econômica e, principalmente, seu poderio militar, aos quatro cantos do mundo. Tudo que acontece nos EUA -de bom e de ruim - repercute em todo o planeta. Obama não pode ignorar que os EUA são responsáveis, pela sua política industrial e de meio ambiente, por boa parte do desequilíbrio climático que atualmente assola o mundo. Sabe que a Guerra no Iraque é um morticício inútil, que a situação só tende a piorar enquanto as tropas americanas por lá permanecerem. Obama deve conhecer muito bem sobre como o seu país interferiu nas questões internas de muitos países, quase sempre em nome dos interesses americanos. Obama sabe, sobretudo, que hoje em dia a crise bate a porta de seus compatriotas, toma-lhes as casas, os automóveis, a conta no banco e o emprego e tira-lhes o pão da mesa.
Mas que se acredite no que ele promete e propõe. Dê-se um voto de confiança ao jovem advogado de Chicago, ao jovem negro que fez o reverendo Jesse Jackson chorar ao anunciar "que na América tudo é possível", que evoca a memória de Martin Luther King e promete realizar o "sonho americano" da igualdade das raças. Os negros em toda a parte do mundo, do Brooklin a Soweto, já elegeram Obama como seu mais novo representante, como o mais novo abolidor, o messias tão esperado, o Dom Sebastião dos sonhadores, o Super Homem, o Salvador da Pátria. Obama, é claro, está longe de ser, sozinho, a solução de tudo. Dependerá muito de como ele e sua equipe conduzirão as coisas daqui pra frente. Vai depender de como os EUA vão propor saídas negociadas para os conflitos em que estão envolvidos. Vai depender da extinção de Guantánamo, de guardar os mísseis, de trazer seus soldados de volta para casa. Vai resolver se os americanos tiverem seus empregos outra vez, e a economia voltar a crescer, os pregões das bolsas de valores fecharem em alta, as automobilísticas pararem de demitir e de pegar dinheiro do governo. Isso tudo "dá pra fazer" como diria um político daqui de Minas que foi candidato a prefeito de Belo Horizonte.
Can We? Yes, We Can. (Podemos? Sim, Podemos). Se quisermos.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

UM OUTRO EU

Ostento a margem escura do poema
Por onde transborda a lágrima
de uma triste cena
De uma beleza esculpida e calculada

Não, não é a minha
tristeza
(Mais funda)
que está escrita

O personagem da desventurada poesia
é um outro eu
que me contesta.

O TEMPO

Um dia, às quatro horas da tarde
voltou o tempo
Todos os relógios da cidade ficaram parados
Esperando você.

MINÍMA LÍRICA E OUTROS POEMAS

MÍNIMA LÍRICA

De um romance
caí para um soneto -
Parti de um épico
para chegar
às vias de fato:
não deu uma linha no diário.


DIZ O DITADO

cão que ladra morde a língua:
Braço torcido quebra.
E chumbo trocado
Dói em dois.

SABEDORIA POPULAR

Desconfia do que os olhos não vêem:
o coração sente sem saber
até saudade do que não deve ser e
amor pelo que não existe.
Perdido por um, perdido por nenhum
Ditado repetido
Pois assim remediado está o que não tem sentido.

MENOS AMOR

Descontada a raiva que eu senti naquela hora/sobra o amor que eu sinto agora/é amor menos a frustração e o desencanto/É amor subtraindo a solidão/Mas o amor não é menor por causa disso/apesar de tanto tempo
Se retirado o excesso de emoção que você chama de exagero/se for riscada do papel a cena de desespero/a fala do meu personagem é essa canção que faz silêncio.

sábado, 10 de janeiro de 2009

ME TELEFONA: "Chamada em espera"



Chamada em Espera (The Phone Next Door, Brasil, 2008, 5 min. Direção por Tatiana Maciel. Roteiro por Tatiana Maciel, Clarice Falcão e Dennis Neto. Elenco: Clarice Falcão e Pedro Gracindo. Canção original por Clarice Falcão. Trilha Sonora por Ricco Vianna e Toninho Van Anh.Project: Direct 2009 Finalist
)

(com informações do "UOl Celebridades")

Bonitinho essa curta. Mas o que eu mais gostei nele é de ver a linda Clarice Falcão atuando. Pra quem acha que conhece ela de algum lugar, ela é sim aquela Mariana, a garota rebelde filha da personagem de Lília Cabral na novela das oito, "A Favorita". Mas aqui trata-se de um trabalho autoral - ela assina o roteiro, junto com Dennis Neto e Tatiana Maciel e também é autora da canção original. Clarice, pernambucana de Recife, tem 19 anos e ganhou visibilidade na mídia após protagonizar o curta "Laços", de Flávia Lacerda, que venceu o concurso internacional "Project Direct", do site YouTube e do Sundance Festival, em 2007. Este "Chamada em Espera" é finalista da edição 2009 do concurso.

"ORQUESTRA VAZIA"


Flagrante da galera do escritório "abafando" no Karaokê na última festinha de Natal.

(com informações de uai.com.br/dzaí)

Deu no jornal: o Karaokê, aquela cantoria desafinada em cima de uma base eletrônica pré-gravada, foi eleita a pior invenção tecnológica de todos os tempos. A pesquisa, financiada pelo governo britânico, ouviu cerca de dois mil e quinhentos adultos. Quem é que nunca se irritou com aquele sujeito (em geral, já "calibrado") que assassina a sua canção predileta ao microfone do karaokê? Para Kane Kramer, diretor do Instituto Inglês dos Inventores, o karaokê merece mesmo o topo da lista. "Ele é anti-social. Você geralmente vê em karaokês a proporção de 10 pessoas que querem cantar para 150 pessoas que têm que suportá-las", diz. Essas quinquilharias eletrônicas são invasivas, incômodas, deixam de levar em conta que, a despeito do direito das pessoas de se divertir, também deve ser respeitado o direito dos outros de não ser incomodados. Claro que você vai dizer: os incomodados que se retirem. Aí poderíamos perguntar: mas porque uma pessoa tem o poder de expulsar o outro de um ambiente coletivo, em que todos foram convidados a partilhar um momento de descontração?
O Karaokê surgiu em 1971. A invenção odiada por alguns foi criada pelo japonês Inoue Daisuke. Ele combinou o aparelho de som de um carro com um amplificador e microfones. O nome significa “orquestra vazia”.
Falando em karaokê, lembra daquele "telegrama ao vivo" que é quando pára um carro de som na porta da pessoa que vai ser "homenageada" pelo seu aniversário ou por alguma outra data importante? Em alto e mau som, em geral com uma trilha sonora baranga, o "locutor" recita um texto pré-fabricado, tão brega quanto a música. Resta saber se o "homenageado" não morre de vergonha e não tem a tentação de romper imediatamente com o autor da "homenagem"...esse costume, para sorte de todos, tem andado meio fora de moda ultimamente. Certa vez, o então prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, disse que o telegrama ao vivo merecia "o prêmio Nobel da breguice" e estudaria tomar medidas para coibir a prática que, aliás, pode muito bem ser categorizada como poluição sonora.